Desembarcando no Zoobotânico de Teresina

As chamadas “florestas urbanas” sempre me atraíram, mesmo quando excessivamente pressionadas pelo bicho-homem, mesmo quando em recuperação, mesmo quando pouco da fauna é possível vivenciar em vida livre. Seja qual for o estágio em que a mata se encontre, sempre há algo interessante do que se buscar pra fotografar e retratar do estágio atual de desenvolvimento e recuperação ambiental.

O simples fato destas unidades de conservação existirem e resistirem, quase sempre rodeada pela selva de pedras das grandes metrópoles, já é, em si, algo que mereça todo destaque e atenção por parte de um documentarista.

No meu caso, óbvio, há uma razão extra para tanto interesse, especialmente pela minha estreita relação com o Parque Estadual de Dois Irmãos, em Recife, lugar onde praticamente nasci e frequentei por toda infância e adolescência, lugar onde devolvi à natureza um macaco-prego que criávamos na minha infância (meu primeiro animal de estimação), o Chico, que tive a chance de falar um pouco sobre ele no blog de Expedição Pernambuco. Dois Irmãos sempre representou pra mim fugir da loucura urbana do Recife e em poucos minutos me colocar imerso na mais bela Mata Atlântica urbana de Pernambuco, por onde sempre gastei várias horas da minha vida e muitos clicks das minhas câmeras.

O Zoobotâncio de Teresina é exatamente a contraparte piauiense de Dois Irmãos. Nas semanas que antecederam o segundo giro que iríamos dar pelas unidades piauienses ao longo de Expedição Piauí, em visita pontuais que fizemos a alguns em alguns locais que por motivos climáticos diversos não puderam ser visitados no nosso primeiro giro finalizado em março passado, havia uma única unidade que ainda não havia sido registrada, justamente o Zoobotânico, deixado por último de forma intencional, tanto pela logística bem mais simples, por se localizar na capital, como também, admitamos, pelo certo desdém com que nossos contatos piauienses sempre falavam sobre a unidade.

Claro que num estado que tem a Serra da Capivara, a Serra das Confusões, o Delta do Parnaíba, comparar com o Zoobotânico é uma tarefa ingrata e inglória, mas em uma região tão afetada pela incidência solar como a capital piauiense, florestas urbanas como a do Parque e a da também próxima Floresta Nacional de Palmares são sempre necessárias e relevantes, independente do grau de interesse que desperte nos fotógrafos.

O Parque também não tem a mesma estrutura de Dois Irmãos. São muito similares, ambas possuem um zoológico rodeado por uma área de preservação integral, mas as opções de restaurantes do parque piauiense é bem inferior ao pernambucano, a estrutura geral de suporte ao visitante também é inferior, os cativeiros em termos de tamanho e variedade também não se comparam ao seu análogo recifense, o mesmo valendo para a integração com a mata preservada nos seus arredores, agravado pelo fato que, em Recife, a vegetação é uma frondosa Mata Atlântica rodeada de boas sombras, enquanto em Teresina, estamos falando da tradicional caatinga que se espalha por todo território do estado, com sua incidência solar já largamente conhecida do brasileiro, o que a torna menos convidativa a caminhadas, entre outras coisas.

Mesmo com a ingrata comparação com as demais unidades de conservação piauiense e com as florestas urbanas de outras cidades nordestinas, o Parque está muito longe de ser um local sem interesse. Sem dúvidas é o melhor lugar da capital para ações de educação ambiental, bem como para o primeiro contato com a natureza das crianças e adolescentes da cidade. O acervo cativo, apesar de majoritariamente composto de espécies brasileiras e nordestinas, possui também alguns animais exóticos à nossa região, como o mico-de-cheiro e até mesmo estrangeiras como o hipopótamo e o avestruz. Algo aparentemente desinteressante a um fotografo habituado às grandes florestas brasileiras, mas excessivamente útil pra conscientizar os jovens que hoje possuem cada vez menos contato com a natureza.

Merece destaque também no Parque as ilhas de primatas localizadas próximas às portarias da UC, artificiais, mas me remontaram automaticamente ao dia que soltamos Chico numa ilha equivalente do parque pernambucano. Na ocasião ele havia sido rejeitado pelo bando e fugiu nadando de volta ao nosso encontro.

Se pudesse deixar uma dica para o governo do Piauí, iria sugerir o investimento na estrutura de conexão com uma mata, com trilhas sensoriais, pontos de descanço para as caminhadas mais longas, entre outros. Nos dias que lá estive, conseguimos encontrar bons exemplares da avifauna piauiense, até mesmo grandes rapinantes, com certa facilidade, seria ótimo que as crianças também possam acompanhar isso de perto, até porque visitar e conhecer as espécies cativas é importante, mas nada se compara a vivenciar nossa fauna livre.

Em linhas gerais, minha impressão foi de razoável pra boa, especialmente se comparado à precariedade brasileira nas unidades similares espalhadas pelo país. Vida longa ao Parque Zoobotânico de Teresina.

Na sessão de extras do projeto, já há uma série de galerias publicadas sobre as espécies cativas desta unidade de conservação (reproduzo a seguir algumas destas imagens). A fauna livre vai ficar pro livro impresso.

Em breve estaremos retomando o blog de Expedição Ceará. Até lá!

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 17 DEZEMBRO DE 2016