De volta à Parnaíba

Parnaíba já é praticamente minha segunda casa. De 2012 pra cá já visitei a cidade 4 vezes, a primeira de férias com minha esposa e as demais sempre com o objetivo de buscar as mais belas fotos em algum projeto que estou envolvido. Minha paixão pela cidade foi imediata quando cheguei. As características ambientais do maior delta das Américas, trazem consigo toda uma gama de biodiversidade pouco encontrada em outros locais do país, especialmente quando falamos do litoral nordestino, já tão pressionado pela especulação imobiliária.

De Recife para Parnaíba, na divisa do Piauí com o Maranhão, são longos 1300km que já percorri algumas vezes, quase sempre é assim que vou à cidade, por via terrestre, cruzando por dezenas das mais belas do Ceará.

Eu sei que estamos falando de Expedição Ceará, mas não dá pra vir até o Delta e não desfrutar de alguns dias da “capital do Delta”. Até por ser a cidade natal de Chico, gozamos aqui de uma ótima rede de apoios sempre que viemos, de forma que mesmo pra fotografar o lado cearense da APA, nossa base continuaria a ser o Piauí, a apenas 60km da divisa Piauí/Ceará

Após alguns belos dias recarregando as energias, começaríamos a re-explorar o delta, justamente no ponto em que terminamos o Expedição Piauí anos atrás, na foz dos rios Timonha e Ubatuba, região extremamente rica em biodiversidade, incluindo-se aí a maior população de peixe-boi do país.

Assim, como na nossa vinda pro projeto do Piauí, fomos recebidos em Cajueiro da Praia pelo Claudio, morador da cidade e membro ativo do Projeto Pesca Solidária, que nos dava mais uma vez seu valoroso apoio a essa nova jornada.

Na nossa primeira incursão pelo delta cearense, contamos com a companhia de nosso perito passarinheiro Fábio Vasconcelos, que seguia em busca de algumas espécies mais raras da região. Fábio já rompeu a marca de 700 espécies no Wikiaves . Resolvemos dividir o time, com o Chico concentrado nas aves enquanto, pra não perdermos muito tempo, segui pelos canais do delta com o Carlos.

Visitar estuários, especialmente os ricos e diversos como o Timonha e Ubatuba, obrigatoriamente nos obriga a ir de encontro a seu DNA: sinal muita lama, crustáceos, mangues, aves marinhas e, no caso do delta, uma possibilidade bem maior de avistar mamíferos aquáticos e aves pelágicas e migratórias. Quando vou a um lugar assim, sei que a roupa vai voltar da cor da lama. E assim o foi. Conseguimos também belas imagens subaquáticas de estrelas-do-mar e outras espécies da rica biodiversidade estuarina. 

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Esse que vos fala embrenhado nos mangues do Delta do Parnaíba.

Até o momento visitávamos o mesmo ecossistema do projeto do Piauí, com a única diferença, de seguir a convenção imposta pelos homens que colocou uma divisa de estados neste pedaço do delta, mas estávamos a falar do mesmo ponto. A grande atração do lado cearense, finda por ser mesmo os famosos currais de Bitupitá, já registrado em belas imagens de mestres de nossa como Araquém Alcântara e outros, seria nosso objetivo nos próximos dias, mas antes uma passagem por Chaval.

A cidadezinha cearense virou manchete por ter o prefeito mais jovem do Brasil, um rapaz de 20 e poucos anos, mas tal qual Quixadá, o que nos interessava aqui mesmo eram suas belas formações rochosas. Fomos recebidos na cidade pelo Hermes, amigo do Chico de vários carnavais e profundo conhecedor de sua cidade.

Hermes nos levou ao topo dos mais belos mirantes de Chaval, alguns inclusive com belos oásis em seu topo, lagoas que nunca secam e com diversas palmeiras ao seu redor. De brinde ainda levamos um belo pôr-do-sol pra casa.

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Lajedos de Chaval.

Por fim, os últimos dias da estadia no lado cearense da APA findaria nos já citados belos currais de Bitupitá e adjacências. Mais uma vez contamos com o belo suporte do Pesca Solidária que nos indicou vários pescadores que dão suporte ao projeto nesta parte do litoral. Nossa embarcação agora foram as típicas jangadas caiçaras usadas no Nordeste e nosso motor foi a força do vento.

Sem dúvidas, foi o ponto alto da viagem, pudemos acompanhar todo o processo de despesca das dezenas de currais existentes, bem como acompanhar de perto o dia-a-dia de diversas famílias que vivem e dependem exclusivamente deste trecho do litoral cearense para obter sua renda.

De tantas unidades de conservação voltadas para o correto manejo pesqueiro no Brasil, a APA do Delta do Parnaíba é uma das de maior destaque. As praias, apesar de belas e transparentes, ainda se encontram fora do radar da especulação imobiliária, o que contribui para seu bom estado de conservação.

O suporte dado aos moradores das comunidades de pescadores é um grande exemplo a ser seguido pelo Brasil, com atitudes e ações simples que trazem grandes resultados, inserindo os moradores como agentes ativos da preservação ambiental da região.

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Pescadores apoiados pelo projeto Pesca Solidária.

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Processo de despesa dos currais de Bitupitá.

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Peixes sendo retirados de currais de pesca em Bitupitá.

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Nosso assistente Vinícius, abrindo os portões dos currais para nossa entrada.

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Pescador exibe alguns de seus prêmios num bom dia de pescaria.

Como havia dito, cada viagem ao Delta é uma nova (re)descoberta e esta nova estada mais focada nas relações dos moradores com o mar só serviu pra aumentar ainda mais minha admiração por este pedaço do Brasil que tanto me identifico.

Daqui partimos para o município de Granja, aqui próximo, mais especificamente para o Parque Estadual das Carnaúbas, ao que tudo indica, a mais preservada das unidades de conservação cearenses.

Até lá!

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 11 DE JUNHO DE 2017