Expedição Ceará passa pela ESEC Aiuaba

O mosaico do Araripe abriria suas portas para o Expedição Ceará através da Estação Ecológica de Aiuaba, uma das que compõe o grupo de quase duas dezenas de unidades existentes em toda a Chapada do Araripe, incluindo-se entre elas, unidades federais, estaduais e particulares.

Aiuaba é uma daquelas unidades de conservação que, mesmo com suas grandes dimensões e importância, é desconhecida do grande público. O isolamento, localizada no sudoeste cearense numa área distante de todos os grandes centros urbanos, faz o fluxo de visitantes à UC ser bastante reduzido. O fato de ser uma estação ecológica, unidade tipicamente voltada para pesquisa e ações de educação ambiental e não ao turismo, também contribui.

A ESEC leva o nome do pequeno município dem que se situa, cidade com pouco mais de 16 mil habitantes. Chegávamos à unidade no período de estiagem, queimados pelo típico sol do Cariri.

Nossa estada tinha tudo pra ser proveitosa. Desde o primeiro momento contamos com um grande apoio do gestor local do ICMBio, Honório Arrais, que abriu as portas da unidade de conservação pra nosso time.

Eu havia me encontrado com o Chico e com o resto da equipe em Teresina e de lá descemos de carro até o sul cearense, numa jornada de mais de oito horas feita em grande parte por estradas de barro. Havia a opção de vir toda por asfalto, a partir de Picos, o que acrescentaria alguns quilômetros , mas optamos enveredar por novas trilhas antes não navegadas, uma vez que a maioria delas se localizava por dentro da APA da Serra da Ibiapaba, outra unidade de conservação prevista tanto no Expedição Ceará, quanto no Expedição Piauí, e que já vínhamos visitando em outras oportunidades. Eram novas oportunidades pra mais fotos.

O trecho pela zona rural da Ibiapaba terminou sendo pouco proveitoso, o sol forte e escaldante do meio dia afugentou um pouco as aves, que necessariamente não eram o objetivo naquele momento, mas conseguimos levar algumas belas fotos da paisagem seca da estiagem nordestina. Logo saímos da Ibiapaba, emergindo na região do Cariri cearense e novamente cortamos caminhos por uma outra rodovia não pavimentada, o que nem sempre foram boas escolhas, dado o estado crítico das mesmas.

Chegamos à ESEC quando os últimos raios da tarde começavam a ir embora. A sede da estação fica a poucos metros do centro da cidade, Honório e Seu Deró, funcionário do ICMBio, nos esperavam à porta.

Destaco sempre o quanto somos bem recebidos pelas pessoas em cada uma das cidades do projeto e na Aiuaba o apoio foi total. A sede do ICMBio local goza de bela estrutura. Torres de observação de queimadas, muitos alojamentos, cozinha, etc.

Tivemos um alojamento inteiro disponível pra nossa equipe e a própria sede em si, já era um lugar muito interessante para fotografar, com algumas lagoas perenes no entorno, que nesta fase de estiagem se mostraram ótimos pontos de apoio para fotografar especialmente a avifauna da Aiuaba.

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Alojamento da Estação Ecológica de Aiuaba.

Fomos jantar num dos poucos restaurantes da cidade que abrem à noite, mas como quantidade não é qualidade, tivemos um belo banquete do melhor da culinária sertaneja e aproveitamos pra botar o papo em dia com Honório e Deró que nos acompanharam e passaram um raio-x mais completo possível da situação atual da Estação e um pouco de sua história. Fiquei feliz em saber que Honório era amigo do saudoso fotógrafo Luiz Cláudio Marigo e que havia, ali, na Aiuaba feito algumas de suas icônicas imagens do chocolate surpresa.

Infelizmente, como quase sempre acontece, o tempo em campo é inferior ao que desejamos e inferior ao que a UC merece, o que nos obriga a otimizar ao máximo nossos deslocamentos, horários e afins.

Honório nos havia posicionado que a ESEC possui uma estrada que praticamente a circunda por completo e Deró lembrado de um região próxima à sede onde os jacus costumam aparecer com frequência. Parecia ser ótimo para o primeiro dia: circundar a unidade como um todo, algo que já costumamos fazer mesmo quando não há estradas pra isso.

E assim foi feito. Saímos da sede por volta das 4:30 da manhã rumo ao local dos jacus de Seu Deró, mas eles não deram as caras. Longe de ser uma decepção, os primeiros raios de sol nos renderam belíssimas imagens da caatinga cearense, em especial enormes juazeiros e faveleiras inundaram nossas lentes.

