A saga do Poty

Nosso processo de retorno ao norte do estado do Piauí passaria por um gigante “corredor” verde na divisa dos estados do Piauí com o Ceará. A APA da Serra da Ibiapaba é uma das maiores do Nordeste e se prolonga pela divisa de ambos os estados desde o sertão, ao sul, até o litoral, abrangendo uma gama de ecossistemas ricos e distintos ao longo de seu território, desde caatinga, passando pelo cerrado, até os biomas litorâneos. Seria como visitar todo o Piauí numa única região.

Dada as dimensões homéricas na APA, dividimos nossa visita em vários pontos, começando obviamente pelo sul do estado, próximo da Chapada do Araripe, de onde partimos. Saímos de Francisco Macedo ao fim de tarde com destino a Buriti dos Montes, cidade que nos levaria até o famoso Cânion do Rio Poty, uma das maravilhas do Piauí.

Belo e imponente, com paredões suntuosos que margeiam um estreito canal, os cânions são protegidos também pelo isolamento do local, que o diga nossa saga pra chegar ao povoado de Conceição dos Marreiros que findaria por ser nossa base de apoio.

A estratégia para o último dia no Araripe na verdade foi sair de Francisco Macedo visitando alguns locais da Chapada que estavam “no caminho de saída” da APA, uma vez que a “saída” da APA Chapada do Araripe e a “entrada” na APA da Serra da Ibiapaba são relativamente próximas, o que fez desse deslocamento um rico momento de nossa jornada em que, mesmo na estrada, cruzamos com uma infinidade de espécies nativas do Piauí. Num dos trechos já próximos de Buriti dos Montes, no cair da noite, cruzamos em menos de meia-hora com um tatu, uma jiboia e alguns roedores, provavelmente preás, que insistiam em se arriscar em frente a nosso carro. Eram bons presságios do que estava por vir.

Esse deslocamento, cercado de paradas fotográficas, nos fez chegar em Buriti no cair da noite. A Secretaria de Cultura havia nos dado um grande apoio, mas nossas impróprias horas de trabalho nos fizeram chegar ao município já um pouco tarde para as tradições locais.

A cidade estava um deserto, todos recolhidos em suas casas, os telefones da Secretaria, mesmo os celulares, já não atendiam, os hotéis, ao menos o único da cidade, fechado e sem viva alma na portaria. O mais interessante foi ver o hotel todo aberto, apesar de escuro, entramos, batemos, chamamos por alguém e a única resposta que obtivemos foi o silêncio sepulcral.

A secretaria havia nos informado para seguirmos até Conceição dos Marreiros, povoado onde teríamos acesso ao cânion, o problema é que de Buriti para lá seriam incríveis 70km em estrada de barro, o que, obviamente, na parte da noite e sem “vivalma” para nos indicar o caminho, seria algo complexo, até mesmo pra pessoas como nós. Sequer ao GPS poderíamos recorrer, pois, de fato, aquelas vias rurais estavam longe de serem plotadas até mesmo nos mapas mais recentes.

Chegar tarde numa cidade pequena e em que não conhecíamos nada, encontrar tudo fechado, absolutamente tudo, não é das recepções que imaginávamos, na verdade nutríamos a esperança de ainda seguir pros Marreiros naquela noite para já amanhecer no cânion. Nos restou encostar o carro no posto de gasolina mais próximo, que também estava fechado e sem nenhum vigia, ou algo do tipo. Confesso que fico super feliz quando chego a lugares do Brasil em que podemos nos dar o luxo de dormir de portas abertas e despreocupados com nossos bens e entes queridos.

Obviamente quando o dia nasceu, fomos a atração da cidade. Todo mundo já queria saber quem eram aquelas figuras desconhecidas dormindo dentro do carro no meio da cidade.

Fomos à padaria mais próxima resolver dois problemas em um, a fome e a busca de informações. Não conseguimos contato com a Secretaria de Cultura, já era um sábado, mas com base nas informações que haviam nos passado no dia anterior, os moradores locais nos explicaram direitinho como chegar ao povoado de Conceição dos Marreiros.

Uma coisa havíamos acertado, não iríamos acertar nunca o local se tivéssemos partido durante a noite. Dormir na cidade se revelara a estratégia mais correta, de fato. O trajeto era longo, sinuoso e com referências esparsas, coisas do tipo: “após o assentamento, uns 500 metros vai ter uma entrada escondida…”.

