Lendas de Fernando de Noronha

Por Mitsy Queiroz
Fotos: Luiz Netto

Fernando de Noronha* passou por diversas ocupações. Povos de diferentes países atracaram no Arquipélago, criando uma cultura própria e de origem cosmopolita. Cada uma dessas populações trouxe suas crenças, seus mitos e suas lendas que foram potencializadas pela atmosfera local. Muitas destas estórias estão presentes no folclore de Noronha, todas ligadas aos períodos das grandes navegações e das ocupações dos primeiros núcleos urbanos.

A primeira lenda se originou de uma “briga de deuses” que remonta às míticas histórias da Grécia Antiga. A Ilha seria habitada por seres gigantescos até que um belo dia um casal descobrira os prazeres carnais em meio ao paraíso (nada mais sugestivo). Teriam sido extirpados e alguns de seus órgãos colocados em pontos estratégicos. Os seios da mulher teriam criado o famoso Morro dos Dois Irmão, enquanto a genitália do homem teria criado o Morro do Pico.

Talvez a primeira lenda longe da origem “clássica” de Noronha se refira à Sereia Alamoa, que habitara o imaginário dos antigos moradores. Reza a lenda que o topo do Morro do Pico abria uma porta de pedras, onde às sextas-feiras a sereia saía loira e nua a seduzir os homens da ilha. A mulher findava por transformar-se em esqueleto, deixando loucos os homens que a seguiam. Acredita-se que a sereia tenha dado origem à lenda da mulher-de-branco, que também ganhou força na ilha na segunda metade do século XX, onde uma mulher vestindo um longo vestido branco supostamente assustava os ilhéus. Não faltaram pessoas que saíam cobertas por lençóis brancos a assustar amigos desinformados, o que só serviu pra alimentar ainda mais a lenda.

Lendas de sereias eram muito comuns entre os navegantes holandeses e a passagem destes homens por Noronha com certeza ajudou a moldar a sereia noronhense.

Também não foram poucos os historiadores a registrar a lenda da “Luz do Morro do Pico”. Errante, as noites viam aparecer uma luz a se locomover no topo do ponto mais alto da ilha. Alguns registros apontam a relatos que a luz se transformara numa mulher que oferecia ouro. Alguns apavorados rejeitavam a riqueza, enquanto outros ficavam ricos pro resto das suas vidas. A semelhanças entre a lenda da luz do Morro do Pico e a da Sereia Alamoa automaticamente remontam os historiadores à mesma origem das estórias.

Luzes, mulheres e até a genitália de um gigante. São muitas as lendas sobre do Morro do Pico.

Muitas histórias reais dão origem a mitos eternos. Foi por conta da condenação de ciganos desordeiros nos idos de 1700 que aparece a figura da “Cigana do Cajueiro”. A história real conta que o número de homens deportados ao Arquipélago fora bem maior que o de mulheres. Uma dessas poucas moças teria se prostituído e dormido com praticamente todos os homens. Após sua morte, muitos dos apaixonados diziam ser perseguidos pela finada cigana que sempre aparecia em frente ao mesmo cajueiro.

Das lendas femininas para a lenda masculina. O “Homem-do-telhado” apavorou a Vila dos Remédios, principal núcleo urbano da ilha na antiguidade, em especial na época do presídio. Registrado pela primeira vez pelo historiador Alfredo Cabral, ainda no século XIX, o homem usava vestimenta de general e pulava homericamente entre os telhados das casas batendo a ponta de sua espada por onde passava, gerando um barulho aterrorizante. Não foram poucos os presos que diziam ter avistado a entidade no topo da fortaleza. Muitos acreditavam ser ali sua “residência”. Alguns historiadores acreditam que lendas deste tipo, especialmente nos séculos passados, eram utilizadas e alimentadas pelas autoridades até como forma de controle da população.

O palácio na Vila dos Remédios também teria seu telhado revirado pelo Homem-do-telhado.

Dos mares da ilha, pescadores e piratas também trouxeram suas estórias. Da pesca surgiu a lenda do Gigante-da-meia-noite, pescador gigante que aparecia na hora zero do dia, na Ponta da Sapata, portando uma quantidade inimaginável de sardinhas em seu samburá, que ao refletir a luz da lua iluminava toda a região.

O Gigante costumava “morar” no local da maior concentração de assombrações da Ilha, a Estrada Velha do Sueste. A “casa” seria o chalé onde os militares passavam veraneio e que em outros tempos virou hospital de doentes em estado grave, sendo suas vítimas sepultadas no quintal. Foi o estopim para o surgimento de diversas outras lendas. Não faltaram relatos de fantasmas a duendes verdes.

Já os tesouros piratas, se somarmos todos que as lendas dizem haver enterrados em Noronha, talvez não exista terra pra tanto baú. Do lendário Francis Drake a velhos ermitões, todos deixaram riquezas incalculáveis nas ilhas do Arquipélago segundo as diversas estórias. Acredite se quiser, muitas pessoas chegaram a pegar um avião rumo a Noronha pra procurar estas raridades. Alguns se diziam guiados por sonhos, outros por “pesquisas” minuciosas e há até aqueles que juram ter encontrado caixas estranhas em locais diversos, enriquecendo por demais o rico e vasto folclore noronhense.

* O Parque Nacional Marinho e a APA Fernando de Noronha estão no livro fotográfico Expedição Pernambuco – O Leão do Norte. Mais informações sobre a Coleção EcoExpedições no menu esquerdo do portal da Panorama Cultural ou no site www.colecaoecoexpedicoes.com.br. Os extras publicados no portal trazem informações e curiosidades das áreas visitadas ao longo do projeto.