15.000 Guácharos e 1 Brasileiro

Quem gasta parte da sua vida fotográfica  destinada à natureza, corriqueiramente elege dentre os objetivos o pôr-do-sol mágico que viu numa revista, aquela praia paradisíaca ou outro destino dos sonhos como sendo o “próximo objetivo”.

Desse mal nunca sofri. Claramente nunca tive um “lugar dos sonhos”, mas apesar de compactuar com essa idéia e de nunca ter priorizado um lugar específico, se tem algo que de certa forma cultiva minha atenção, me fascina e fico imensamente feliz quando um projeto me leva a conhecê-los, são fenômenos específicos da natureza, muito longe de simplesmente documentar um local, mas documentar um acontecimento natural único que você só encontra num determinado local do mundo, ou em poucos lugares, a uma determinada época do ano ou determinada hora do dia.

O Brasil está recheado destes “fenômenos”: a revoada de guarás da Ilha do Caju, no Maranhão, a pororoca na Amazônia, as paradisíacas praias de água doce em Santarém que só existem em períodos específicos do ano, o mergulho das andorinhas no fim da tarde no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, e tantos outros acontecimentos que são um deleite pras lentes.

Quando se rompe os limites brasileiros encontramos outros destes “fenômenos”: a aurora boreal, a austral, a arribada de tartarugas na Costa Rica, a mágica migração de gnus na África e tantos outros exemplos. Um deles eu já sabia a existência de longas datas: a “caverna de guácharos” na Venezuela, onde todo dia, num determinado horário, milhares destas aves (os guácharos) saem simultaneamente numa grande nuvem de pássaros para se alimentar na noite venezuelana e retornam ao raiar do dia para a mesma caverna, também no mesmo horário.

As estranhas e simpáticas aves no Brasil possuem nomes nada simpáticos: pássaro-do-petróleo ou pássaro-oleoso (em alusão ao nome em inglês oilbird). Nomes que de tanto mau gosto, vou me dar ao direito de continuar a utilizar o nome espanhol.

De características ímpares, os guácharos habitam comumente cavernas e possuem hábitos notoriamente noturnos, o que os fez desenvolver um sistema de navegação por sonar semelhante ao dos morcegos (a ave inclusive desenvolveu bigodes na altura no bico para ajudar na captação do sinal do seu “radar”).

Frugívoras, comumente saem no mesmo horário e em bandos para o banquete do dia. Só que no Monumento Natural Alejandro de Humbolt (também conhecido como Cueva del Guácharo) multiplique isso por 15.000, pois é esta a estimativa da colônia de aves que habitam os mais de 10km das galerias da caverna e que saem todas juntas no mesmo horário. Sem dúvidas a maior colônia destes bichos em todo o planeta. O nome oficial do monumento é uma homenagem ao espeleologista europeu, pioneiro na sua documentação, e de quem contaremos um pouco de sua história nos EXTRAS deste projeto em breve.

Quando vi que a Expedição Venezuela iria me levar a presenciar este episódio natural logo aprofundei as pesquisas sobre o tema, sabia “tudo”: as horas que os bichos saiam, as horas que voltavam, como fazer pra chegar à cidade de Caripe e na caverna, a estimativa de indivíduos da colônia, as restrições que o INPARQUES (equivalente ao IBAMA/ICMbio da Venezuela) impunha em algumas áreas e sabia até a taxa aves/minuto com que os animais saíam da caverna. Até um local pra eventualmente ficar a postos na hora exata.

Mas de nada adiantou tanto planejamento (ou de pouco adiantou). Primeiro porque o INPARQUES me permitiu ficar exatamente na “boca” da caverna, algo que pensava ser proibido no horário da saída das aves, desde que eu respeitasse o limite físico da entrada da caverna e não utilizasse o flash pra não estressar os animais. Proposta aceita, condições respeitavas e lá estava eu no olho do furacão. E quando digo que de “pouco adiantou” tanto planejamento é que tudo era muito maior do que eu havia planejado.

A caverna era muito mais alta que havia pensado e a iluminação era um pouco mais fraca que a que eu pensava que iria encontrar neste horário. Em outras palavras, sem o flash foi o caso de ISO nas alturas e fazer valer ao máximo o que se conhece da técnica fotográfica.  A quantidade de aves, por mais que eu soubesse que seriam 15.000, não dá pra descrever em palavras a sensação de vê-los todos juntos.

E se tinha uma coisa que não estava planejado era o som ensurdecedor que elas emitem quando saem em bandos. Como utilizam um sistema de sonar é preciso som pra “enxergar” no escuro. O grito bate na parede, volta e as ondas sonoras movimentam os “bigodes” das aves que finalmente se localizam.

Fotograficamente foi daqueles momentos únicos. Por vezes faltava espaço no sensor da câmera pra tanta ave, mas isso o nobre leitor vai ter que aguardar até o lançamento do livro pra matar sua curiosidade.

No dia seguinte voltamos à Cueva del Guácharo, desta vez para fazer um tour pelos primeiros quilômetros da trilha percorrida por Humboldt, alguns séculos antes. A imponente cova é ainda mais fascinante quando se percebe todo um ecossistema que existe em seu interior.

Além da colônia gigantesca de guácharos, há alguns tipos de roedores, insetos e crustáceos, incluindo grandes caranguejos, que se adaptaram a viver na escuridão total. Sem dúvidas a caverna possui vida própria.

Durante todo a exploração do Monumento Natural Alejandro de Humboldt, contamos como o apoio inestimável do guia Benito, que nos deu uma verdadeira aula sobre a caverna. Habitante da cidade de Caripe e profundo conhecedor dos guácharos nosso amigo nos mostrou e falou sobre detalhes e peculiaridades do monumento e das aves que até então desconhecíamos completamente.

Após dois dias explorando a caverna partimos para conhecer o Parque Nacional El Guácharo, que circunda todo o Monumento Natural, mas isso já fica pro próximo post.

Um abraço e até lá!

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 27 DE JULHO DE 2012