A despedida de Santana do Cariri

O Monumento Natural do Sítio Cana Brava, entre outros atrativos, abraça o Geossítio do Parque dos Pterossauros, uma das meninas dos olhos do saudoso professor Plácido Cidade Nuvens, local onde encontrou os primeiros e mais relevantes fósseis dos répteis voadores dos períodos jurássico e cretáceo. Era nossa última parada em Santana do Cariri.

Ao contrário do que imagina a sabedoria popular, os pterossauros não eram dinossauros, répteis sim, contemporâneos dos dinos, mas o termo “dinossauro” se restringe aos bichanos terrestres, o que, obviamente, não retira a importância e magia que circunda esses seres alados.

Já na nossa visita ao Museu de Paleontologia fiquei particularmente encantado com a reconstrução dos fósseis encontrados na unidade de conservação do Sítio Cana Brava. Foram duas as espécies destes animais catalogadas no local e meu interesse em conhece-lo só aumentou.

Das conversas com os funcionários do museu que a sede do geossítio estaria fechada, mas que lá seria possível encontrar ainda uma área de escavação paleontológica, porém com as atividades encerradas.

E assim seguimos pela rua indicada a partir do centro de Santana de Cariri rumo a sua zona rural. Pra nossa surpresa as placas indicativas do geossítio simplesmente somem. Sorte nossa que um morador que por ali passava a nos ver perdido logo nos socorre: “Ah! Os dinossauros do Doutor Plácido! É por aí subindo!”. Era tudo que eu não queria escutar. A subida estava em situação deplorável. Pensamos seriamente em aproveitar a acolhida sertaneja e deixar o carro na casa de nosso novo amigo para subir a pé, mas o mesmo tratou de jogar o balde de água fria: “ainda falta muito” e apontou pra ponta da serra onde se localizava o monumento natural e, consequentemente, o geossítio.

Seria muito tempo pra seguir a pé, o que em tempo de projetos com orçamentos apertados e poucos dias de campo, otimizar o processo seria fundamental. Findou por ser uma grande aventura offroad. Entre fendas e pedras soltas gigantes, conseguimos chegar ao que aparentava ser a entrada da unidade de conservação. De fato, era o mais abandonado de todos que visitamos até então.

O grande largo com alguns cavaletes dava a entender que ali seria o estacionamento. A sua frente um portão fechado que resolvemos pular, pensando ser ali a trilha até o geossítio. Só após 30 minutos caminhando que cruzamos com  um morador local que nos avisou que havíamos errado. Voltamos até o estacionamento, andamos mais um pouco e à  frente uma outra trilha, onde finalmente era possível ver os portais típicos que marcam os geossítios do Geopark Araripe.

Seguimos, finalmente, pela trilha correta. Deserta, nenhum visitante ou trabalhador. Sinais claros que há tempos a trilha não tinha manutenção. A chuva mais forte dificultou encontrar aves e afins, mas também nos deu aquele refresco do sol sertanejo, além de alguns escorregões.

De fato há ainda uma grande escavação no local, hoje me parece mais para fins didáticos, porém encontrava-se isolada por uma corda e sem maiores explicações para o processo do trabalho arqueológico,  algo que encontramos bem em alguns outros sítios arqueológicos brasileiros, como os do Parque Nacional da Serra da Capivara.

Há grandes construções no local, certamente em outros tempos o geossítio deveria ser bem visitado, mas agora a sensação de “cidade fantasma” se faz presente, apesar de todas as construções ainda apresentarem serem novas, o mato toma de conta de muitos dos lugares.

Foi um pouco difícil encontrar bons ângulos para fotos de paisagem lá de cima, praticamente todos os mirantes encontram-se encobertos, mas com um pouco de esforço e afastando alguns galhos era possível perceber que estávamos em cima de um grande paredão de arenito, não visível em nenhum momento da trilha de subida, muito provavelmente devido ao fato de subirmos por trás da montanha que leva à unidade de conservação.

A posição alta e próxima a um centro urbano, possibilitou ter um razoável acesso a sinal de celular. Por alguns aplicativos consegui ver que havia uma estrada de barro escondido por trás da vegetação a minha frente e pela base do paredão na qual provavelmente conseguiríamos bons ângulos do Sítio Cana Brava.

Gastamos a tarde das “horas ruins” e luz mais dura e quando o sol começou a descer entre as nuvens nubladas da chuva intermitente, descemos pra buscar uma panorâmica do sítio. Em todas as etapas da EcoExpedições esta foi sem dúvidas a que mais me exigiu “talento~offroad. Nossa caminhonete dançou bastante na descida, em alguns momentos inclusive exigindo que o Damásio descesse do carro e fosse orientando por quais caminhos colocar os pneus tamanha o jogo de pedras soltas. O pior estava por vir ainda. Quando terminarmos a descida, rumamos a tal vicinal, que de fato existia e logo se transformava numa nova subida, menos íngreme é verdade, mas com uma belíssima vista de todo paredão do Sítio Cana Brava como havíamos planejado, porém não contávamos com a tempestade que se avizinhou.

Enquanto o carro subia, uma cachoeira caia no sentido contrário. Muita água a ponto do carro sambar de um lado a outro da via e a algumas dezenas de vezes pensarmos em retornar. Com um pouco de esforço e uma pitada de sorte, transpomos os trechos mais perigosos e a chuva amenizou, bem nos trechos em que tínhamos as melhores visões da unidade de conservação.

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Sitio Cana Brava visto por baixo.

Ali fiquei por cerca de uma hora, com uma miscelânea de  belos ângulos e direito a algumas rapinantes que rasgavam os descampados em que estávamos. Quando falei em retornar, senti um certo alívio no meu amigo Damásio que não via a hora em sair daquele “buraco”. Segundo ele o fato da chuva ter parado e a “perícia do piloto” na subida o deixavam mais tranquilos pro “tobogã” da descida da volta. De fato um retorno tranquilo até Santana, com apenas uma parada pra transpor um trecho mais complexo.

De Santana seguimos de volta a nossa base no Crato. Estava perto da despedida, mas feliz com o resultado até aqui. Próxima parada, o Monumento das Cachoeiras do Rio Batateiras.

POSTADO POR LUIZ NETTO