Em seguida demos início a nosso tour pelos entornos da Aiuaba, parando nos principais açudes e lagos, intercalando com alguns vôos de drone e avistamentos de grandes bandos de aracatingas, além de diversas rapinantes que vez ou outra pousavam e posavam pra nossas lentes. Passamos pelo povoado do Cedro, lugar que nos serviu de apoio em muitos dias. Fomos sempre bem recebidos na casa de Dona Marinésia e de seu filho Jeremias, que, além da sempre desejada internet, também foi eleito nosso point de café da manhã oficial. Como saíamos muito cedo da base todos os dias, sempre que o sol começava a castigar, o Cedro foi um estratégico ponto de descanso em muitos momentos.

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Dona Marinésia recebendo nossa trupe. Apresentando da esquerda para direita, em pé: Seu Deró, nosso assistente Vinícius França, Eduardo Crispim, que nos acompanhara para filmar nossas atividades e Chico. Sentado ao meu lado, Honório, gestor da ESEC.

Aiuaba é enorme, terminamos nosso tour por volta das 14 horas, hora que fomos almoçar e já debater a estratégia pros próximos dias. Uma coisa é certa, teríamos dias quentes pela frente. A pesada estiagem não dava qualquer sinal de arrefecimento, corroborando com a previsão climática que tínhamos em mãos. A partir do segundo dia, optamos por nos dividir e assim se seguiu praticamente até o fim de nossa estada na região.

Chico se concentrou em algumas locais e fotos aéreas, enquanto eu fui rasgar caatinga no peito com Seu Deró. Foram ricos dias com esta enciclopédia da Aiuaba, conhecedor de cada trilha, cada pedra, cada planta da ESEC.

Fomos a algumas cachoeiras, que pela época do ano estavam sem água, mas, não menos belas e imponentes, suas formações rochosas eram belos mirantes para toda estação. Numa das portarias, inclusive, há um grande museu natural, com diversas espécies de árvores, algumas em risco de extinção, como a imburana de cambão, todas identificadas para o fácil reconhecimento dos visitantes. Foi um dos trechos que mais gostei, apontando a enorme biodiversidade que a Aiuaba dispõe. Passamos também pelas duas principais lagoas da unidade de conservação, localizadas bem no seu interior e que estavam completamente secas.

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Trilha da Aiuaba com diversas espécies da caatinga identificadas.

Mesmo com o baixo nível das águas, o solo úmido ainda atraia alguns animais ao local, ao som do canto da Acauã, que do topo de uma árvore próxima buscava alguma presa disponível. Foi uma árdua caminhada, com direito a alguns espinhos espalhados pela minha roupa, fruto da “caça” a um dos acauãs que cantavam sem parar e que me fez enveredar por locais da caatinga impróprios pra uma pessoa com 1,90m de altura. Só pra dar mais “raiva”, poucos minutos depois que chegamos às famosas lagoas, o drone do Chico passa tranquilamente pelas nossa cabeça. Seu Deró mostrou seu grande senso de humor: “o Chico suou menos que a gente pra chegar aqui.” Na verdade o encontro não foi nada planejado. Chico ficara da sede do ICMBio “dronando” toda ESEC e o grande descampado das lagoas o chamara a atenção, bem na hora que ali chegávamos por terra.

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Uma das principais lagoas da ESEC Aiuaba, praticamente sem água.

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Eu e Crispim num dos dias de longas caminhadas.

Captura de Tela 2018-01-08 às 22.42.49Vinícius eu e Crispim aguardando as luzes do pôr-do-sol na Aiuaba.

Ainda passamos por uma imensa caverna vertical de cerca de 15 metros de profundidade, que deixamos pra descer em outra oportunidade por falta de material apropriado. No caminho Seu Deró ainda nos contou um pouco mais da história das antigas fazendas que cruzávamos naqueles caminhos, terras que foram desapropriadas para criação da ESEC. Nosso amigo lembrava de muitas coisas com riquezas de detalhes, como, por exemplo, o pé de juá ainda existente, onde os mascates aproveitavam-se da sombra para descansar das longas travessias.

A ESEC da Aiuaba findava por nos apresentar o mosaico de unidades da Chapada do Araripe, com ricos dias na companhia dos novos amigos que já fazem parte desta jornada.

Agora iremos rumar à leste, rumo à Floresta Nacional do Araripe-Apodi. Até lá!

POSTADO POR LUIZ NETTO