Monte Roraima, a última parada

O Monte Roraima era a última parada do nosso projeto Expedição Venezuela e sem dúvidas o que exigiu mais pesquisas e preparação. Recuperar um pouco da antiga forma foi essencial, melhorar o gás pra não se desgastar tanto na subida e nem prejudicar as imagens também. Aproveitei os dois meses antes da viagem pra perder cerca de 5 quilos e voltar um pouco a forma que tinha na época em que competia no Mountain Bike.

Partimos de Recife e aterrissamos em Boa Vista, onde fomos recepcionados pelos nossos amigos e parceiros de longas datas do Ponto de Cultura A Bruxa Tá Solta, Catarina Ribeiro e Raimundo Nonato Chacon. Aquele inesquecível churrasco de tambaqui nos esperava.

Me acompanhavam na caminhada até o topo duas grandes amigas recifenses, Neuma Calixto e Mitsy Queiroz, fotógrafa convidada deste projeto e que empresta todas as imagens deste post.

Hoje a subida ao Monte é extremamente controlada pelo INPARQUES (o IBAMA da Venezuela) e é necessário seguir com guias credenciados na região do Parque Nacional Canaima que circunda o Monte Roraima.

No ano anterior em que fiz a última viagem do projeto à Venezuela, já havia conhecido o Erick e sua família. Ele deixou a Alemanha a algumas décadas pra se casar com uma venezuelana e construir uma bela família e abrir a Backpackers, uma das principais operadoras a operar no Monte Roraima, além da Pousada Los Pinos, onde ficamos. Mantivemos os contatos até fecharmos definitivamente a data de meu retorno para enfim, fechar o projeto Expedição Venezuela com chave de ouro.

De Roraima seguimos a Santa Elena de Uairen, onde o Erick e o Celso, que seria nosso guia no Monte, já nos esperávam. Particularmente gosto muito de Santa Elena e ficar um dia na cidade pra recarregar as baterias da viagem desgastante antes da subida era algo que me tranquilizava

Voltar a comer aquela comida deliciosa da Venezuela nos seus mercados públicos também ajudou a matar a saudade de Santa Elena.

O fim do dia foi de revisão de todos equipamentos, especialmente os fotográficos. Contratamos dois carregadores extras, uma para as cargas das meninas e outro pra meus itens mais pessoais de forma que pudesse ficar mais livre com o equipamento fotográfico. Ao fim da jornada a estratégia teria se confirmado como acertada.

Amanheceu e lá estava a Toyota Land Cruiser (sonho de consumo de muitos off-roaders) do Erick no esperando. Celso chegara com seu ajudante e os dois carregadores que contratamos, todos filhos e sobrinhos deles. Nosso guia e toda sua família  são indígenas pemons e profundos conhecedores do Monte Roraima, com dezenas de subidas no currículo.

Por volta das 09h40 da manhã saímos rumo ao Roraima. O trajeto de carro até o início da caminhada já é um belo cartão de visita, lindas vistas dos tepuys do Canaima.

São aproximadamente duas horas até chegar em Paraitepuy. Chegamos, descarregamos as mochilas. Almoçamos pão com queijo e presunto e o inesquecível suco em pó que nos acompanhou por toda jornada.

Assinamos o livro do INPARQUES, que regulamenta a entrada, deixamos os dados de passaporte, profissão, nacionalidade, nome, quantos dias passaríamos na expedição e assinatura. Feito tudo isso, começamos a caminhar finalmente!

O primeiro dia nos rendeu a travessia de pequenos riachos, um sol escaldante na cabeça e quase 05 horas de caminhada. É o trecho mais plano de todo o roteiro, todavia é o mais descoberto de árvores, já que a vegetação é típica de savana, rasteira.

Captura de Tela 2014-11-01 às 19.48.53As primeiras imagens.

Captura de Tela 2014-11-01 às 19.50.26O Monte Roraima à direita, e o Monte Kukenan, à esquerda.


Captura de Tela 2014-11-01 às 19.41.43Acampamento do Rio Tek, com o Monte Roraima ao fundo.

Captura de Tela 2014-11-01 às 19.51.17Mais imagens de nosso acampamento do primeiro dia.

Captura de Tela 2014-11-01 às 19.52.43Enquanto seguíamos, alguns pemos que abastecem o primeiro acampamento passavam de volta de bicicleta. O trecho do primeiro dia é o único acessível às bikes.

Chegamos ao acampamento que fica às margens do Rio Tek. Os índios que carregavam nossos equipamentos já haviam chegado há tempos e nossas barracas já estavam montadas.

As meninas não tiveram coragem, mas não resisti a um belo banho nas gélidas águas do Tek. Esses banhos de fim de tarde terminaram sendo grandes momentos de confraternização. Neste dia conhecemos um grupo de Venezuelanos e outro de franceses que nos acompanharam em grande parte do trajeto.

No dia seguinte começamos descalços mesmos. Haviam dois rios pra ser atravessados, o já citado Tek e o Rio Kekenan, este com uma correnteza bem mais forte. A partir do segundo dia de caminhada as chuvas não nos deram mais tréguas. Eram ocasionais, não duravam mais que alguns minutos, entretanto eram repetitivas, o tempo fechava e abria com uma velocidade impressionante, mas este segundo dia de caminhada especialmente foi um dos momentos mais chuvosos de toda travessia. 