E assim seguimos, de entrada escondida em entrada escondida, recepcionados por belos exemplares da avifauna sertaneja, como corujas-buraqueiras, casacas-de-couro e até um grande urubu-rei que ao longe dava sua graça.

Nossa saga se encerrou já perto da hora do almoço. Nossas orientações eram de seguir até a Escola Sebastião Marreiro, onde as professoras já estavam avisadas de nossa chegada e onde teríamos comida e abrigo.

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E no caminho cruzamos com empreendimentos de “gente famosa” em terras piauienses (foto: instagram @luiznetto777).

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Os primeiros “moradores” de Conceição dos Marreiros a verem a nossa chegada. Fizeram questão de vir até a porta do carro dar boas vindas.

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Escola Sebastião Marreiro. Chegar até aqui foi uma aventura à parte.

Como éramos esperados no local no dia anterior (e obviamente por lá não havia sinal de celular), as professoras estavam surpresas com nossa tardia chegada. Explicamos os problemas que tivemos e o horário que chegamos a Buriti, que complicou nossa vinda à parte rural na noite. Não teve como não sentir uma certa dor no coração ao saber que haviam preparado um jantar pra nossa chegada, em vão.

Mas o que vale é que a “saga” pra chegar ao cânion havia terminado e era hora de usufruir da benção de estar num dos locais mais belos do país. Lá estávamos, num pedaço isolado do nordeste brasileiro, longe por demais da cidade mais próxima, mas com um mundo de possibilidades a nossa frente, que foram inclusive muito além do cânion.

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Do quarto-depósito da escola fizemos a nossa a casa. A marca do arroz define bem a relação dos fotógrafos envolvidos.

A parte sul da APA da Serra da Ibiapaba é uma rica zona de caatinga contando com belas formações rochosas, grafismos e lagos ricos em biodiversidade, que nos renderam até fotos de algumas espécies de mergulhão difíceis de serem encontrados em território piauiense, raposas e gambás, especialmente no cair da noite.

Obviamente a grande estrela local seria o Poty e suas margens. De Conceição dos Marreiros aos pontos mais interessantes do paredão levamos cerca de 30 minutos, entre trechos de carro e a pé. Do topo, era possível ter uma real noção da dimensão do cânion do Poty e a relevância que o local teria para o nosso projeto.

Singular, não haveria de ter em “Expedição Piauí” local como esse. Uma pena que o isolamento e o desconhecimento por parte do brasileiro deixem o Poty ainda à margem dos ganhos que o turismo poderia trazer àquelas famílias. Por outro lado, é este mesmo isolamento que vem garantindo paredões límpidos, sem pichações e outros tipos de agressões a este rico patrimônio piauiense.

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Chico na parte alta do Cânion do Rio Poty.

A sensação de caminhar pelo Vale do Poty era, por vezes, como de se sentir em outro planeta, com crateras que remontavam às lunares, durante cerca de dois dias que exploramos o cânion não cruzamos com um único ser humano, excetuando-se quando retornávamos à escola, nossa casa e ponto de apoio quando lá estivemos. Todas as dificuldades para chegar naquelas terras valeram por demais cada suor.


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Alunos da Escola Sebastião Marreiro durante o intervalo do almoço e um penetra chato filando o desenho animado. 

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Sala de aula.
 

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Sala de aula.
 

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Alunas cuidando do jardim da escola. Uma das atividades didáticas do local.

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Foto de nossa despedida, junto aos alunos e professores da Escola Sebastião Marreiros. Daqueles momentos que levamos pra sempre na memória no local reservado aos melhores dias de nossas vidas (foto: instagram @luiznetto777).

Sem dúvidas, passados alguns dias, já posso afirmar que a maneira como fomos recebidos e tratados pelos professores da unidade escolar nos enchem de esperança num país melhor. Saber que num local tão distante das cidades, tão isolado, pode-se contar com escola em tempo integral, onde as crianças fazem todas as refeições na escola, possuem acesso à energia solar, cuidam do jardim, entre outras ricas atividades que ajudam na formação dos alunos, nos deixam a certeza que dias melhores estão por vir.

Deixamos Conceição dos Marreiros com a sensação de dever cumprido rumo à cidade de Caxingó, nossa base de apoio pra conhecer a parte norte da Serra da Ibiapaba. Dizem que será algo completamente diferente, apesar de ser a mesma área de proteção. Veremos. Antes dela, uma parada na capital, par visitamos a Floresta Nacional de Palmares.

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 05 DE FEVEREIRO DE 2016