O canto da Alamoa

É difícil falar de Fernando de Noronha sem cair no lugar comum. Provavelmente o lugar mais fotografado do Brasil e também um dos mais fotografados em nosso projeto, por mais que tenhamos relutado para tanto.

Desde que surgiu a ideia da produção do livro já tínhamos decidido que Noronha teria seu espaço na obra, mas não iria ser a protagonista, visto que o público pernambucano precisava conhecer as outras importantes unidades de conservação, completamente desconhecidas.

Noronha era “clichê” dizíamos nós, e a culpa sempre foi da própria ilha, moldada num dia de enorme inspiração da Divina Providência. Durante o projeto percorremos cada palmo do arquipélago , todas as praias, até as longínquas e de difícil acesso do Capim-Açu, quase todas as ilhas, as fotos estavam mágicas, teríamos que fazer um corte violento, pois tínhamos que ceder muito espaço às outras unidades e parques, pois “Noronha era clichê”.

Mas não contávamos com a força magnética que existe por estas bandas, ela nos chama, a lenda do canto da Alamoa, sereia que hipnotizava antigos habitantes, parece algo cada vez mais real quando vira e mexe você cai de novo na Ilha Mágica. Não tínhamos mais programadas visitas no projeto pra cá, por sinal, Noronha, que era “clichê”, já era o local mais visitado por nossa equipe do projeto, mas você pisca o olho e lá surge nova oportunidade por aqui e novos projetos. A Alamoa me hipnotizara novamente.

Vim desta vez pra outro projeto, aliás quantas vezes isso aconteceu nessa jornada, oficialmente fizemos uma visita, extra-oficialmente se foram mais de meia-dúzia. Uma melhor que outra. As notícias que vinham dos meus colegas locais era de muita chuva, mar de ressaca, água turva.

Notícias assim são sempre um tiro no coração. Pensar em Noronha é pensar em foto sub, pensar foto sub é pensar em quilos e quilos de equipamentos pra ser encaixotado, configurado, lubrificado, transportado, pagar excesso de bagagem no avião, entre tantos outros trabalhos, pra de repente chegar por lá e nada poder fazer caso a água esteja turva, até porque se tem uma coisa que a gente aprende na vida é que contra a força da mãe natureza não dá pra bater de frente.

Na dúvida, estratégia de contingência, não levei tudo, mas levei ao menos a caixa-estanque, vai que me sobrava um tempo e vai que o sol sorria. O resto eu “desenrolava” por lá. Uma maneira de não ter tanto trabalho e conseguir fazer alguma coisa numa eventual janela de tempo bom.

Terminadas as outras fotos que por aqui vim fazer, abre-se o céu. Dos meus colegas mergulhadores vem a notícia que a água está “boa”. O que nesse período do ano quer dizer “ótimo”.

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Um dos primeiros moradores a nos dar as boas vindas.

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Noronha com águas claras mesmo no inverno 

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O Porto de Santo Antônio permite belas fotos partindo da areia, sem necessitar de sistema de respiração autônomo. 

Corre pra pousada, monta tudo, pra onde vamos? Autônomo ou no pulmão? Pulmão! E pra achar um dupla? Meu colega Pablito que nunca havia mergulhado na vida resolve ir comigo. Alugamos alguns equipamentos, montamos no buggy e partimos. Só Noronha tem um naufrágio apto pra alguém que nunca fez sequer apneia na vida. Fomos pro Stathatos.

O Eleni Stathatos está a apenas 50 metros da praia e sua facilidade de acesso termina por menosprezá-lo diante da comunidade do mergulho autônomo mais experiente.

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O Stathatos sempre cheio de vida. 

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Na maré baixa o Stathatos fica a poucos metros de profundidade. 

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A poucos metros da lâmina d’água, o Stathatos permite o mergulho em apneia com facilidade  ou mergulho autônomo com tempo de fundo bem maior. 

Eu particularmente adoro o Stathatos. Sair nadando a partir da areia do mar e em menos de 50 metros chegar num naufrágio de grandes proporções é algo que só Noronha nos propõe. Além dos diversos itens interessantes a serem fotografados, com o caldeira, torres, entre outros, o Stathatos possui também uma vida marinha pulsante e plural.

Localizado perto do Porto de Santo Antônio (o navio afundou ao calcular mal a profundidade pra ancorar no local) e estando no Porto, sabemos que vamos ver várias tartarugas-marinhas. A visibilidade da água tava das melhores pra esse período do ano, aliás demos uma sorte parecida ao que encontramos na Costa dos Corais, belas fotos numa época não tão propícia.

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“Caçar” tartarugas no Porto de Santo Antônio é sempre uma grande diversão. 

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As donas da Baía de Santo Antônio. 

A Alamoa não apareceu desta vez, mas as tartarugas estavam aos montes. moreias e até barracudas. Pablito adorou, aliás, todas as fotos deste post são dele e de sua GoPro. Como sempre, fico com um desejo incontrolável de postar algumas fotos do trabalho de nossa câmera por aqui, mas falta pouco, vamos guardar pro livro. Foram mais dois dias mergulhando na ilha, dois ótimos dias.

Noronha se foi, só que desta vez não abro mais a boca pra dizer que não voltarei mais aqui pelo Expedição Pernambuco. Vai que a Alamoa resolve cantar novamente.

 POSTADO POR LUIZ NETTO EM 04 DE JULHO DE 2015