Desembarcando em Santana do Cariri

A jornada cearense continuou pelo Araripe, seguindo ao município de Santana do Cariri, uma espécie de “capital paleontológica” do Ceará. Aqui, a herança das pesquisas lideradas pelo professor Plácido Cidade Nuvens, histórico professor da Universidade Regional do Cariri – URCA e ex-prefeito de Santana do Cariri, se faz presente, não apenas pelo espetacular Museu de Paleontologia erguido no centro da cidade, quanto pelos dois monumentos naturais abarcados no município: o Pontal da Santa Cruz e o Sítio Cana Brava.

A pré-produção já apontava diferenças entre ambos, apesar de, novamente, a proteção ambiental e a geológica se misturarem no Araripe, uma vez que os dois monumentos se confundem também a dois geossítios do Geopark Araripe, o Geossítio do Pontal da Santa Cruz e o Geossítio do Parque dos Pterossauros, respectivamente.

Em casa, na tranquilidade da noite, onde normalmente mergulho nas longas pesquisas que antecedem minhas viagens, costumo dissecar variáveis que vão além da ambiental no que se refere à unidade de conservação que irei visitar.

Em conversas extra oficiais com alguns colegas da região, já me haviam passado que desde a morte do Professor Plácido alguns geossítios passavam por certa dificuldade e com muitas de suas estruturas precisando de um bom retoque. Até a presente data, os geossítios localizados dentro das unidades de conservação que eu havia visitado (Riacho do Meio e Sítio Fundão) gozavam de boa estrutura, talvez motivados pela proximidade com os centros das cidades de Barbalha e Crato, respectivamente. Em tese, os dois novos monumentos naturais a serem visitados encontraríamos as mesmas características, uma vez que estão próximos ao centro de Santana do Cariri, mas desde o primeiro momento a dificuldade para se conseguir informações sobre o Monumento Natural do Sítio Cana Brava (onde se localiza também o geossítio do Parque dos Pterossauros) me chamara a atenção. O fato de ser o local onde os mais ricos fósseis de pterossauros do Brasil foram encontrados só reforçara nosso desejo de conhecer a fundo o local.

Afora informações extraoficiais de sites confiáveis , como o wikiaves, e algumas observações na página oficial do Geopark, pouco se fala sobre o Sítio Crava e o Parque dos Pterossauros serem a mesma coisa. A dúvida só foi sanada totalmente após contato com a coordenação do Geopark e ratificada após conseguir acesso à lei que fundava e demarcava as duas unidades de conservação de Santana do Cariri.

Ambas entram na leva de unidades de conservação criadas com o objetivo de proteger o legado do professor Plácido Cidade Nuvens. Apesar de estadual, ambas não têm sua gestão ligada à Secretaria de Meio Ambiente do estado do Ceará, mas à própria URCA, que, em tese, realiza uma gestão conjunta à administração do Museu de Paleontologia, entre outros equipamentos universitários ligados ao legado paleontológico da região.

Pois bem, se tive dificuldades pra encontrar informações sobre a Cana Brava, no Pontal de Santa Cruz a coisa é o oposto diametral. Fácil de achar relatos, mapas, localização no google, imagens, entre outros.

A estratégia tava montada, iria começar a visita pelo Museu de Paleontologia, até pra pegar mais informações das duas unidades de conservação e em seguida partir para o Pontal da Santa Cruz, de onde julgava já gozar de informações suficientes.

Cheguei ao Museu acompanhado novamente pelo Damásio, meu guia oficial no Araripe e tivemos dois monitores a nossa disposição ao longo de toda visita. Nessas andanças já me deparei com belos museus localizados em cidades pequenas. Sou um apaixonado pelo Museu do Homem Americano, em São Raimundo Nonato e posso afirmar que o Museu de Paleontologia fica num patamar bem próximo em relevância, com uma estrutura ligeiramente inferior ao primo piauiense, mas superior a outros similares, como o Museu de Arqueologia do Xingó – MAX, na sergipana Canindé de São Francisco, entre outros.

Os jovens monitores eram profundos conhecedores do patrimônio do museu, senti que o legado do professor Plácido estaria a salvo com aqueles jovens. O local também estava num dia cheio, com várias escolas da região fazendo excursões.

A gama de material é vasta, envolvendo fósseis de répteis, aves, peixes, anfíbios, insetos, vegetais, entre outros, se a ideia é mostrar a relevância histórica da região para o Brasil, o equipamento atinge em cheio o objetivo, o visitante sai com a nítida sensação que está cercado de tesouros que precisam ser preservados.

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Fósseis de peixes a mostra no Museu de Paleontologia.

Na saída tive uma reunião com funcionários que me passaram as últimas dicas dos locais a serem visitados. Claramente a contragosto e com aquela visível cara de decepção, um deles me confirmara o que eu já suspeitava, que o Sítio Cana Brava estaria “um pouco” abandonado. Tratei logo de deixa-lo à vontade e de reforçar a relevância de nosso trabalho. Um dos objetivos da EcoExpedições é exatamente este, o de reforçar a necessidade de preservação, e não os esterótipos destrutivos e de abandono. Certamente o Sítio teria coisas lindas a se mostrar, mesmo na situação atual.

Por fim, nos despedimos e seguimos rumo ao Pontal, começar pelo local mais fácil é sempre uma boa opção, especialmente por quem tá bem cansado pela viagem. E assim se fez, mas como foi por lá eu conto no próximo post. Até já!

POSTADO POR LUIZ NETTO