ESEC Serra da Canoa, a última parada no Sertão

 

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A tríade desse nosso último tour pelo Sertão se encerraria com a recém-criada Estação Ecológica Serra da Canoa, na cidade de Floresta. Partiríamos da REBIO Serra Negra, direto pra lá, cerca de uma hora de viagem. A Serra da Canoa não só era em Floresta, como relativamente perto do centro da cidade.

Os dias na Serra Negra haviam sido extremamente proveitosos e recompensadores e chegamos já na boca da noite à cidade dos Nazarenos, nome dado ao grupo de homens da Vila de Nazaré que se tornaram os mais ferrenhos perseguidores de Lampião.

Floresta fica próxima de Serra Talhada, cidade de minha família (e também terra natal do próprio Lampião), por isso a relação de ambas com a história do cangaço é muito forte. 

Ao chegarmos havia um grande evento estadual de professores na cidade, os hotéis estavam lotados. Nosso trabalho de produção já nos alertara de tudo isso, já tendo deixado tudo reservado com bem antecedência. Ao chegarmos nos encontramos com os colegas da CPRH, Agência Estadual de Meio-Ambiente, a Joice, que trabalhou muito tempo na implantação desta Unidade de Conservação, o Vidal e o Rodrigo, gestor do Parque Estadual Mata da Pimenteira, em Serra Talhada.

Se não bastasse a cidade estar lotada, ainda era a final do campeonato pernambucano de futebol. Certo que o jogo acontecia em Recife, entre Sport e Náutico, mas quem é rubro-negro, como eu e o Jadson que ainda me acompanhava nesse tour, sabe que o Sport é quase que uma religião em todo o Estado. A últimas duas semanas que já haviam sido altamente produtivas com os trabalhos no Catimbau e na Serra Negra começava a ser coroada com o 40o título pernambucano. Os bares de Floresta lotados comemoraram em igual tom.

Ao menos essa comemoração não poderíamos exagerar, dia seguinte começamos os trabalhos cedo. A Joice nos levou até o limite da ESEC, onde começamos a caminhar pela Serra. A região é bem “estação ecológica” mesmo, sem muitas paisagens cênicas, mas com um substrato muito rico de caatinga. Eu como fotógrafo sou apaixonado por áreas assim, cada vez mais raras em Pernambuco.

Não foi tão fácil avistar a fauna nos primeiro dia. Joice havia nos posicionado que durante o processo de demarcação encontrara emas e outros animais de grande parte na região, mas independente disso, a caatinga sempre nos reserva muitas surpresas. A ESEC possui uma rica população de periquitos-da-caatinga e arribaçãs, que estão por toda parte.

Algumas aves de rapina e papagaios-verdadeiros também deram o ar da graça. As chuvas recentes das cidades próximas pareciam ainda não terem chegado com muita força à Floresta. Os leitos dos rios estavam completamente secos e terminou virando nossa trilha favorita pra fugir da vegetação fechada e agressiva da caatinga.

Pra quem não tá acostumado a andar por trechos de caatinga, pode achar o local um pouco “repetitivo”, mas é justamente essa repetição que torna tão atraente. A região era relativamente uniforme, ainda com alguns poucos moradores em seu interior, mas foram justamente estes que nos deram as melhores dicas. Ao perguntar sobre a fauna local, se ainda era possível encontrar muita coisa, todos foram unânimes em apontar a seca recente como um problema. Diziam que havia chovido recentemente (no Catimbau ali perto havia chovido muito), mas que a água não tinha “dado conta” ainda. A melhor das histórias havia acontecido há poucos meses. Uma onça-suçuarana havia aparecido na região e comido alguns animais domésticos, especialmente galinhas. Um morador da região revoltado subiu ao topo da Serra pra montar armadilha pra liquidar o bicho. A armadilha funcionou, mas ao invés de matar a onça, matou o próprio caçador num momento de descuido.

Por falar na Serra, deixamos para o último dia subir ao seu topo, na esperança de encontrar um local  bom e descampado para uma panorâmica da UC. Neste dia saímos cedíssimo, por volta das 4 da manhã. Foi o dia mais proveitoso. Muitas aves cruzaram nosso caminho. Contei pelo menos 20 diferentes espécies dos mais variados tipos.

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Equipe da CPRH que nos prestou apoio durante os trabalhos na ESEC Serra da Canoa.

A subida à Serra não foi tão fácil. Vegetação fechada e a ausência de trilhas dificultaram nossa progressão e por mais que subíssemos não encontrávamos lá uma área muito aberta pra uma boa imagem. Por sinal, não dá nem pra reclamar disso, nossa caatinga é tão castigada nordeste afora, que ter um substrato de tão grande porte deve ser louvado.

Nossa passagem pela Serra da Canoa foi rápida, mas altamente importante e proveitosa. Nos deixou a certeza que ainda há boas iniciativas pra preservação da caatinga, nos deu novos amigos e acima de tudo engrandeceu ainda mais nosso Projeto.

Este último tour do Sertão chegara ao fim. Ao todo rodamos mais de 2000 quilômetros nas três unidades de conservação. A pé, pelas contas de meu GPS foi o suficiente pra percorrer duas maratonas em mata fechada e voltávamos pra casa com as câmeras recheadas de belas imagens. 

Agora é voltar pra Recife e reencontrar o Bart que a estas alturas já deve ter voltado da Holanda. Nas próximas semanas vai ser a vez da Reserva Biológica Saltinho e da da Reserva Extrativista Acaú-Goiana, ambas no litoral pernambucano.

Até lá.

 POSTADO POR LUIZ NETTO EM 03 DE NOVEMBRO DE 2014