O Araripe do Piauí

O Araripe é um pedaço encantado do Brasil. Retalho do Sertão que nos cedeu expoentes de nossa cultura e de nossa história como o Velho Januário e Luiz Gonzaga, o Padre Cícero, a família Câncio, a família Alencar, Raimundo Jacó e tantos outros que beberam dessa fonte sertaneja.

Por Expedição Pernambuco estive aqui em duas oportunidades. A Chapada do Araripe compõe a maior APA nordestina e abriga terras em Pernambuco e no Ceará, além de um pequeno pedaço do Piauí

Quando visitei a região, especialmente os arredores de Araripina e Exu, que usei como base para o livro pernambucano, já havia me enchido de vontade de passar uma temporada fotográfica no lado cearense da APA, não obstante, o maior deles e também o mais bem conservado, além de contar com uma bela Floresta Nacional, a Apodi-Araripe.

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Área rural do Araripe piauiense, realidade cantada em verso e prosa por diversos artistas.        

Quis o destino que eu tivesse que esperar um pouco mais pra pousar em terras cearenses. O Piauí tomou a frente nas produções da EcoExpedições e era hora e momento de conhecer a menor porção da Chapada do Araripe, a que comporta alguns poucos municípios próximos à divisa com o meu Pernambuco.

As cidades piauienses do Araripe são todas pequenas, o que nos exigiu um pouco de trabalho prévio pra escolher a melhor base pra nossa investida. Dúvida esta que se esvaiu com o imenso apoio que nos foi dado pela Prefeitura de Francisco Macedo.

Fomos recebidos na cidade pelo próprio prefeito, o Senhor Cristóvão Alencar e seu Secretário, o Genésio, responsável por estruturar toda nossa logística local e o Murilo, assessor da comunicação da Prefeitura e que nos passou muitas dicas legais de onde buscar informações sobre a APA. Mesmo sendo um sábado, prefeito e equipe estavam num ritmo forte de trabalho e fizeram questão de parar pra nos passar ricos detalhes do que iríamos encontrar no município e nas cidades vizinhas.

A APA é uma região muito procurada pelas mineradoras que buscam gipsita e outros minérios, sendo uma das lavras nos arredores de Francisco Macedo, de posição estratégica e cercada de montanhas altas, a que nos proporcionou as melhores imagens panorâmicas do Araripe.

Afora estes pontos da mineradora, a própria área urbana de Francisco Macedo também tem um belo mirante, acessível por uma escadaria, onde é possível ver toda a cidade, pequena, mas bela e aconchegante.

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Mirante em Francisco Macedo.

A prefeitura nos disponibilizou o Sinvaldo, profundo conhecedor do local e que nos guiou pelos dias que se seguiram, mas a grande surpresa do primeiro dia ainda estava por vir na parte da noite. Ao voltar para a pousada que a prefeitura nos disponibilizou, a dona do estabelecimento nos informara que a polícia havia feita uma visita de cortesia, querendo saber “quem eram os dois forasteiros que estavam numa caminhonete preta rodando pela cidade”, que obviamente foram prontamente informados do que estávamos a buscar em Francisco Macedo pelo staff local da hospedaria. Cidade pequena, com cerca de 3 mil habitantes apenas, havíamos virado a notícia do dia por lá, e não sabíamos deste sucesso todo.

No dia seguinte fomos levados à Pedra Pintada, uma bela pintura rupestre em local isolado, onde é possível também avistar várias aves da caatinga como o casaca-de-couro, o corrupião e diversos tipos de beija-flores.

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Trecho da Pedra Pintada.

Contamos também com suporte de vários fazendeiros locais que nos abriram as portas de suas terras que apresentavam bom grau de preservação. Por ser uma APA, e por conseguinte uma área de uso sustentável e não de proteção integral, a Chapada do Araripe depende muito da consciência de preservação dos grandes proprietários de terra.

Chegamos inclusive a escutar um bando de queixada numa dessas fazendas, mas a vegetação densa e agressiva da caatinga nos impediram boas fotos, o que obviamente não diminuiu os resultados que conseguimos, até porque com a bela luz do sertão brasileiro é impossível não conseguir boas imagens da “selva branca”.

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Chico no interior de uma das fazendas que liberaram nossa entrada (foto: instagram @luiznetto777).

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Trecho do Araripe no interior de uma das fazendas percorridas (foto: instagram @luiznetto777).

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Os poucos bolsões de água existente no período de estiagem facilitaram com que achássemos algumas espécies em locais específicos.

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Tocaia e paciência, a virtude necessária ao fotógrafo de natureza.

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Em meio a caatinga, a “selva branca”.

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Na caatinga, os riachos secos se transformam em ótimas trilhas para driblar a vegetação densa e agressiva.

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Chico em tocaia, próximo a uma grande barragem existente em Francisco Macedo.

A região estava seca, o que facilitou com que encontrássemos alguns bichos nos bolsões de água e açudes locais. Mais uma vez, por envolver várias cidades, o trabalho na APA foi um trabalho muito dentro do automóvel, com algumas inserções nas matas locais de algumas fazendas, visitamos um pouco cada uma das cidades piauienses que compõe a unidade de conservação, gastando um pouco mais de tempo em Francisco Macedo e em Marcolândia, última cidade antes da divisa com Pernambuco.

O céu límpido e o clima bom que encontramos facilitaram muito o trabalho, além de permitir belíssimas imagens noturnas. Novamente dentro da área de uma mineradora, próxima a uma barragem, conseguimos verdadeiras pinturas do céu sertanejo e sua via láctea.

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A via láctea de Chico Rasta.

Pelas diminutas dimensões do lado piauiense da APA, e no livro apenas o lado do Piauí entrará no projeto, passamos poucos dias no Sertão do Araripe, mas com a certeza que foram ricos dias que agregaram muito valor ao nosso projeto.

Daqui, começamos a subir, rumo à APA da Serra da Ibiapaba e ao Cânion do Rio Poty, mas isso já são cenas dos próximos capítulos. Abraços e até lá.

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 27 DE JANEIRO DE 2016