As Maravilhas do Catimbau


Falar das maravilhas do Catimbau, pra nós, é algo até redundante. Acho que junto com o Parque Nacional Fernando de Noronha é o lugar que mais fotografei na minha vida. Só nesse projeto foram três idas mais que produtivas e satisfatórias.

Da última vez quando aqui estivemos, ainda em Dezembro de 2013, peitamos um sertão seco. Faziam anos que a chuva não chegava por aqui e até a Lagoa do Puiu se viu seca pela primeira vez em 100 anos. Foi difícil mas ainda assim, o Catimbau continuou a nos revelar suas belas fotos.

Passados esses meses, pra lá retornamos. O colega Bart, que teve que dar uma passadinha em sua casa na Holanda, não nos acompanhou desta vez. Meu colega Jadson Lima, produtor que já vem me apoiando em outros projetos me fez companhia nesta fase do trabalho de campo em que iríamos rodar por três unidades do sertão: Catimbau, Serra Negra e Serra da Canoa.

Já tínhamos os apoios locais definidos em cada uma das unidades e no Catimbau, o sinônimo de suporte atende pelo nome de nosso amigo Luiz Benício, artesão e guia turístico na região.

Vínhamos de Águas Belas onde tivemos umas reuniões com alguns colegas indígenas Fulni-ô sobre alguns projetos e chegamos à Buíque na parte da noite. Teríamos uma semana inteira pela frente no Catimbau, desta vez a região estava verde, as chuvas recentes haviam trazido a vida de volta ao Parque e estávamos ansiosos com o que iríamos encontrar.

Fizemos um rápido briefing no nosso jantar na pizzaria do Povoado de Carneiros, nosso “escritório” mais corriqueiro quando estamos por estas bandas de Pernambuco.

Nosso primeiro dia de trabalhos foi na própria região da igrejinha, local do sítio de nosso amigo/guia Luiz Benício e partimos para um produtivo dia na Fazenda Porto Seguro, onde outrora ali havia um comunidade esotérica comandada por “Meu Rei”.

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Fazenda Porto Seguro nos dias de hoje.

Com certeza o pessoal da Panorama vai publicar alguns extras sobre o local por aqui no portal da empresa, mas o que posso dizer que até hoje a Fazenda Porto Seguro mantém um caráter de paz pra quem chega por aquelas região. Fomos muito bem recebidos, entrevistamos alguns moradores mais antigos que conviveram com Meu Rei. Foram depoimentos sinceros do fundo da alma, de gente que viveu sonhos de uma sociedade independente e livre de algumas amarras da dita modernidade.

Meu Rei faleceu no ano 2000 e o ponto alto de nossa visita foi a visita à caverna que ele estava preparando para o povo da comunidade se proteger no dia do apocalipse. Meu Rei faleceu, mas a caverna está lá e ainda é possível ver alguma coisa da estrutura que ele construiu para um precário sistema de iluminação, dentre outros.

Por mais interessante que seja a relação de Meu Rei com a referida caverna, não a procuramos por este motivo principal e sim por ser lar de uma das maiores colônias de morcego do mundo.

A aventura começa simplesmente no ato de chegar até lá. Da sede da fazenda até a entrada da caverna é uma descida um tanto pesada. Fomos acompanhados de alguns moradores da Porto Seguro atual, que nos deram um belo apoio enquanto lá estivemos.

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        Descia até a entrada da caverna.

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             Mirante na descida para a caverna.

Descrever com palavras a sensação de adentrar por lá é difícil, é coisa de outro mundo. Nos primeiros metros já nos defrontamos com a escuridão total e logo nas primeiras curvas, o excesso de fezes e afins trancafiados num ambiente de ausência total de luz cria uma atmosfera sufocante que faz nossos olhos lacrimejar constantemente além da sensação constante sensação de falta de ar. O brinde final é quando milhares de morcegos começam a circundar você num espetáculo sem igual.

Obviamente as fotos deste momento vão ficar pro livro e vocês vão ter que segurar a curiosidade até lá. Já adianto que a achei ainda mais fantástico que a caverna dos Guácharos que visitei na Venezuela pro projeto de nosso outro livro da EcoExpedições.

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  As bases de um gerador que Meu Rei instalou para iluminar a caverna continuam na entrada da mesma.

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Jadson na entrada da Caverna. Lá dentro o salão é bem maior e é possível ficar em pé.