O acampamento base do segundo dia já seria na base do Monte, mas o visual se escondia por trás de uma névoa forte que teimava em cobrir o Monte. Na verdade o Celso nos armou a surpresa. Não sabíamos que estávamos colados no paredão, apenas quando a neblina se espalhou um pouco, já na manhã seguinte, que tivemos noção de dimensão do local em que estávamos.

Captura de Tela 2014-11-01 às 19.46.13O visual das primeiras horas da manhã.

Captura de Tela 2014-11-01 às 19.54.01Acampamento no segundo dia, no pé do Monte Roraima.

Captura de Tela 2014-11-01 às 19.54.57O grande Celso, nosso guia no Monte Roraima.

O terceiro dia de caminhada foi todo de subida. Praticamente toda a subida é sobre pedras soltas e com limo, por isso muita atenção! As fotos ficavam mais belas a medida que progredíamos. Foi um dia com menos chuva, mas a capa de chuva é sempre um elemento a ter em mãos por aqui, especialmente no Paso de Lágrimas. Por lá não tem escapatória, é como subir uma cachoeira da base até seu topo levando água no rosto o tempo todo.

Captura de Tela 2014-11-01 às 19.48.30Início da subida, o último trecho de mata antes das pedras.

Chegamos ao topo, nada de gritos, o Celso já havia nos alertado que a montanha não gosta dessas coisas e respeitamos as tradições locais. Pra variar nosso “hotel” já estava pronto e nossa comida já estava sendo preparada. Ficamos no acampamento Índio, um charme só. Um buraco no meio das pedras que nos abrigou do vento e chuva. A vista do acampamento índio era para o lindo Kukenán.

Captura de Tela 2014-11-01 às 19.55.43Vista de nosso acampamento para o Kukenan.

Captura de Tela 2014-11-01 às 19.57.03Da porta de nosso acampamento, toda hora era hora de fotografar, pra todos os lados um belo ângulo do Canaima.

Captura de Tela 2014-11-01 às 19.58.13Mais um pouco de nosso acampamento no topo do Monte Roraima.

Captura de Tela 2014-11-01 às 20.06.10Ganhando um mimo dos “vizinhos”.

Nesse dia percebi que já ia ter problemas com algumas peças de roupas, mais especialmente com minhas meias. A falta de sol por longos períodos não me ajudou muito a secar as peças que levava.

Os próximos dias foram de pura diversão no topo do Roraima. Caminhar por aquele bioma é daquelas coisas que levamos pro resto da vida. Inesquecível cada local, cada animal, cada planta cada paisagem fotografada.

Captura de Tela 2014-11-01 às 20.00.22A névoa foi nossa companheira em grande parte do tempo que ficamos no topo do Roraima.

Captura de Tela 2014-11-01 às 20.01.36Nossa primeira manhã no topo, foi assim.

Captura de Tela 2014-11-01 às 20.02.39Celso e Neuma em uma de nossas caminhadas nos dias que ficamos no topo do Monte Roraima.

Em perdi a conta de quantas plantas endêmicas consegui fotografar em todo trajeto. Celso sabia todas decoradas, era uma enciclopédia ambulante. Em muitas nos fez um belo link com as tradições pemons, falando pra que usavam algumas daquelas plantas.

Chamar o Roraima de fantástico é ser redundante, são paisagens que te surpreendem naquela imensidão rochosa negra. O tempo sempre bem instável, continuava a chover sempre, com neblina e poucos momentos de sol, menores ainda os de céu aberto. 

Conseguir boas fotos nas ventanas (janelas) é questão de sorte somente ou de perseverança se você tiver mais tempo. Em alguns locais esperávamos por mais de uma hora para o céu abrir, mas Makunaima muitas vezes não queria conversa conosco! 

Lembro de algo semelhante no ano passado quando fomos até o Salto Angel. A neblina se esvaiu apenas nos últimos instantes por breves 10 minutos que nos permitiram fotos fantásticas. Aqui no Roraima conseguimos melhores vistas do lado da Guiana que do lado venezuelano.

Captura de Tela 2014-11-01 às 20.03.29Os mirantes por muitas vezes cobertos nos exigiam paciência até as nuvens irem embor

Arrumamos tempo também de ir até as jacuzzis onde novamente nosso caminho cruzou com o dos grupos de venezuelanos e franceses. As meninas mais uma vez não tiveram coragem de entrar na água, mas eu fiz questão de entrar de cabeça .  Lá almoçamos e o tempo ruim nos perseguia, caiu um baita temporal bem na hora da comida. Almoçar debaixo de uma capa de chuva é uma experiência que fazia tempo que não repetia. 

Ainda conhecemos o vale dos cristais, quedas d’água e outras paisagens. Caminhada tranquila, sem nenhuma cobrança do corpo.
A gente só se dar conta que vai acabar quando começamos a maratona de volta. Quanto “soa o apito” e o guia informa que é hora de começar a descer. Ainda teríamos dois dias de retorno, mas já ficava uma saudade incontrolável.

