De volta ao Mosaico do Araripe

Expedição Ceará retorna ao mosaico do Araripe, onde já estivemos em outras duas oportunidades ao longo do projeto, primeiramente na Estação Ecológica de Auiaba, e em seguida para registrar a Floresta Nacional do Araripe-Apodi e a APA da Chapada do Araripe.

Apesar de não necessariamente fotografar a Flona nesta viagem, a excelente base do ICMBio nesta unidade de conservação seria nossa base de apoio novamente pela proximidade com os demais pontos do mosaico. Com exceção de Aiuaba, no extremo oeste da APA, as demais unidades ficam relativamente próximas, num raio de 100km no máixmo. Ademais, as amplas acomodações e a proximidade com o centro do Crato (em torno de 20 a 30 minutos de carro), sempre foram grande atrativos pra gente se hospedar por aqui, além, obviamente, do principal motivo que é ficar o mais imerso possível nas maravilhas de todo ecossistema do Araripe cearense.

O foco agora seria visitar os monumentos naturais e o parque estadual existente ao longo das cidades do Crato, Juazeiro do Norte, Santana do Ipanema, entre outros, além de pontos importantes da APA que ficaram de fora das primeiras viagens, especialmente os geossítios que não necessariamente ficam no interior das unidades de conservação.

Fotografar a totalidade de uma unidade de conservação como a APA da Chapada do Araripe é quase que impossível, mas depois de tantas viagens, por três projetos diferentes (Expedição Pernambuco, Expedição Piauí e Expedição Ceará), posso dizer que agora conheço bem esta UC. O rico lado cearense inclusive finda por me render três belas viagens, onde pude compreender com mais afinco a necessidade e as inter-relações existentes entre as diversas unidades do mosaico.

A expressão “mosaico do Araripe” não é à toa. É utilizada até mesmo pelos órgãos ambientaisa para designar a região que possui tantas áreas protegidas. Como já citamos, a gigantesca APA da Chapada do Araripe possui em seu interior uma infinidade de outras unidades de conservação: florestas nacionais, estações ecológicas,  além de outras unidades de jurisdição estaduais, como parques e monumentos naturais. Confesso que nas primeiras viagens me causava certa confusão, o próprio Parque do Rio Batateiras possui tanto uma unidade estadual quanto uma municipal com o mesmo nome.

Mais que isso, a APA da Chapada do Araripe também abriga em seu interior o famoso Geoparque, conjunto de formações geológicas que contaram com a abnegação do Professor Plácido Cidade Nuvens para sua preservação. Muitos destes geoparques virariam Monumentos Naturais, ganhando portanto uma unidade de conservação pra chamar de sua, outros se mantiveram apenas dentro da APA, mas ainda guardando muito da relevância geológica e ambiental que possuem para os ecossistemas da caatinga cearense no Araripe.

Feito esse apanhado geral sobre a “salada” que é misturar mais de uma dezena de unidades de conservação com geossítios, entre outros, era hora de arregaçar as mangas.

O Aderson, que me recebera e me acompanhara durante a viagem pela Floresta Nacional do Araripe, desta vez estava ocupado por demais, havia conseguindo um emprego terceirizado fixo junto ao ICMBio e não poderia me acompanhar, porém , me indicou um amigo, também guia e brigadista da região, o Damásio.

Damásio seria meu norte pelas últimas unidades do Araripe cearense que o Expedição Ceará carecia de registros. Cheguei à sede da Flona ao fim da tarde, cair da noite, onde o vigilante, meu xará Luiz, que já me aguardava com a autorização em mãos enviada pela gestão da Flona, me reconheceu da última visita um ano atrás. Conversamos um pouco e em seguida desci ao Crato para comprar os mantimentos para os dias que se avizinhavam. Uma rápida passagem na sempre linda e aconchegante praça da Sé e sua infinidade de opções de restaurantes e pronto, voltar à sede, preparar a documentação pra já cair em campo na manhã seguinte, sem antes passarmos pelo primeiro incidente (que viria por ser o único desta último jornada), quando no estacionamento da Flona, findei por passar com o carro por cima de um caixa de ferro que protegia umas lâmpadas de piso, o que me causou um generoso amassado no para-choques.

A primeira parada seria no Monumento Natural Sítio Riacho do Meio, na cidade de Batalha, vizinha ao Crato. A área na verdade é um “mix” de duas unidades, pois há também um parque municipal de mesmo nome e ninguém sabe muito bem onde termina um e onde começa o outro, nem mesmo os pesquisadores que encontrei por acaso no primeiro dia.

É um típico parque urbano, próximo à cidade de Barbalha, com trilhas bem conservadas, alguns cursos d´água em seu interior, algumas belas formações rochosas e uma flora interessante, inclusive pegamos a floração de alguns espécimes da caatinga, o que nos rendeu boas imagens.

Dos principais atrativos estão a Bica das Pedras, onde é possível tomar um bom banho, a Pedra da Coruja e a Pedra do Morcego, esta última de grande valor histórico por ser o local onde os bando de cangaceiros conhecidos pela alcunha de “Marcelinos” se concentraram antes de serem fuzilados no Alto do Leitão, em Batalha. . Em termos ambientais, o principal destaque são as nascentes protegidas pelo Parque, sempre com água, o que é fundamental para uma área de caatinga como o Araripe.

Monumento Natural Sitio Riacho do Meio-31

Placas indicativas estão por vários pontos do Monumento Natural e do Parque Municipal.

Monumento Natural Sitio Riacho do Meio-34

Pedra do Morcego, local onde o bando dos Marcelinos se concentrou antes de sua última batalha na década de 20.

Monumento Natural Sitio Riacho do Meio-1

A bela rosa-da-mata é facilmente encontrada na unidade de conservação.

Damásio conhecia bem o local, são cerca de três trilhas mais bem delineadas. Contando as picadas “não oficiais”, o Parque deve ter cerca de 10 caminhos possíveis, não mais que isso e a presença de um bom guia facilita nestas questões de encontrar aquele caminho meio escondido que leva a coisas interessantes, especialmente numa unidade pequena e tão próxima a área urbana, que tanto exige de esforço e criatividade do fotógrafo.

Conseguimos ir um pouco além da área turística oficial, visitando alguns belos cenários de seu entorno. Damásio ainda lembrou-me que o riacho trata-se também de geossítio, de forma que tanto os gestores ambientais da Secretaria de Meio Ambiente, quanto os coordenadores do Geoparque possuem gestão sobre o local.

Tive o cuidado de visitar o Parque tanto no dia em que estava fechado para visitas, quando num dia aberto ao público, onde pude constatar um público razoável e interessado na unidade. Me pareceu ser esse o mote do que irei encontrar nas próximas paradas.

O Parque Estadual do Sítio Fundão, na vizinha cidade do Crato, onde estou hospedado, é a próxima parada. A ver as cenas dos próximos capítulos.

POSTADO POR LUIZ NETTO.