Espécies invasoras em Fernando de Noronha

Por Mitsy Queiroz
Fotos: Luiz Netto

O darwinismo explicou praticamente tudo que se conhece sobre a adaptação e evolução das espécies nos diversos biomas no planeta. Os ecossistemas insulares foram preponderantes para a desenvolvimento da teoria de Charles Darwin, em especial em uma das viagens que realizou às Ilhas Galápagos, no Equador.

Tipicamente a fauna e flora em ilhas e arquipélagos estão sujeitas a adaptações específicas às regiões que habitam, além de outras características como o fato de serem populações reduzidas e com distribuição física limitada pelo território insular, que finda por fazê-las “baixar a guarda” no jogo evolutivo, se tornando presas fáceis no caso de introdução de novas espécies.

A maioria das ilhas tropicais do planeta possuem algum tipo de espécie invasora, seja animal ou vegetal e em Fernando de Noronha* não é diferente.

Um local com turismo vastamente explorado e que no passado sofreu com desmatamentos criminosos no período em que fora um presídio político é potencial pra introdução de alguns seres indesejados.

Apesar do ambiente aquático de Fernando de Noronha ser dos mais preservados do planeta, na área terrestre os fatores antrópicos causaram vários danos que ainda estão em processo de recuperação. A seguir uma lista dos principais casos de animais introduzidos pelo homem no arquipélago brasileiro, seja de forma intencional ou acidental.

Ratazanas (Rattus norvegicus) e Camundongos (Mus musculus)

Se há algo comum no povoamento das ilhas oceânicas em todo planeta, desde o período das grandes navegações que culminaram na descoberta das Américas, é que os navios sempre andaram infestados de “tripulantes” não muito interessantes que encontraram nos trópicos o clima quente e a fartura de alimentos que sempre precisaram.

Desta maneira, os ratos, ratazanas e camundongos se multiplicaram por diversos ecossistemas insulares, incluindo-se Fernando de Noronha. Foram realizadas algumas ações no passado visando controlar a população de ratos, com destaque para a introdução do lagarto teju, mas as conseqüências foram trágicas.

Teju (Tupinambis merianae)

A invasão dos ratos num ambiente ecologicamente tão equilibrado quanto Fernando de Noronha por si só já fora um acontecimento altamente indesejado, mas ao que parece nada era tão ruim a ponto que não pudesse piorar.

A introdução intencional dos lagartos teju em Fernando de Noronha, visando eliminar a população de ratos na ilha, foi uma das ações ambientais mais quixotescas de toda a história.

Os responsáveis pelo fato se esqueceram de um pequeno detalhe, os ratos eram animais noturnos e os lagartos diurnos. Como resultado ao invés de uma praga, a ilha passou a ter duas, sendo os tejus ainda mais grave, pois passaram a se alimentar dos ovos de aves marinhas, comida fácil e farta em toda ilha.

Por sorte as populações de aves apresentam uma densidade populacional alta o suficiente pra suplantar as ações dos tejus, mas o desequilíbrio precisa ser constantemente monitorado como forma de evitar conseqüências piores no futuro. Já foram constatadas a influência dos tejus no fluxo migratório e territorial de algumas aves.

Com certeza ações que visem abater parte da população destes lagartos deverão ocorrer com cada vez mais freqüência. Pra se ter ideia da dimensão do desafio, foram introduzidos apenas dois casais na década de 50 e eventuais problemas de consanguinidade não impediram que hoje a população dos lagartos seja estimada em alguns milhares de indivíduos.

O caso do teju em Fernando de Noronha é indicado pelos técnicos como o principal problema biológico oriundo de uma espécie invasora em todo território pernambucano.

Mocós (Kerodon rupestris)

Os simpáticos roedores endêmicos da caatinga foram introduzidos de forma intencional pelos militares, por volta da década de 60, com o intuito exclusivo de servir de “diversão” como objetos de caça. O preço pago por esse capricho foi uma população crescente dos animais nas pedras das ilhas.

Mocó nos paredões da Baía do Sancho em Fernando de Noronha

Pássaros Fugidos de Gaiolas

Pelo menos três espécies de pássaros conseguiram fugir de gaiolas de seus antigos donos. Com mais freqüência é possível ver na ilha o galo-de-campina (Paroaria dominicana). Outras duas espécies de pássaros exóticos já foram encontradas: o chorão (Sporophila leucoptera), também conhecido como papa-capim, e o canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola).

Animais Domésticos e Rurais

Cães e gatos, além de animais rurais como cavalos, bois, cabras, galinhas entre outros, podem ser encontrados na ilha principal de Fernando de Noronha e são vetores de novas doenças e parasitas para a fauna nativa do arquipélago. Os animais rurais também forçam a transformar áreas que poderiam ser utilizadas pra recuperação de vegetação nativa em pasto. No caso dos gatos há o agravante do animal ser predador da mabuialagarto endêmico da ilha e um dos tesouros biológicos do arquipélago.

Animais domésticos estão por toda a parte.

Plantas

Das várias espécies invasoras de plantas e vegetais destaca-se o sabiá (Mimosa caesalpiniifolia), árvore típica da caatinga, o algodão-de-seda (Calotropis procera), a cana-brava (Arundo donax), entre muitas outras.

A cana-brava, lado direito da foto, se espalhou pelo território noronhense.

Pequenos animais

Outras duas pequenas espécies invasoras são a lagartixa-doméstica-tropical (Hemidactylus mabouia) e a formiga-cabeçuda-urbana (Pheidole megacephala).

*O Parque Nacional Marinho Fernando de Noronha está no livro fotográfico Expedição Pernambuco – O Leão do Norte. Mais informações sobre a Coleção EcoExpedições no menu esquerdo do portal da Panorama Cultural ou no site www.colecaoecoexpedicoes.com.br. Os extras publicados no portal trazem informações e curiosidades das áreas visitadas ao longo do projeto.