Alegrete do Piauí

Por Fred França
Foto: Luiz Netto

Alegrete do Piauí é mais uma das pequenas cidades do Piauí a ter parte de seu território a integrar a APA da Chapada do Araripe*. O município integrava no passado a cidade de São Julião e sua história de ocupação remonta a muitos dos pioneiros do araripe piauiense.

As primeiras raízes da região remontam ao passado da Serra da Tiririca, local que hoje integra o município, e estão ligadas à família Alencar, a mais poderosa da região, com a chegada do Capitão Antonio Pereira de Alencar e sua esposa Totonha Alencar. O casal fugiu de Exu, Pernambuco, região que era a base da família, mas um caldeirão em efervescência constante, com diversas disputadas entre famílias rivais, e muitas vezes, como foi o caso, com disputas dentro da própria família, quando Capitão Antônio entrou em rixa com um tio legítimo, João Alencar.

O próprio Padre Marcos, que batiza o município vizinho, tem grande importância na ocupação da região ainda no século XIX. As áreas de terras haviam sido divididas em “datas”, sendo a “Data Tiririca”, em alusão à serra, adquirida por Joaquim Ramos, engenheiro casado com uma sobrinha do Padre Marcos, fundando a Fazenda Alegrete, onde hoje se encontra o distrito de Alegrete Velho. A Fazenda foi ganhando proporções ao longo dos anos, com várias famílias fixadas já no fim do século XIX, impulsionada por uma incipiente, mas promissora pecuária, funcionando como entreposto de rotas entre destinos mais tradicionais do Araripe, onde além de gado também se comercializava escravos. Só na Fazenda Alegrete costumeiramente a senzala ultrapassava duas dezenas de negros. Tal comércio, se não permitia Alegrete se destacar perante os grandes núcleos urbanos da época, ao menos lhe deu certo destaque econômico junto aos pequenos povoados que a circundavam. Foi com trabalho escravo, inclusive, que grandes obras locais como barragens foram realizadas, inclusive a que hoje é popularmente conhecida como “Barragem dos Escravos”.

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A APA da Chapada do Araripe possui terras nos e estados do Ceará, Pernambuco e Piauí.

Além da região da Fazenda Alegrete, já no século XX, a região de um lago local, onde a caça era abundante, especialmente de cervídeos, começou a ser densamente ocupada, com destaque para o pioneiro Tertuliano Leal. O local passou a ser conhecido por “Poço dos Veados”, que em pouco tempo e com o início da escassez da caça, começa a se destacar na agricultura, principalmente nas produções de milho e mandioca, lavouras comuns e típicas do Araripe. Em pouco tempo, Poço dos Veados havia superado a Fazenda Alegrete em relevância e estrutura.

Não demorou para no fim da década de 40 acontecer a primeira feira livre em Poço dos Veados, na ocasião, tal qual acontece até os dias de hoje, já naquela época Picos, no Piauí, e Araripina, em Pernambuco, já eram as cidades mais desenvolvidas da região. A estrada então construída entre os dois polos passava justamente pela maior fazenda de Poço dos Veados, o que contribuiu sobremaneira para o crescimento e estabelecimento definitivo do grupamento urbano, que virou entreposto de mascates não só do Piauí e Pernambuco, como também do Ceará e até de estados mais distantes, como o Maranhão.

Em 1950 “Poço dos Veados” já se chamava Alegrete, em homenagem à antiga Fazenda Alegrete, hoje Alegrete Velho e núcleo de descendentes de escravos e quilombolas. Ainda nesta década seria fundado seu primeiro Mercado Público.

A região só começou a galgar passos além do produção agrícola familiar na década de 60, com a implantação de uma Usina de Algodão da família Arraes, propriedade de João Arraes Filho, parente direto do futuro governador de Pernambuco, o cearense Miguel Arraes, figura histórica da política nacional e que em alguns anos seria forçado a seguir ao exílio em virtude do golpe militar. Era o início da agroindústria no Alegrete.

A precariedade da estrutura logística local começa a dirimir na década de 70 quando os militares, já no comando do governo nacional, decidem pela pavimentação da BR 316 (a famosa transamazônica), desde o Pará até Pernambuco, fazendo Alegrete começar a estruturar sua emancipação de São Julião, fato que por disputas políticas só viria a acontecer em 1993, quando o Distrito de Alegrete passa a se chamar Alegrete do Piauí, com sua sede localizada a pouco mais de 375 km da capital, Teresina.

Alegrete do Piauí integra o conjunto de pequenos municípios piauienses próximos à divisa pernambucana que possuem características muito similares, tais como Francisco Macedo, Marcolândia e Padre Marcos. Característica comum a todas estas cidades, desde os idos da Fazenda Alegrete, é se aproveitar da estrutura e do desenvolvimento dos dois grandes municípios destas bandas do Araripe, Picos, no Piauí, e Araripina, em Pernambuco, sendo a “rota comercial” entre as duas cidades vital para a economia de Alegrete e redondezas.

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Francisco Macedo, cidade vizinha à Alegrete do Piauí. Sudoeste do estado é repleto de pequenos municípios de menos de 10 mil habitantes.

Atualmente, a cidade segue os mesmos padrões de suas vizinhas, com uma população estimada em cerca de 5100 habitantes e com IDH de 0,585, baixo para a classificação das Nações Unidas, mas o dobro se comparado ao primeiro índice registrado em 1991.

Hoje a economia municipal gira em torno do comércio e do agronegócio, possuindo lavouras de cereais, leguminosas e oleaginosas, sendo o feijão a principal lavoura do município, seguido de perto pelas plantações de milho. Na pecuária, o gado bovino é a sua maior produção, com um plantel municipal de 5 mil cabeças, seguidos por caprinos e ovinos, que, juntos, compõem um rebanho local de mais 5 mil cabeças.

*A APA Chapada do Araripe estará no livro fotográfico Expedição Piauí –O Sol do Equador. Mais informações sobre a Coleção EcoExpedições no menu esquerdo do portal da Panorama Cultural ou no site www.colecaoecoexpedicoes.com.br. Os extras publicados no portal trazem informações e curiosidades das áreas visitadas ao longo do projeto.