Acordamos e saímos muito cedo, bem mais cedo que nos outros, em virtude do primeiro dia da descida ser bem longo. A estimativa é que caminharíamos por 10 horas. Faríamos em um único dia o mesmo trecho que levamos dois durante na subida.

A descida costuma exigir menos do corpo, mas exige muito dos joelhos e minha amiga Mitsy terminou se machucando, mas apesar disso, seguimos sem maiores contratempos, apenas num ritmo mais lento pra não judiar excessivamente dos joelhos dela.

É tanta coisa pra falar do Roraima, que quase não falamos de fotografia. Pois bem, na descida pegamos a melhor janela de tempo. As nuvens ficaram mais esparsas e as fotos foram belíssimas. Tenho certeza que o visual único ajudou Mitsy a superar as dores.


lmoçamos rapidamente na base do Monte, no mesmo acampamentos onde dormimos outrora e de lá partimos pro acampamento do Rio Tek. Me preocupava a travessia dos Rios Tek e Kukenan com Mitsy naquela situação, mas o Celso (e sua incrível habilidade de andar sob àquelas pedras úmidas) optou por carrega-la nas costas nestes trechos. Eu me encarreguei de levar sua mochila e demais equipamentos. Não deu pra pensar muito em foto nesta hora, mas confesso que quando cruzamos o Rio Kukenan, o visual com o Roraima ao fundo estava particularmente belo.

Captura de Tela 2014-11-01 às 20.07.08O trajeto de descida tivemos tempo bom a maior parte do tempo.

Tive um pouco de receio também na hora de cruzar o Rio. Tanta chuva no Roraima e na cabeceira do Kukenan fez o leito ficar extremamente caudaloso. Bem mais forte que quando o cruzamos na ida. Chegamos a conversar se não seria melhor acampar ali mesmo e atravessar só no dia seguinte, mas após debater um pouco, arriscamos e conseguimos cruzar sem maiores contratempos. Terminou sendo ótimo, pois Mitsy ficaria com um trecho mais curto para o dia seguinte. Uma noite de antiflamatórios a acompanhou.

Só nesta nossa última noite, que me dei conta da quantidade de picadas de mosquito, os famosos puri-puri, que já cobriam meu corpo. Tava tão anestesiado com o Monte que sequer percebi as “tatuagens” que o Canaima ia me deixando. Tomei muito cuidado com os repelentes antes das caminhadas, mas bastou descuidar num dia e pronto! 

O trajeto não teve tantos animais, encontrei com uma cascavel na ida, belas águias, anfíbios e outras aves diversas. No retorno, um belo macaco cruzou nosso caminho. Corri como um louco pelo meio da mata, me lembrava nosso bugio, mas não consegui confirmar qual era a espécie. O cacei por cerca de 30 minutos dentro de um fragmento um pouco mais alto de mata nas margens de um riacho. O bicho foi esperto, fugiu na vegetação rasteira da savana lá pra dentro da mata fechada e se escondeu muito bem. Não tive sucesso nesta última caçada.

O Roraima se despedia de nós com o que mais nos ofereceu. Chuva, muita chuva. O trajeto até a entrada do Parque no último dia foi um dos mais molhados, em alguns momentos não caminhávamos, patinávamos, mas a alegria era tanta que nem reclamamos. Tudo era diversão.

Chegamos cansados, claro, mas a estratégia dos carregadores em dose dupla foi ótimo. Fiquei bem livre durante todo o trajeto pra incursionar nos trechos de mata mais alta e voltar pra trilha em seguida. O caminho é uma trilha única, sem bifurcações, não tem como se perder. Celso, sabedor que estávamos a trabalho, não se preocupou muito com minhas “sumidas” e sempre que possível me acompanhava na hora em que saía da trilha. 

Isso do ponto de vista do trabalho foi essencial, pois o fluxo turístico no trajeto do monte termina afastando um pouco a fauna local.

Nosso almoço de despedida foi regado a uma coisa que eu sonhava beber há alguns dias. Coca-cola! Acompanhando um belo galeto venezuelano, ou como eles chamam por aqui, pollo!

De lá, a Land Cruiser do Erick chegou pra nos buscar e seguimos por aproximadamente 1 hora até chegar de volta a Santa Elena. A família de nosso amigo alemão nos aguardava em sua pousada, acolhedora e sempre bem frequentada, aconselho a todos a hospedagem por lá.

Por fim, não há muito palavras pra descrever a experiência, a fase de produção do Expedição Venezuela chegara ao fim. Era hora de comemorar e se preparar pro trabalhão que teríamos pela frente. Milhares de imagens pra selecionar, tratar e afins.

Aos meus amigos que nos acompanharam neste trajeto, Mitsy, Neuma, Celso e seus filhos, meu muito obrigado por terem me proporcionado alguns dos melhores dias da minha vida. À Mitsy em especial, o agradecimento pelas fotos deste post.

Nos vemos em breve, a Coleção EcoExpedições está apenas no começo de uma longa jornada!

 POSTADO POR LUIZ NETTO