A Flona do Araripe e o soldadinho

O Mosaico do Araripe se desenhava novamente a nossa frente, desta feita com a Floresta Nacional do Araripe-Apodi.

Diferentemente de Aiuaba, estávamos agora diante de uma das unidades de conservação mais conhecidas do sertão brasileiro, além de cercada por duas das maiores cidades do interior cearense: Juazeiro do Norte e Crato, a primeira inclusive com aeroporto à disposição.

A Flona é muito procurada pela população local, inclusive para atividades esportivas, em especial o Mountain Bike. Nos fins de semana não é nem um pouco difícil topar com ciclistas nas principais trilhas que rodeiam toda a Chapada do Araripe.

As principais trilhas passam bem no limite dos pontos altos do Chapada, o que a deixa recheada de belíssimos mirantes. Mais uma vez o ICMBio abrira as portas de sua base, que, assim como em Aiuaba, goza de uma bela estrutura, com alojamento, banheiro, cozinha, torres de observação, entre outros.

Cheguei ao Crato, local da sede do ICMBio, no final da tarde, desta vez sozinho, o restante da equipe voltara ao Piauí, enquanto aproveitei que a Flona ficava no caminho do retorno a Recife para fazer uma última parada.

Meu guia local seria o Aderson, que há anos trabalha como guia e brigadista na região, tanto na Flona, quanto na APA da Chapada do Araripe, que rodeia toda a Flona.

A APA não seria objetivo primário desta visita, mas era impossível não fotografá-la também, bastava sair dos limites da Flona para estar na APA, são gêmeas siamesas, mas pela vastidão da APA e sua magnífica diversidade de geosítios, optamos por deixá-la para uma próxima oportunidade. Os poucos dias que restavam nesta fase do projeto, nos fizeram focar especificamente na Flona, especialmente por ser uma unidade bem mais preservada, com uma caatinga arbustiva e uma mata seca de alto valor agregado.

O Aderson era indicação da Verônica, gestora da unidade por parte do ICMBio, melhor referendado impossível, e a primeira opção foi a melhor possível. Ao chegar, me aguardava às portas do alojamento, mesmo vendo minha aparência de cansado não titubeou: “quer aproveitar o resto da tarde pra já conhecer alguma coisa?”. O cansaço se esvaiu no mesmo instante. Parei nossa caminhonete por ali mesmo e antes mesmo de descarregar toda as malas, peguei a câmera e segui com meu novo amigo.

Aderson tinha apenas poucas informações do projeto que trocara por ele por telefone e whatsapp, mas pelo visto entendera tudo direitinho. As poucas horas do dia usamos pra visitar a antiga pista de pouso do Crato, hoje engolida lentamente pela caatinga, dentro da unidade de conservação. Localizada próxima do alojamento e pro lado oposto das principais trilhas, seria interessante “matar” logo esse lado da UC já no primeiro dia.

Do alojamento pra lá são cerca de 30 minutos de caminhada, talvez menos, mas pra um fotografo apaixonado pela caatinga como eu, demoramos mais de uma hora de tanto que parei pra fotografar ao longo do trajeto. A jornada pela Aiuaba havia incentivado sobremaneira a desvendar os mistérios do Cariri e do Araripe cearense. A região estava verde e até florida, fruto de algumas poucas chuvas recentes. Como sempre, pouca água já é suficiente para criar uma gigante metamorfose na floresta branca da caatinga.

O trajeto pra antiga pista de pouso também possui um grande santuário com a imagem de um santa venerada na região. Aliás, a vocação católica no Juazeiro, terra do Padre Cícero, dispensa maiores apresentações. Ao chegar na pista é possível admirar um pouco a força da natureza. O asfalto já não existe mais, entretanto há ainda uma grande clareira, lentamente sendo sobrepujada pela valente caatinga.

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Mapa da Flona disponível na sede do ICMBio.

 

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Dicas de ouro por todos os cantos da Flona.

