Voltando ao Catimbau

Voltamos ao sertão pernambucano, quase um ano depois da ultima viagem do projeto à essas bandas. A paisagem não mudou, pelo contrário, já tínhamos recebido notícias e apenas constatamos o que já era esperado.

A caatinga na fase da estiagem é linda, praticamente todos os fotógrafos admiram a “aridez viva” daqueles espinhos em tons de cinza. Como não costumo nadar contra a convicção de meus pares, também faço parte da extensa lista de admiradores. Aliás, lembro que meu primeiro trabalho profissional como fotógrafo foi por essas bandas do nosso precioso bioma. Basta olhar, para entender porque a caatinga é o bioma semi-árido de maior diversidade do mundo.

Como já falei em outras oportunidades nesse blog, apesar de propiciar melhor visibilidade da fauna, para tudo há um limite, e esta seca prolongada – que no Parque Nacional do Catimbau já atinge 3 anos sem maiores chuvas – é extremamente danosa para a fauna local.

lagoa do puiu. seca pela primeira vez nos ltimos 90 anos

 Lagoa do Puiu, seca pela primeira vez nos últimos 90 anos.

 Fiquei assustado ao saber que a enorme Lagoa do Puiu estava completamente seca. Conversei com moradores do Povoado do Puiu – alguns com quase 90 anos de idade – que emendaram na primeira resposta: “moço, em toda minha vida, nunca vi essa lagoa secar.”

Pronto, era a prova material que eu precisava pra saber que essa é a  pior seca do século. No Catimbau especificamente, fiquei triste inicialmente por dois motivos. Primeiro, porque não ia conseguir fotos da Lagoa do Puiu, e segundo, porque as – já remotas – chances de encontrar araras na região, com esta longa seca, foram para o espaço. Todos os guias que conversei foram unânimes em dizer que há mais de dois anos não viam nenhuma por aquelas bandas.

Mas o Catimbau é assim. Quem vem aqui há anos, como eu, sabe que não tem tristeza que dure muito tempo por este arenito secular. O sagrado espírito da terra está a sorrir com mais frequência por aqui.

Era cerca de 10 da noite de sexta, quando cheguei completamente exausto à Pousada Santos, onde costumeiramente fazemos nosso apoio, ainda na cidade de Buíque, a cerca de 10km do início da área do parque.

Meu xará, amigo, guia – e depois desta viagem, irmão – Luiz, me esperava às três da manhã em sua agradável residência, incrustrada no coração do Parque, e que aguarda pacientemente a desapropriação prometida. Joguei o corpo na cama por volta de meia-noite, três horas de descanso após uma viagem de 4 horas, não é a melhor maneira de começar uma sequência de dias de trabalhos fotográficos, mas assim o fizemos.

Luiz me aguardava diante da escuridão sertaneja, em meio às belas peças que embelezam seu quintal (sim, além de guia, Luiz é um dos principais artesãos do sertão brasileiro, com peças vendidas para além-mar).

recebido pelas obras de artes de luiz em nosso primeiro dia de trabalho

 Recebido pelas obras de artes de Luiz.

Fomos a um dos meus lugares favoritos, para fotografar a alvorada sertaneja. Aquele dia estava especialmente belo, poucas nuvens no céu, uma rala e bela névoa encobrindo as montanhas que se desenhavam abaixo do alto mirante, onde estávamos. Era o Catimbau novamente sorrindo pra nós e nos dando boas-vindas, posando para uma foto que com certeza estará no livro.

Em poucos segundos estava sorrindo, já não mais lembrava que havia tido um dia extremamente desgastante, já desatara as amarras que insistiam em prender-me às mazelas urbanas do dia anterior. Já me encontrava novamente sintonizado ao sagrado coração da terra.

os primeiros raios de sol quando o catimbau sorri pro fotgrafo e devolve a alegria a este

Os primeiros raios de sol, quando o Catimbau sorri para o fotógrafo, devolvendo-lhe a alegria.

abrindo as porteiras do catimbau

Abrindo as porteiras do Catimbau.

Era a certeza que teríamos belos dias pela frente. Rodamos por vários e exuberantes lugares, alguns inéditos para mim.

No Povoado do Trocado, que conhecia apenas de passagem, fui apresentado a Seu Rafael, benzedeiro da região, o qual nos agraciou com sua aura que transmitia a mais pura paz.

seu rafael benzedor do povoado do trocado

Seu Rafael, benzedor do Povoado do Trocado. 

De lá passamos pelo Puiu, onde pude constatar que de fato “o mar virou sertão” e seguimos para o Sítio Arqueológico do Quiridário, próximo ao povoado de mesmo nome.  Por lá, fomos agraciados com algo que não havia brotado para nossas lentes nessa viagem, a vida selvagem sertaneja. Uma águia-chilena alçou voo, um bando de gangarros, uma espécie de papagaio, corrupiões coloriam com suas belas plumas laranjas os secos galhos cinzas e para completar com a cereja do bolo, o Sítio do Quiridário é um dos menos documentados da região.

Luiz me confessou que há 18 anos não pisava por ali e se nem ele ia por aquelas bandas é porque poucos por ali chegavam. Para chegar nas pinturas rupestres, é preciso passar por uma fenda com pouco mais de meio-metro de largura, onde a natureza ainda inventou de fazer algumas árvores nascerem bem no meio. Com um pequeno corpinho de quase um metro e noventa de altura, não foi nada fácil passar para o “outro lado” da fenda, onde estão as belas pinturas rupestres.

entrada do stio do quiridrio

Entrada do Sítio do Quiridário.

meio da fenda do quiridrio

Fenda do quiridário.

luiz profundo conhecedor de todo o vale do catimbau

Luiz, profundo conhecedor de todo o Vale do Catimbau.

entrada do stio da arqueolgico da alcobaa. ao fundo as rochas onde se encontram as pinturas

Entrada do Sítio da Arqueológico da Alcobaça. Ao fundo, as rochas onde se encontram as pinturas. 

Deslizamos por outros belos lugares do Parque antes de partir, pelo Sítio da Alcobaça, pela Estrada da Umburana, pelo Brocotó, dentre tantos outros.

Se despedir de lá é sempre doloroso, ainda mais ao imaginar que sairia da bela selva arenítica e voltar à selva de pedras recifense. Ao menos, levava a alegria de retomar a Expedição Pernambuco pelos sertões.

No momento de partir, uma rápida parada no sítio do artesão Zé Bezerra, onde o amigo Marcos Carvalho rodava mais um de seus curtas do Projeto Cinema no Interior. Nem vou falar muito sobre toda a maravilha destas gravações.

De Luiz, uma das belas lembranças que levamos para sempre nessas andanças, uma linda escultura. Um fotografo esculpido em madeira morta, matéria-prima principal de nosso colega artesão.  Mas de sua arte, o site da Panorama falará em breve – tem matéria sobre Luiz e seu trabalho vindo por aí.

a obra do arteso-guia-amigo luiz que agora me faz companhia em meu escritrio

 A obra do artesão-guia-amigo Luiz, que agora me faz companhia em meu escritório.

 Até o próximo post. Agora voltando para Recife. Lá, acontecerá uma rápida visita ao Centro de Mamíferos Aquáticos, na Ilha de Itamaracá.

 POSTADO POR LUIZ NETTO EM 09 DE DEZEMBRO DE 2013