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Escuridão total.

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Nós e o “gigante”, um de nossos guias na Fazenda Porto Seguro.

Nos dias seguintes partimos pra região de Guanumby, onde reencontrei meu amigo Célio Retrato de Barro. O lado de Guanumby particularmente não acho tão bonito do ponto de vista natural, mas socialmente é sempre legal. O povoado guarda belas histórias, especialmente de seus dois moradores mais ilustres, Célio e o ex-cangaceiro Candeeiro, o Seu Dé, falecido ano passado e último membro da cabroeira lampiônica a dar adeus a este mundo.

Célio nos presenteou com algumas peças de barro que fez recentemente (daqueles presentes de valor inestimável que encontramos nestas andanças) e seguimos para um tour pelas imediações de seu sítio.

Em seguida partimos pra cortar o Catimbau rumo a outra região que ainda não havia ido, já a caminho de Ibimirim. Fizemos esse trecho quase todo de carro, visando percorrer toda esta ala do Parque que é cortada por uma pista de barro bem conservada num tempo mais reduzido. Fomos agraciados por algumas aves no trajeto, dentre outras belas imagens que fecharam com um belo pôr-do-sol.

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O amigo Célio que sempre nos recebe com cordialidade.

Depois foi dia de refazer uma das trilhas que mais gosto em todo Parque, o Brocotó, que nos leva pra o visual mais belo da Unidade de Conservação (na minha humilde opinião). Fiquei super feliz especialmente por ver algumas arara-maracanã, mesmo que de longe e “infotografável”, mas como foi realizador as vê-las de volta ao Catimbau.

Jadson que nunca esteve no Catimbau, pôde finalmente ter noção da magnitude do Catimbau. O Brocotó possui um paredão mágico com algumas nascentes que se mantém brotando água mesmo nos períodos de seca mais violentas. Também nos divertimos bastante com as histórias da infância de Luiz Benício e as “fugidas” que dava pra lá e também com a valentia do que foi sua adolescência, quando tinha que descer vários dias da semana até lá para buscar água naquela nascente, muitas vezes a única fonte de abastecimento em quilômetros.

Apesar de algumas plantações dentro da área do parque ainda existirem, o Brocotó é uma das áreas mais preservadas do Parque. Terminamos o dia cansados, atropelamos o almoço mas nosso fim de tarde foi recompensado por uma bela buchada!

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Parte mais íngreme da Trilha do Brocotó.

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Eu e o velho amigo Luiz Benício num dos trechos do Brocotó.

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Desbravando novos caminhos no Brocotó.

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Ao fundo eu e Luiz Benício próximo a uma das poucas nascentes de água do Catimbau.

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As belezas do Brocotó.

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A imensidão do Catimbau.

O dia ainda não acabara, seguiríamos para um mirante próximo a Buíque, na fazenda de um amigo de Luiz Benício que tem uma vista espetacular dos paredões do Catimbau. A ideia era buscar umas fotos noturnas e no trajeto, enquanto paramos no pousada para um rápido pit stop” conhecemos dois artistas plásticos do Rio de Janeiro que ministraram oficinas em Caruaru para a Bienal do Barro e aproveitaram a deixa pra conhecer o Catimbau. Os colegas nos acompanharam neste fechamento.

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Aqui Luiz Benício nos presenteou um dos mais belos pôr-de-sol de Pernambuco.

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Jadson, produtor, parceiro e pau pra toda obra.

Além das belas fotos noturnas e belas conversas ainda visitamos nos dias seguintes a parte do Catimbau que tem suas mais altas árvores, já perto do Sítio da Alcobaça (que fotografamos na nossa última vinda aqui pelo projeto), além de outro ponto alto de nossa visita, quando pudemos fotografar duas cachoeiras do Parque que estavam com água jorrando (coisa rara por aqui).

Numa delas, fui agraciado e premiado ao sair da lagoa da cachoeira com dezenas de sanguessugas presas a meu corpo. Foi a despedida de mais um período inesquecível nesse Parque que é quase que nossa segunda cada.

Daqui partimos para a Reserva Biológica Serra Negra, no município de Floresta, outro local que sempre quis conhecer e que finalmente terei a oportunidade para tanto.

Até lá.

 POSTADO POR LUIZ NETTO EM 15 DE OUTUBRO DE 2014