São árvores de grande porte, bem recheadas de passeriformes, o que pra uma primeira investida quase que de improviso nos dava uma boa ideia do que tínhamos pela frente. Aderson ainda daria uma segunda bola dentro ao fim de nossa primeira tarde: “amanhã, que horas? Quatro da manhã?”. Não precisei sequer explicar nossos horários pouco convencionais.

Dei uma colher de chá, a proximidade do alojamento com os mirantes que visitaríamos na primeiro manhã, permitia que saíssemos às 04:30! Desci rapidamente ao Crato pra reabastecer os mantimentos, aproveitando pra jantar na civilização (a proximidade do alojamento com o centro do Crato, menos de 20km todo em estrada asfaltada) permitia este “luxo” e terminou sendo uma rotina nas noites em que cheguei menos cansado.

Acordei às 03:00 pra tentar encontrar algumas corujas no próprio alojamento. Tive sucesso apenas com a corujinha-do-mato, mas às 04:30 avistei já na portaria da UC o novo escudeiro, pontualíssimo. Não restavam dúvidas, a escolha do guia havia sido ótima! Apressamos o passo, chegamos ao Mirante da Coruja, a primeira parada, em cerca de 20 minutos, tripé montado, o astro-rei já despontava no horizonte iluminando o “Cratinho de açúcar” das letras gonzaguianas.

A bela cidade do Crato era ainda mais imponente daquele ponto. O ouro que emanava dos primeiros raios do sol prenunciava os dias belos que se seguiriam. Na mesma manhã fomos a outros dois mirantes próximos, todos de igual beleza e já com o sol totalmente acima do horizonte, optamos por retornar ao alojamento para apanhar o carro.

O primeiro dia seria o já tradicional dia de reconhecimento geral da UC e assim seguimos. Cruzamos a Flona de ponta a ponta, parando em vários outros mirantes, alguns em horas pouco propícias, uma vez que as curvas da chapada colocavam o sol ora à frente, ora atrás das escarpas. Mapeamos tudo, inclusive os melhores horários para visitar cada um deles e retornaríamos ao longo dos próximos dias, uns no início da manhã, outros no fim da tarde, buscando sempre o melhor momento. A Flona tem essa peculiaridade, sua localização exatamente ao longo do paredão da Chapada do Araripe, permite uma infinidade de mirantes. Um mais belo que o outro.

 

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A alvorada com o Crato ao fundo, a partir do Mirante da Coruja.

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Esse escriba num dos mirantes da Flona, pelas lentes do celular do colega Aderson.

As primeiras impressões haviam sido as melhores possíveis, apesar do grande fluxo de pessoas, especialmente ciclistas e alguns turistas mais fortuitos, a mata estava em bom estado de preservação, com muito a mostrar e já no primeiro dia, pra minha surpresa (e bota surpresa nisso), eis que cruza ao longe e de forma efêmera o primeiro grande felino de toda Colecão EcoExpedições. Havíamos passado por muitos dos locais mais preservados no Nordeste, e, a exceção de alguns sons e pegadas no sul do Piauí, os grandes felinos do Brasil ainda não haviam dado as caras (claro, é extremamente complexo se encontrar com eles na agressiva vegetação da caatinga, mas a esperança sempre segue em cada dia de trabalho).

Ainda fica a dúvida se tratava-se de um gato-mourisco ou uma onça-parda juvenil, a distância não permitiu identificação melhor e sequer tive tempo pra um único clique (mesmo se conseguisse teria sido complexo pelas condições de luminosidade), arrsicaria tratar-se de um mourisco, mas eis que no boteco em que parávamos pra tomar um refrigerante e celebrar o fim do primeiro dia de ofício, chegam cerca de 5 ciclistas e ao verem as câmeras na mesa, fazem aquela pergunta “fatídica”: “viram a onça?”. “Vi, mas não deu pra fotografar”.

