Noronha Gastronômica

Por Mitsy Queiroz
Fotos: Luiz Netto

O turismo modificou por completo a vida em Fernando de Noronha*. Ao longo das décadas a Ilha que já foi um presídio político, passou por várias mudanças e foi a partir do final da década de 80, quando deixou de ser território nacional e passou a pertencer ao estado de Pernambuco que a atividade turística começou a se estruturar e desenvolver.

As pousadas, que antes se resumiam a pequenas hospedarias familiares, começaram a tomar ares de requinte e sofisticação e aos poucos surgiram cozinhas e restaurantes dos mais contemporâneos em cada canto da Ilha, fazendo de Noronha um novo pólo gastronômico.

Hoje, além da garantia de presenciar maravilhas da natureza, ir a Fernando de Noronha é também a garantia de comer bem. Mesmo com os preços mais salgados que água do mar, os melhores restaurantes estão constantemente cheios de pessoas dispostas a experimentar iguarias, em especial os tradicionais frutos do mar que fervilham na ilha em moquecas, ensopados, sushis, peixes na folha de bananeira, paellas e pratos típicos locais como o polêmico tubalhau.

Os “festivais gastronômicos”, buffets em que é possível apreciar dezenas de pratos numa mesma noite, têm se tornado tradição em algumas pousadas da Ilha. No mais antigo deles, na Pousada Zé Maria, o turista tem direito a uma apresentação de cada prato e pode apreciar peixes fisgados poucas horas antes do jantar, ceviches com temperos brasileiros, sushis dos mais diversos, a tradicional paella do restaurante, além de pratos ligados à família dos proprietários, com destaque para o arroz de jaca e a farofa de pão velho.

Turistas recebem explicações sobre os pratos no festival gastronômico da Pousada Zé Maria.

Farofa de pão velho e o arroz de jaca no primeiro plano.

 
O Tubalhau

Falar de um prato tipicamente “noronhense” é falar do tubalhau, salga de filés de tubarões, da mesma forma como acontece com o tradicional bacalhau. O prato foi “resgatado” pelo Museu dos Tubarões, localizado na Praia do Porto e hoje o serve em seu restaurante com diversas formas e temperos.

A origem da salga do tubarão na Ilha aconteceu nos períodos remotos, quando o turismo inexistia e a presença do estado era mínima. Alheios às comodidades da modernidade, os ilhéus tiveram que buscar meios de sobrevivência e conserva de alimentos, o que tornou a salga um meio eficaz.

Segundo Leonardo Veras, engenheiro de pesca e curador do Museu dos Tubarões, a carne servida hoje no restaurante do museu não é mais oriunda da captura de animais na ilha, estando esta atividade suspensa no arquipélago por iniciativa própria. Os peixes são pescados na costa continental e beneficiados no Recife, mas utilizando as técnicas tradicionais antes praticadas e desenvolvidas em Fernando de Noronha, no período da caça artesanal.

Um dos pratos de tubalhau servidos no restaurante do Museu dos Tubarões.

Apesar da pesca dos tubarões não ser realizada mais no arquipélago, algumas instituições como o Projeto Tubarões do Brasil, do Instituto Ecológico Aqualung, com sede no Rio de Janeiro, já demonstraram sua indignação com a prática e pelo fato da carne ser servida na Ilha. Atualmente lutam para modificar a legislação brasileira, visando eliminar tanto a pesca legal de tubarões, quanto à prática de finning, nome dado à pesca ilegal para obtenção exclusiva das nadadeiras dos tubarões.

A estimativa do Instituto é que 43% das espécies de tubarões no Brasil já estão ameaçadas de extinção. Em todo mundo cerca de 70 milhões de animais são mortos anualmente.

Apesar das salutares estatísticas do Instituto, que definitivamente servem de alerta, vale ressaltar que a população de tubarões em Fernando de Noronha encontra-se em perfeito equilíbrio, com resultados bastante positivos e sendo a Ilha um exemplo de conservação a ser expandido para outros lugares do planeta.

Ressalta-se também que apesar da legislação brasileira ser frágil na questão da proteção a algumas espécies de tubarões, a mesma é das mais modernas e avançadas para proteção de outras espécies marinhas, como no caso dos cetáceos e mamíferos aquáticos em geral.

*O Parque Nacional Marinho Fernando de Noronha está no livro fotográfico Expedição Pernambuco – O Leão do Norte. Mais informações sobre a Coleção EcoExpedições no menu esquerdo do portal da Panorama Cultural ou no site www.colecaoecoexpedicoes.com.br. Os extras publicados no portal trazem informações e curiosidades das áreas visitadas ao longo do projeto.