Espécies migratórias em Fernando de Noronha

Por Mitsy Queiroz
Fotos: Luiz Netto

Fernando de Noronha* é um porto de repouso luxuoso para diversas espécies migratórias. Uma lista extensa de aves neárticas** já foi avistada na ilha ao longo dos anos, no período de migração austral***, entre setembro e novembro, com destaque para o falcão pelegrino (Falco peregrinus) e o vira-pedras (Arenaria interpres), também conhecido como maçarico-turco. Afora este último, outras 11 espécies diferentes de maçaricos também já foram avistadas em migrações pelo arquipélago, seja para repousar, seja para ter acesso a água doce e comida.

Uma das diversas espécies de Maçarico que passa por Noronha. Nesta foto já no continente, no litoral alagoano.

Não afetar estas delicadas rotas de migração é uma das razões para manter o fluxo turístico controlado em todas as ilhas do arquipélago, mas nada preocupa mais biólogos e autoridades que a migração da garça-vaqueira (Bubulcus ibis). Estas eram raramente vistas. Na década de 90 havia o registro de apenas 7 animais nas ilhas, mas logo os poucos migrantes descobriram o lixão da ilha e outros pontos com fartura de alimentação. As aves que antes chegavam e partiam, passaram a chegar e ficar por ali mesmo.

Após se estabelecer praticamente como residentes, o número passou em 15 anos de 7 para 400 indivíduos por volta do ano de 2003 e esse número continuou crescendo ao longo de toda última década, provavelmente superando o número de 1000 indivíduos em alguns momentos, um exagero para as dimensões do arquipélago. Além do lixão, o lagarto mabuia e ovos e filhotes de aves marinhas nativas ocuparam o menu deste novo habitante.

Todo esse desequilíbrio forçou as autoridades a tomarem medidas mais drásticas para evitar inclusive problemas na decolagem das aeronaves. Com base nestes riscos o Ministério Público ordenou o controle ecológico das aves que vem sendo realizado pela administração da ilha em parceria com a empresa gaúcha Hayabusa, que utiliza falcões e gaviões treinados, com as garras devidamente protegidas para não machucar as garças e capturar exemplares da espécie que depois são submetidos à eutanásia através de injeção letal. A técnica visa dar aos animais uma morte humanizada e sem sofrimento.

Recentemente a Hayabusa sofreu pela primeira vez em sua história uma baixa de seus animais em atividade. Um dos falcões ao alçar voou em Fernando de Noronha simplesmente não mais voltou e depois os técnicos encontraram apenas sangue, penas e o transmissor que os animais comumente carregam.

Acredita-se que a causa deva ser um outro problema da ilha, espécies invasoras. O falcão morto era de pequeno porte (270 gramas) e provavelmente fora vítima de um lagarto teju ou de um gato doméstico.

Até o momento a Hayabusa já capturou na ilha cerca de 300 garças com seus falcões e gaviões e estima-se que ainda restam cerca de 200 animais para serem capturados até o fim do projeto.

 * O Parque Nacional Marinho e a APA Fernando de Noronha estão no livro fotográfico Expedição Pernambuco – O Leão do Norte. Mais informações sobre a Coleção EcoExpedições no menu esquerdo do portal da Panorama Cultural ou no site www.colecaoecoexpedicoes.com.br. Os extras publicados no portal trazem informações e curiosidades das áreas visitadas ao longo do projeto.

** A região neártica compreende toda a América do Norte, da Groelândia ao norte do México.

*** A migração austral ocorre tipicamente no segundo semestre e em direção ao sul do continente americano.