A “raiva” do fotógrafo é maior quando o camarada saca seu iphone e me mostra uma foto que, apesar da distância, já tornava um pouco mais possível identificar, apesar de ainda não ter certeza, reforçou a ideia do mourisco. “Passou ao nosso lado”, arrematou o novo amigo pra “desespero” do fotógrafo aqui. Triste por ter “perdido” a “onça”, mas feliz pelos novos amigos, segui direto pro Crato pra fazer mais um jantar numa lanchonete local e desabei no alojamento em seguida. Como estava só, fazia as vezes de motorista também, o cansaço era dobrado, mas as recompensas fotográficas ajudavam a recuperar o corpo ao fim de cada dia.

No segundo dia refizemos os mirantes nas horas mais adequadas, agora parando veículo em alguns locais estratégicos e seguindo a pé aos principais pontos. Ao todo foram longos e gratificantes 15 quilômetros caminhados das primeiras às últimas luzes do dia.

O terceiro dia havíamos reservado à “cereja do bolo”, o precioso soldadinho-do-araripe, ave endêmica da região, um dos tesouros da ornitologia brasileira. Apesar de raro, a população é de menos de mil indivíduos, e necessitando de certa abundância de água para se desenvolver, quis o destino que a Chapada gozasse de diversas nascentes e que o bicho fosse fácil de responder ao playback.

Aderson já havia me dito que chegaríamos ao soldadinho por um caminho alternativo, descendo o paredão da Flona e foi, de fato, espetacular. Passamos por belos mirantes que nos permitiu registrar pelo alto inclusive as RPPN’s da Aquasis, uma ONG local fundamental para a preservação da espécie.

A descida, confesso, foi pesada, cheguei bem cansado ao sopé da Chapada do Araripe, mas avistei meu primeiro soldadinho sem ajuda de playback e sem ajuda do Aderson. O bicho parecia ter pena da minha situação e cantarolava bem ali na minha frente, nunca havia visto um, mas de tanto baixar os áudios para esse primeiro encontro, reconheceria seu canto a dezenas de metros. Aderson sugeriu não gastarmos muito tempo ali, pois haviam muitos destes moradores alados nas nascentes que estariam a cerca de 200 metros.

E lá fomos nós. Aderson certeiro como sempre. Playback ativado e alguns machos e uma fêmea nos rodearam por vários instantes. Fiquei mais de uma hora por ali, fotografar uma espécie da lista vermelha da IUCN em liberdade é sempre um momento especial na vida de um fotógrafo de natureza.

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O soldadinho-do-araripe. Prometemos belas fotos dele no livro final do projeto.

Mais uma vez realizado, terminamos o dia visitando as RPPN’s da aquasis e alguns pontos da APA da Chapada do Araripe. Dias bons estes.

Ainda teria mais um dia e meio antes de voltar a Recife para o fechamento desta fase de Expedição Ceará. Optamos por focar na fauna mais difícil. Focamos no playback das aves mais raras que já deram as caras por ali de acordo com os registros que dispúnhamos em mãos e, quem sabe, nos mamíferos. Aderson me levaria aos locais onde ele achava que não encontraríamos pessoas e teríamos maiores facilidades para a fauna. Nas aves raras, pouco sucesso, tirando uma longínqua resposta de um araponga-do-nordeste, sem fotos, até conseguimos belas fotos, mas de aves mais comuns. Já nos mamíferos tivemos sucesso com algumas arredias cutias que rodeavam o cemitério da Flona (sim, há um antigo cemitério dentro da área da unidade de conservação, inclusive com alguns corpos ainda enterrados no local).

O mosaico do Araripe agora já se encontrava mais revelado diante de nossos olhos, com a certeza que as próximas UC’s da região previstas serão igualmente recompensadoras.

Temporariamente voltando pra casa, mas nas próximas semanas já tem mais Expedição Ceará. Até lá!

POSTADO POR LUIZ NETTO.