Desbravando a mata atlântica de Saltinho


unnamed-4


Praticamente todo morador de Recife já veio a Tamandaré e pra chegar a suas tradicionais praias como Carneiros e outras, obrigatoriamente tem que se passar por Saltinho.

A Reserva Biológica localiza-se no trevo de acesso à praia, tendo seus 500 hectares cortados por duas rodovias estaduais. Obviamente sempre tive vontade quando vinha às praias com minha família de entrar na Reserva, mas sabendo das dificuldades que é conseguir autorização pra entrar em REBIO´s  de maneira legal, esperamos o melhor momento, e ele finalmente chegou.

Tamandaré foi um dos municípios que nos deu mais apoio ao longo de nossa jornada no projeto Expedição Pernambuco até o presente momento. A Prefeitura, através do Secretário de Cultura, o Eduardo, nos deu todo o suporte necessário durante o período que lá estivemos, assim como o Apart Hotel Marinas, na Praia dos Carneiros abriu suas portas pra receber nossa equipe durante os dias de nosso trabalho.

Fomos muito bem recebidos pelo Pedro Lins, gestor do ICMBio responsável pela REBIO e pelo grande Saberé, mateiro experiente que nos acompanhou nesta jornada. Tínhamos feito uma boa pesquisa sobre o local e sabíamos que seria teoricamente o mais fácil (ou menos difícil) de avistarmos com alguns exemplares de mamíferos que ainda não havíamos encontrado, especialmente quatis e cutias que costumam dar as caras por aqui.

Apesar de Tamandaré ser uma cidade muito procurada, especialmente no verão, e das rodovias que cruzam a Reserva, ela mantém um bom isolamento. A maior parte de seus 500 hectares se localiza por trás das pistas e portanto sem muito contato com o fluxo turístico.

Fizemos um rápido briefing com o Saberé. Montamos todas as estratégias possíveis pra tentar encontrar os animais. Com certeza sagüis e micos-de-cheiro, espécie amazônica que invadiu a Reserva décadas atrás não seriam muito difíceis de se ver, sabíamos disso, até porque muitas vezes os micos aparecem até na pista quando estamos indo pra praia e desta vez não foi diferente, nem bem saímos da sede do ICMBio já fomos recebidos pelos primatas. O Pedro até nos falou de um projeto que eles possuem de construir o corredor ecológico até um engenho da região onde ainda é possível encontrar o macaco-prego-galego, espécie cada vez mais rara em liberdade, mas para tanto havia a necessidade de retirar os invasores do local, por concorrerem em alimentos  com os pregos, bem como serem vetores pra transmissão de doenças para estes.

Usamos uma estratégia semelhante à adotada na Resex. Como 80% da Unidade fica à oeste da rodovia, focamos no primeiro dia justamente no lado leste, sem nenhuma pretensão, já que é a parte da REBIO que é constantemente cortada pelos veículos.

Apesar desta pressão dos automóveis, a pista é muito bonita, toda em paralelepípedo e com árvores de altas copas. Por ironia do destino, nosso primeiro  dia na REBIO e o que tínhamos menos expectativas, terminou sendo um dos mais proveitosos.

unnamed
Luiz batendo um papo com seu novo amigo.

 

Primeiro encontramos uma família gigante dos micos-de-cheiro, conseguimos fotos lindas de mães e seus filhotes, de seus hábitos alimentares, devastadores por sinal, comem tudo que vêem pela frente, em seguida cruzamos com dois bichos-preguiça em locais diferentes, mas também próximos da rodovia. Algumas aves de cores vivas, típicas da mata-atlântica também cruzaram nossos caminhos até que o barulho dos carros que vez ou outra passavam pela pista foi abafado pelos “gritos silenciosos” do Saberé.

“Psiu! Bart! Luiz! Vocês não queriam encontrar os quatis?”

E lá estavam eles, uma família inteira, com quatro filhotes em cima de uma árvore bem próxima de onde fotografávamos a preguiça. É nestas horas que percebemos o quanto a raça humana é temida pelos animais. Bastou dar dois passos em direção à árvore que os adultos literalmente se jogaram completamente desesperados do topo. Nunca havia visto disso antes. Me arrisco a dizer que eles pularam de uma altura de uns 10 metros. Já os filhotes, coitados, não tiveram coragem pra tal salto e pra nós isso foi fantástico. Ficaram presos no alto, olhavam e olhavam, iam pra um lado, para o outro sempre fitando as câmeras pra saber “que diabos era aquilo”. Nem preciso dizer que este foi um dos pontos altos do projeto até agora, mas as fotos vão ficar guardadas, segue uma apenas pra matar a curiosidade, as melhores só no livro. Ainda fechamos a parte leste da Reserva com a sua bela cachoeira, já na zona de amortecimento rumo a Tamandaré.

unnamed-1

A Reserva nos deu um grande presente, apresentando seus quatis logo no primeiro dia!

unnamed-3

A cachoeira nos rendeu belas imagens.

unnamed-5
A Reserva apresenta trechos bem conservados apesar de estar próximo de grandes centros urbanos.


Com uma recepção destas já sabíamos que teríamos muita coisa boa pela frente. Mesmo com a chuva que caiu a partir do segundo dia, o período da REBIO foi ótimo. Acompanhamos o trabalho de alguns botânicos e principalmente andamos, andamos e andamos muito. Fomos aos açudes da Reserva, onde corriqueiramente encontramos mais vida e Luiz ainda foi agraciado com uma cabeçada num ninho de maribondos no meio da mata, mas mesmo com os hematomas, nada que atrapalhasse o andamento de nossos trabalhos. Conseguido os quatis, nosso foco passou a ser as cutias, que segundo Saberé todo fim de tarde apareciam perto da administração. Foram horas e dias de tocaia, pois talvez por conta da chuva eles cismaram de ciscar em outras freguesias. Coube ao Luiz, no último dia, finalmente encontrá-las, mas isso também fica pro livro!

De ponto negativo fica o fato de termos encontrado um caçador dentro da Rebio, com direito a tiros e tudo. A REBIO é cercada na parte da pista, mas completamente aberta por trás, onde faz limite com o grande canavial e é por lá que os caçadores entram. Ouvimos o disparo e quando corrermos pra ver o que se tratava, ele também nos viu e correu mais do que nós.

unnamed-2
Saltinho nos deixando saudades.


No mais, Saltinho fecha o ciclo das três reservas biológicas federais do projeto, todas já devidamente documentadas. Daqui seguimos pro Parque Estadual Duas Lagoas, no Cabo de Santo Agostinho.

 POSTADO POR BART VAN DORP EM 25 DE NOVEMBRO DE 2014