Desembarcando em Sobral

A terra de meu grande ídolo Belchior cruzaria meu caminho durante a Coleção EcoExpedições. Fiquei duplamente feliz quando soube da existência da Floresta Nacional de Sobral, bem como saber que a APA da Serra da Meruoca também possui parte de seu território na terra natal do grande mestre.

Sobral, até pela proximidade de Parnaíba e pela abundância de avifauna, é destino corriqueiro do Chico, que costuma visitar vários amigos passarinheiros da região. A cidade possui inclusive parques municipais com lagoas e grande abundância de pássaros mesmo na área urbana.

Chegamos na hora do almoço e fomos recebidos pela tropa de passarinheiros locais, o Romilson, o Wilson, o Luiz e o André Adeodato, amigos do Chico de longas datas. Mais tarde, mais gente se juntaria a este time seleto, mas já nos primeiros minutos de conversa fomos atualizados sobre os novos achados do birdwatching local. O crescimento da atividade em todo o Brasil vem sendo de grande ajuda especialmente no apoio local e logístico em diversas unidades de conservação. Mesmo o mosaico de uma unidade de conservação sendo muito mais amplo que a avifauna, este apoio conseguido mediante contatos com fotógrafos locais vem sendo fundamental para o sucesso de nossas empreitadas.

Ficamos hospedados na casa do colega Romilson e o André, profundo conhecedor da Serra da Meruoca, seria nosso guia por estar mais livre nas próximas datas. Fizemos então a primeira separação do time. Chico seguiu para com André para “passarinhar” em busca dos últimos achados urbanos da cidade, enquanto fui com o Romilson tratar da parte burocrática.

Como de costume, faço contato prévio com o ICMBio local, quase sempre através da regional que nos abre as portas junto aos gestores das UC´s. Já havia previamente enviado o projeto para a sede, há uma única sede administrativa para as duas unidades de conservação federais de Sobral e pudemos tirar as últimas dúvidas sobre a região, especialmente sobre a Flona de Sobral, da qual dispúnhamos de poucas informações na internet e até mesmo os próprios sobralenses desconheciam sua existência.

Antes de seguir para a APA, ficamos mais um dia Sobral. Eu nunca tinha parado no município, sempre fui apenas “de passagem”, e foi uma boa oportunidade de fotografar os parques municipais. Especialmente no da Lagoa da Fazenda, onde consegui algumas boas fotos. Apesar dos parques municipais não estarem no escopo da EcoExpedições, todas as iniciativas de preservação possuem a mesma relevância para o meio e merecem o mesmo grau de respeito. Sempre que vamos a uma UC estadual ou federal, faço questão de levantar se nos arredores há alguma iniciativa municipal ou até mesmo particular (as famosas RPPN´s) para visita-las. Não sobra muito tempo, mas sempre é possível dedicar ao menos um dia para este fim.

Começaríamos a parte “oficial” da viagem pela APA da Serra da Meruoca, região montanhosa e de muita beleza, com seus incontáveis mirantes e cachoeiras. Seguimos para a cidade de Meruoca. Lá contaríamos com apoio de mais um passarinheiro de Sobral, radicado em Parnaíba, o Fábio, que já nos acompanhara durante parte do Expedição Piauí e que findaria por nos ceder o sítio de sua família no alto da Serra para ser nosso “quartel general”.

O sítio em si era uma atração à parte. Fábio já nos avisara do casal de belas corujas murucututu que “moram” no quintal do sítio. Logo ao soltar o primeiro playback, foi uma verdadeira sinfonia. Rapidamente ambas apareceram e desfilaram por horas seu som característico. Aves relativamente difíceis de serem encontradas, mas que respondem muito bem ao playback. A passagem pela Meruoca começava bem.

A APA abrange vários municípios além de Sobral e Meruoca, especialmente Alcântaras, onde tivemos acesso aos mais belos mirantes da região e fins de tarde de tirar o fôlego. No Mirante do Talhado, uma espécie de balneário onde os cearenses se reúnem pra celebrar o pôr-do-sol, tivemos a oportunidade de fotografar um dos mais belos crepúsculos das viagens da Coleção até o momento. Tivemos o cuidado de sair um pouco do eixo central do mirante onde o público se concentra e fomos pra uma área mais isolada onde seríamos recompensados por belas fotos feitas com nosso drone, além de um encontro com uma choca-do-nordeste, outra ave não tão fácil de se encontrar, mas que se fez presente mesmo sem playback.

A vasta área territorial da APA nos fez rodar muito de carro nos dias que lá estivemos. A região montanhosa era um convite a fotos de belas paisagens. Além do Talhado, vários outros mirantes merecem destaque, como Santo Antônio dos Camilos e as várias cachoeiras existentes. Pelo período do ano que fomos, não encontramos nenhuma delas no seu fluxo máximo de água, mas o suficiente para registrar toda a beleza da APA. Também fomos numa rampa de voo livre existente do lado da Serra, virada para Sobral, onde pudemos ter uma bela imagem da “capital” da Serra da Meruoca.

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Visita à rampa de voo livre. Atrás de mim, da esquerda pra direita o Luiz, o André e o Chico.

 

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Mirante do Talhado, um dos mais belos de toda a Meruoca.

Pegamos um agradável clima frio nas noites que lá estivemos, noites estas que passamos a maior parte do tempo acordados atrás das corujas que desfilam pela serra. São várias espécies. Além da já citada Murucututu que pousou para nossas lentes já nos primeiros dias, investimos muita energia pra tentar encontrar exemplares de coruja-orelhuda e especialmente de caburé-acanelado, rara e bela espécie de caburé que vinha aparecendo com frequência num outro sítio local e que tínhamos conseguido autorização para entrar.

A orelhuda tivemos sucesso em encontra-la, mas não em fotografa-la. Ela chegou por dois momentos a pousar dentro de nosso raio de visão e dentro do alcance de nossas lanternas, mas não perto o suficiente para boas imagens. Especialmente nas condições adversas da foto noturna. O animal também não repondera tão bem ao playback.

Já o acanelado, este nos tomou várias pacientes horas todas as noites. Nenhum retorno, nenhuma resposta. Cada noite que passava, maior a expectativa, especialmente pela pressão dos últimos dias que teríamos na região. No final, ao menos esta pequena história não teve final feliz, pra frustração maior de meus amigos André e Chico que ansiavam pelo encontro e aproveitaram a falta de sucesso desta empreitada para reagendar novas tentativas nos próximos meses. Apesar do drible que levamos do acanelado, as noites na Meruoca nos renderam outros belos encontros com a sempre presente corujinha-do-mato e encontros quase que diários com o casal de Murucututu de “nosso” sítio.

Foram dias muito proveitosos, entendi perfeitamente porque a Serra da Meruoca é tão procurada pra ser casa de campo pelos cearenses. O clima agradável, a boa estrutura das cidades aliado a belas paisagens, são o convite para bons dias de descanso pra quem quer fugir do ritmo frenético de Fortaleza, Sobral e outras cidades grandes do Ceará.

Daqui partimos pra Floresta Nacional de Sobral. Até breve!

POSTADO POR LUIZ NETTO