De volta à Ibiapaba

Voltamos à Ibiapaba após a passagem pela capital piauiense e pela FLONA de Palmares. Como havíamos dito, as dimensões pouco habituais da APA da Serra da Ibiapaba, fazia dela uma área de grande diversidade, indo desde a caatinga, ao sul, à Mata Atlântica ao norte.

Chico já havia estado por aqui em outras oportunidades, em especial na cidade de Caxingó, aonde um grupo de fazendas parceiras vêm protegendo uma área significativa do ecossistema local. Uma iniciativa privada, mas de alto impacto e repercussão, que conta com grande empenho por parte dos proprietários.

Destes, o destaque vai pra Seu Prentice que abria espaço ao nosso projeto nos recebendo em sua bela casa.

Subimos rumo à Caxingó, cidade onde se localiza a maior parte da fazenda e lá nos encontramos com nosso colega Fábio, que já havia nos acompanhado no início desta jornada, lá no Parque Nacional da Serra das Confusões.

Chegamos já tarde da noite. Seu Prentice nos esperava às portas da fazenda. No  trajeto da porteira à casa, Chico já vinha nos posicionando sobre o que havia por trás daquela escuridão e o que encontraríamos na manhã seguinte.

Na Casa Grande, logo à frente, um grande lago anunciava o que encontraríamos. Eram muitos olhos a refletir o farol do carro, indicando a enorme população de jacarés-do-papo-amarelo que viviam naquela área.

Chico e Fábio, que lideram as estatísticas do Wikiaves no Piauí, visitavam as terras de Seu Prentice e seus vizinhos com certa frequência e muitos dos primeiros registros piauienses viam acontecendo por ali. Além deles, vários pesquisadores usavam a fazenda como ponto de apoio. Recentemente inclusive encontraram “ilhas de Cerrado” em meio à Mata Atlântica de Caxingó, o que vinha gerando uma série de desdobramentos nos trabalhos dos pesquisadores.

 O ICMBio também mantinha um posto pra reintrodução de aves numa área da fazenda. com um grande cativeiro onde alguns papagaios-verdadeiros se preparavam pra voltar à liberdade. Quando fomos lá pela primeira vez, inclusive, por fora da gaiola tentando roubar a comida das aves, estava um ativo macaco-prego, que saiu desesperado com a nossa chegada. Era o prenúncio que teríamos ótimos dias pela frente.

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Cativeiro do ICMBio, dentro da fazenda para reintrodução de aves selvagens.

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Seu Prentice vem conseguindo conciliar a preservação ambiental com a produção rural.

Ficamos por cerca de 4 dias usando a fazenda como apoio para fecharmos a Ibiapaba e todas as expectativas foram atendidas. A “malhação” começava sempre cedo, antes do sol nascer, pelos arredores do lago principal da fazenda. A propriedade conta com três grandes lagos em sua entrada e a biodiversidade do local é impressionante. Sem muito esforço fotografei mais de 100 espécies diferentes de aves, de fato as grandes atrações locais, desde simples passeriformes a grandes rapinantes e psitacídeos, inclusive com um raríssimo registro de pato-do-mato em território piauiense.

Os já citados jacarés também nos renderam boas fotos. Era relativamente fácil chegar um pouco mais perto deles, talvez pelo fato de no local os animais já não verem mais o homem como uma ameaça. Pra completar os “tesouros do Prentice”, por lá também encontramos uma família de cágados e outra de quatis, mamífero que já havia aparecido ao longo de Expedição Pernambuco, mas no projeto do Piauí era novidade. Tudo isso dentro de uma única propriedade. Fantástico!

Em seguida partimos pros arredores da fazenda, explorando o máximo possível as diversas áreas da Ibiapaba. A verdade, até por ser uma APA, à medida que nos afastamos das fazendas mais protegidas, mais difícil e limitado fica o contato com a vida selvagem. As capivaras, animal fácil de ser encontrado no Brasil, ainda não havia sido fotografada dentro das viagens oficiais de Expedição Piauí e sabíamos que por ali apareciam várias com certa frequência, Chico inclusive já as havia fotografado em outras ocasiões (o que nos deixou mais tranquilo caso não tivéssemos sucesso desta vez). Bem ou mal, não foi desta vez que nos encontramos, ou melhor, até vimos, num trecho de mata fechada quando cruzávamos um rio local numa canoa, mas fotografá-las foi impossível.

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Rios dos arredores da Ibiapaba.

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Seu Prentice, o anfitrião, com os dois fotógrafos invasores.

Mas as aventuras na Ibiapaba ainda não haviam acabado. Uma última notícia que havíamos recebido, uma dica quente de nosso colega biólogo Thieres Pinto, cearense, mas profundo conhecedor da biologia piauiense, dava conta da aparição de macacos-da-noite numa determinada região da Ibiapaba, na cidade de Buriti dos Lopes, vizinha de Caxingó. Um dos locais era os fundos da casa de Dona Fátima, onde com frequência uma família inteira deles aparecia, conforme o colega pesquisador havia orientado.

Confesso que fiquei um pouco “transtornado” com a notícia. Até onde margeava minha ignorância, os macacos-da-noite eram espécies amazônicas. Por mais que com frequência algumas espécies amazônicas pudessem ser encontradas no Maranhão, não imaginava nunca tê-los assim tão perto pelo Piauí, e próximos ao llitoral, uma vez que a cidade de Buriti dos Lopes já ficava na parte mais ao norte da APA, perto de sua área limítrofe.

Enfim, chegamos à casa de Dona Fátima num meio de tarde, nos apresentamos, falamos sobre o projeto, sobre a indicação e ela confirmou que “quase todas as noites” os bichos apareciam, roubavam os favos do feijão, entre outras coisas. Era daquelas notícias que deixam um fotógrafo de natureza rindo de orelha a orelha. Isso é que seria fechar com chave de ouro.

O primeiro dia não foi dos melhores. Por ser uma espécie a qual não estávamos muito habituados, não conhecíamos seus gritos e hábitos, mas por vezes escutamos os barulhos característicos de galhos balançando, no qual Dona Fátima foi taxativa em dizer que eram eles, mas muito ao longe, foi uma noite de frustração, talvez por ter visto que a casa estava com um movimento acima do normal, os bichos não apareceram.

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Chico na casa de Dona Fátima, lar também dos macacos-da-noite.

Na segunda noite voltamos, após um proveitoso dia de tocaia em busca de novas aves na Fazenda do Prentice, e dessa vez tivemos êxito total. Dona Fátima já havia nos avisado por telefone que os bichos tinham aparecido, quando puxamos o carro já quase de madrugada de Caxingó pra Buriti. A boa vontade de gente simples e de coração grande como aquela família que abria sua casa naquela hora da noite é um dos destaques e a marca do que encontramos em Expedição Piauí. As fotos dos macacos ficaram ótimas e vão pro livro!

Foi o fechamento à melhor maneira, era nossa última noite na Ibiapaba, já havíamos inclusive tentado imaginar um plano B caso eles não aparecessem, que seria deixar um fotógrafo no local e o resto da equipe seguir para o Delta, mas no fim, deu tudo certo. Seguimos na madrugada mesmo para Parnaíba, cansados, sujos, com fome, mas acima de tudo felizes e realizados. 

Da Ibiapaba partimos para o Delta do Paranaíba, a visitar as duas unidades de preservação do maior delta do Atlântico Sul e finalmente fechar nossos trabalhos de campo.

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 15 DE MARÇO DE 2016