De volta ao litoral

Expedição Ceará foi um projeto encantador e parti realizado de Recife rumo à última viagem de campo do projeto. Faltava visitar, pela ordem: Resex do Batoque, Resex Prainha do Canto Verde e a Estação Ecológica do Castanhão. Seriam cerca de mais duas semanas longe de casa, mas com a certeza que o caminho havia sido bem traçado.

No Batoque, por ausência de base do ICMBio, o instituto me aconselhou entrar em contato com a Associação de Moradores, capitaneada pelo Pedro Hermes e pela Dani. O contato telefônico com eles foi super proveitoso, o que sempre acontece ao longo da EcoExpedições quando estreitamos os laços com as comunidades. É sempre notório o interesse por parte dos moradores em mostrarem o que há de mais belo em suas casas.

Pedro iria ter uma viagem em poucos dias para um encontro de lideranças comunitárias em Belém do Pará, outra cidade que adoro, motivo pelo qual começamos o último tour cearense pela Reserva Extrativista do Batoque, aproveitar os dias que ele ainda estaria pela região. Alguns atrasos me fizeram sair de Recife já perto da hora do almoço e me organizei pra viajar sem escalas pra não chegar tão tarde na casa alheia.

Era por volta das 20 horas da noite quando cheguei à comunidade do Batoque, me encontrei com  o Pedro na igreja que ele frenquenta ,calhou de chegar bem na hora do culto, mas o meu novo amigo não se furtou em sair do local assim que viu meu carro apontar na porta. De lá fomos até a casa da Dani e a recepção, pra variar, foi a melhor possível. A Associação conta com uma pousada comunitária que passava por reformas, mas não senti a menor falta disso. A atenção despendida por todos os moradores foi ímpar. A casa da Dani, à beira mar, melhor que qualquer pousada ou resort, virou nosso “quartel general” nos dias que lá estivemos fotografando e respirando a brisa do litoral nordestino.

Começamos cedo no dia seguinte, Pedro conseguiu algumas folgas no trabalho e terminou sendo ele mesmo meu guia. Melhor impossível. Enquanto nos dirigíamos pra cada local ele foi me posicionando da história do Batoque, do início da criação da reserva, as dificuldades que os moradores enfrentam, os conflitos políticos, entre outros. No primeiro dia cruzamos toda a extensão de carro, formos a várias lagoas, são todas muito bonitas, e quase sempre tem algum pescador com tarrafa ou caçando crustáceos, principalmente o siri-azul. O entorno do Batoque também estava em nosso roteiro. Fomos até Aquiraz pelo litoral, cidade a qual a comunidade do Batoque pertence oficialmente, e também seguimos pela orla no sentido leste, até a barra que leva à Beberibe. Como é lindo esse litoral cearense. Com esse trecho eu praticamente visitei 100% de suas praias, cada dia mais encantado.

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A pesca artesanal do siri-azul é muito tradicional neste trecho do litoral cearense. 

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Fotografamos toda a zona de influencia da Resex do Batoque, incluindo as praias vizinhas, como a badalado Morro Branco.

 

À noite, uma surpresa, na Terra Indígena Jenipapo-Kanindé, vizinha do Batoque, teríamos o lançamento da Escola de Cinema e  calhou da nossa viagem coincidir involuntariamente com o evento. Pedro e Dani foram convidados, como lideranças das comunidades do entorno, e lá fui eu ser agraciado “de penetra” em mais uma noite maravilhosa. Outra coincidência, o colega francês Vincent Carelli, radicado em Olinda e coordenador da ONG Vídeo nas Aldeias, era o homenageado e se encontrava lá presente. Mundo pequeno esse que a gente vive. Os professores apresentaram a escola, mostraram vídeo dos alunos e em seguida tivemos um toré aberto ao público. Como sempre nas comunidades indígenas, as noites terminam com muita alegria.

De volta ao Batoque, os dias seguintes dedicamos a cruzar as matas de tabuleiro da resex. Estão por toda parte e cobrem o grande corpo de dunas que costeiam as praias do Batoque. É, sem dúvidas, onde está a natureza mais pujante da unidade de conservação. Não há trilhas muito bem definidas, mas não é difícil de se locomover. O próprio Pedro desconhecia boa parte dos lugares por onde fomos e pra nossa surpresa, ao chegarmos no ponto mais alto das dunas, encontramos uma grande mesa de mármore postada diante do mais belo visual da resex. Foram duas horas de caminhada da casa mais próxima até lá. Segundo Pedro, ninguém sabia que aquela mesa existia por ali.

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Uma mesa desconhecida, de mármore, no topo da mata da Reserva Extrativista do Batoque.

 

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Quase todos dias, acompanhávamos a saída dos pescadores ao mar nas primeiras horas do dia.

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O pequeno gigante Davi, filho da Dani, na nossa noite de despedida.

 

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Um pouco do banquete de despedida que tivemos na casa da Dani. Caranguejo, siri e camarão, tudo fresquinho e pescado no dia.

Passada as surpresas, ainda encontramos tempo no dias seguintes para acompanhar os pescadores em sua longa jornada. Nas resex marinhas a figura do pescador se mistura ao ambiente, faz parte ativa do ecossistema e no Batoque não seria diferente.

Esta era a segunda unidade marinha que visitávamos em Expedição Ceará, depois de ter iniciado o projeto pela APA do Delta do Parnaíba. Aqui a relação com o mar é tão forte quanto lá e as fotos na madrugada com os pescadores saindo pra água são sempre belas, sempre com uma luz maravilhosa. Os últimos dias, dedicado quase que inteiramente ao extrativismo na resex foram dos melhores, a cada foto, uma “estória de pescador” era contada. Era trabalho, mas terminou sendo uma grande diversão pra todos nós.

Na minha despedida, à noite, Dani preparou uma baita surpresa pra gente, uma panelada com siri, caranguejo e outros frutos do mar pra marcar nosso “até breve”, pois é isto que a passagem no Batoque se tornou, um “até breve”, pois os amigos que aqui deixo, certamente voltarão a cruzar nosso caminho.

Daqui partimos pra Reserva Extrativista Prainha do Canto Verde. Até lá!

POSTADO POR LUIZ NETTO