Chica e Eu

 

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Tenho uma certa ligação pessoal com alguns destinos dos livros da Coleção Ecoexpedições, cada um por um motivo específico. As unidades de conservação sertanejas, por motivos óbvios de raiz familiar, o Monte Roraima, na Venezuela, por ser um sonho de longas datas, dentre outros, não necessariamente lugares de rara beleza natural ou desafiadores para serem alcançados.

O Centro de Mamíferos Aquáticos da Ilha de Itamaracá é mais um destes locais. Simples, fácil acesso, extremamente relevante para a fauna brasileira e acima de tudo, me remete também à infância.

Recordações que me jogam para a Praça do Derby, no meio da movimentada Avenida Agamenon Magalhães, no Recife, onde num pequeno tanque de pouco mais de 10 metros quadrados, vivia um peixe-boi fêmea enorme! A Chica!

Lembro quando jogava pipoca no tanque e era repreendido por não poder alimentar o animal cativo. Levei estas broncas por anos da estanha infância que atormentam as crianças que vivem nas capitais. Chica era o contato mais “selvagem” que tive até então, cativa, seu tamanho a impedia de dar voltas dentro do tanque e a obrigava a nadar sempre para o mesmo lado.

Viveu neste tanque minúsculo até seus 27 anos aproximadamente. Crueldade dizer que era “cativa”, Chica era prisioneira. Expulsa dos mares pela violência humana, se viu enclausurada pela raça que dizimava os seus pares. Enjaulada num cubículo por anos, obrigada a nadar numa mesma direção viu sua coluna vertebral deformar, ficara com uma espécie de “escoliose”, com uma lateral do corpo apresentando uma corcunda.

O tanque raso que a obrigava a ficar sempre com parte do dorso exposto, também queimara-lhe a pele. Chica era perseverante, nordestina, guerreira. Sobreviveu ao cárcere e às crianças chatas que jogavam pipocas.

O ano era 1990, eu tinha oito anos quando vi Chica pela última vez na Praça do Derby. Ela continuaria presa pelos homens, mas agora teria dignidade. A rainha da Praça do Derby seguia para o Centro de Mamíferos Aquáticos, realização de um antigo sonho de guerreiros que lutavam pela preservação do peixe-boi-marinho em águas brasileiras.

A vaca-marinha, maior espécie dentre todos os manatis, já havia sido extinta e esta ação humana já teria feito mais uma vítima, o nosso peixe-boi-marinho, se algo não tivesse sido feito.

Era muito novo, nem chorei com a partida de Chica. Lembro de minha mãe falando que ela ia morar perto de nossa casa de praia. Por sorte, Chica se mudaria de perto de minha casa no Recife, para a Ilha de Itamaracá, a 50 km, onde costumava passar meus veraneios na casa de praia da família. 

Quis o destino que continuássemos a nos ver. Também me lembro que logo no primeiro mês de abertura do Centro recém-inaugurado, meu padrasto levou-me pra conhecê-lo. Corri, como todas as crianças fazem até hoje quando lá chegam, de um lado para outro dos enormes tanques. Por lá também tem museu e até cinema.

Daquele dia, lembro do susto que tomei, havia cerca de uma dezena de Chicas! Lembro que reconheci a verdadeira Chica. Lembro que era fácil encontrá-la, lembro que era a maior de todas (provavelmente a mais velha dentre todos os animais ali presentes) e lembro principalmente que a reconheci por conta de sua inconfundível deformidade na coluna.

Chica estava em paz, se a liberdade suprema da imensidão azul do Oceano Atlântico lhe foi negada, ao menos agora possuía o mínimo de dignidade, possuía médicos à sua disposição, possuía espaço pra mergulhar, possuía espaço pra nadar para os dois lados do tanque, aprendeu a nadar para o outro lado, acredito que Chica voltava a sorrir depois de décadas, até porque não haviam mais crianças chatas a lhe jogar pipocas.

Lá vai eu, 23 anos após a inauguração do Centro, o visitando pela primeira vez para fins profissionais. Meu colega serratalhadense, Jadson, que nos empresta a maioria das fotos deste post, me fez companhia, conversamos muito sobre o Sertão, sobre projetos, sobre fotos e sobre peixe-boi. Até já fui atrás de alguns em liberdade no litoral alagoano, que hoje são monitorados via rádio pela mesma equipe que mantém o CMA em Itamaracá, mas o centro mexe verdadeiramente comigo, como tudo que nos remete à nossa infância.

O Centro de Mamíferos Aquáticos não estará no livro, entretanto, dada sua relevância, publicaremos alguns EXTRAS aqui no portal da Panorama e no site da Coleção EcoExpedições.

Ano passado se comemorou os 50 anos de Chica. Há até camisas comemorativas sendo vendidas por lá. Ela comemorou com os outros cerca de 10 animais que a acompanham. A dei os parabéns atrasado, ela olhou de volta, não sei se dizendo: “criança, como você cresceu!”.

Desenvolta, posou com suas amigas para algumas fotos do colega Jadson, um dos fotógrafos convidados do projeto, fui apenas motorista neste dia, ou melhor, fui apenas uma criança-adulta que revia uma amiga de longas datas. Ela não nos pediu pra postar no instagram, a velha senhora estava um tanto imóvel, talvez descansando. Foi pra um lado do tanque, enquanto as amigas bebiam água doce perto do fotógrafo. Após cerca de uma hora, era hora de seguir. Chica se despediu, eu me despedi também.

Desta vez, sem pipocas.

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Esqueletos de baleia podem ser encontrados nos arredores dos tanques.

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O museu interno do Centro possui boa estrutura e muitas informações interessantes.

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Um dos tanques principais. Chica no primeiro plano do lado direito, com sua inconfundível deformação na coluna.

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Chica! Fácil perceber a deformação do lado esquerdo de sua coluna.

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Um dos animais bebendo um pouco de água-doce.

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Alguns dos tanques do Centro e suas zonas de transições.

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 15 DE DEZEMBRO DE 2013