A despedida de Sobral

Descemos a Serra da Meruoca de volta à cidade de Sobral e à casa do amigo Romilson. Aproveitamos mais um pouco dos bons restaurantes da cidade e partimos para a Floresta Nacional que leva o nome da cidade. Havia nos chamado a atenção o fato de ninguém em Sobral ter informações sobre a Flona. Definitivamente os sobralenses, exceto obviamente os funcionários do ICMBio, sequer sabiam que há uma Floresta Nacional nos arredores de seu município.

Lá, eu e o Chico, ficaríamos na base do ICMBio, mas quase todos dias teríamos a companhia dos nossos amigos sobralenses. O Romilson, o André Adeoadato, que nos guiara na Meruoca e a Marcia Sidrim foram alguns dos colegas que nos acompanharam em ao menos um dos dias, a Flona seria novidade pra todos.

A unidade de conservação é de dimensões reduzidas, não sentimos tanta necessidade de ter um guia, mas contamos com o apoio de Seu Serapião, um prestador de serviços do ICMBio que mora nos arredores da Floresta Nacional. A unidade é usada principalmente para a coleta de madeira, dentro do manejo sustentável estabelecido pela gestão. Já na portaria é possível ver muitas toras dispostas. As florestas nacionais geralmente são de grande relevância para as comunidades do seu entorno, por permitir o extrativismo sustentável, colaborando para o aumento da consciência das comunidades a respeito da relevância de sua preservação.

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Caminhando pela Flona de Sobral.

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Eu e Chico ladeados pelos colegas André e Márcia.

Especificamente no caso da Flona de Sobral, não há tantas comunidades no entorno, especialmente se comparamos com outras unidades do gênero, como por exemplo, a outra flona cearense, a do Araripe-Apodi, que será uma das próximas a serem visitadas.

A Flona de Sobral é uma caatinga quase que totalmente homogênea. Sofre um pouco com a pressão antrópica nas suas divisas, o que obviamente não é “privilégio” dela aqui no Brasil. Inclusive há uma grande piscicultura bem no seu limite.

A homogeneidade, aliada à área territorial reduzida da unidade de conservação, nos exige uma carga de criatividade um pouco maior. Muitas vezes este é o maior dos desafios em determinadas unidades de conservação para nós, fotógrafos. Havíamos passado por isso especialmente no Expedição Pernambuco, onde os parques estaduais criados recentemente ainda apresentavam uma floresta em início de recuperação. No caso de Sobral, a Flona já apresenta sinais de solidez em muitos de seus trechos, é possível inclusive se deparar com aves de porte maior, como diversas rapinantes e siriemas, apesar de serem bem ariscas e avessas ao contato humano. Especialmente nos açudes da unidade de conservação e de seu entorno é possível se deparar com muita facilidade com espécies como o gavião-caramujeiro, entre outros.

A floresta também não dispõe de muitas trilhas definidas, fizemos uso do leito dos riachos secos para nos locomovermos nos dias que lá estivemos. Foi bom especialmente para deixar o carro descansando após termos abusado dele nos dias de sobe e desce pela Meruoca. Na Flona de Sobral o meio de locomoção mais indicado terminou mesmo sendo o que mais gostamos, a pé! Certamente por isso saímos satisfeito com o rendimento dos dias.

Gastamos o máximo que pudemos da sola do coturno, não investimos tanto tempo na “caça” a mamíferos, mas terminamos sendo recompensados com um encontro inesperado no último dia, quando um solitário tatu cruzou nosso caminho perto da casa sede e nos rendeu inesperadas e ótimas fotos. Daquelas casualidades que a natureza gosta de aprontar com a gente. Ainda cruzamos com uma raposa neste mesmo dia, mas o adiantar da hora dificultou um pouco uma imagem aproveitável do bicho. A raposa viria ainda a nos causar nosso único contratempo de maior monta em Expedição Ceará até o momento, quando, literalmente, ao perseguimos uma  pedra fez questão de cortar nosso pneu e permanecer presa até o pneu seguir direto para o descarte.

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Fim da linha para nosso pneu.

Finalizado os serviços na UC, ficou mais fácil de se ter uma ideia melhor do local. O fato dos sobralenses não conhecerem a existência da unidade se deve, em partes, pelo afastamento do centro da cidade, mas também pelo fato da floresta estar inserida numa zona bem homogênea de caatinga, que não está, necessariamente, dentro da área protegida, de forma que os que por ali passam não percebem que estão dentro de uma área protegida. Em nossas imagens aéreas feito com o drone é possível ver bem este fenômeno. Em outras localidades a degradação do verde nas áreas externas logo evidenciam o limite de uma unidade de conservação, o que não acontece tanto na floresta.

A unidade de conservação talvez não desperte tão o interesse de turistas e fotógrafos em geral, mas sua proximidade com um a grande cidade aumenta sua relevância do ponto de vista de pesquisa e trabalhos de educação ambiental junto a escolas entre outros. O ICMBio goza de boa estrutura, com guaritas e casas de apoio para seguranças e funcionários. Há ainda uma casa de apoio para pesquisadores e técnicos, onde tivemos a honra de ficar hospedados com o conforto de termos chuveiro elétrico e ar-condicionado à disposição.

Talvez o fato de não termos criado tantas expectativas, nos fez sair um tanto satisfeitos da Flona. Daqui descemos pro Araripe, para a primeira das unidades do enorme mosaico de UC´s da Chapada do Araripe. A primeira parada será a Estação Ecológica de Aiuaba, na cidade de mesmo nome.

Até lá!

POSTADO POR LUIZ NETTO