O FestCine Indígena de Águas Belas

Os indígenas Fulni-ô conseguiram o que nenhuma outra etnia nordestina conseguiu: manter seu idioma nativo, o Yaathe, hoje trabalhado e ensinado nas escolas da Aldeia indígena. Tradições seculares do campo da religião, com a mantenabilidade da Vila do Ouricuri, onde realiza-se os rituais (não abertos aos não-índios), e outras tradições como músicas típicas, a pintura corporal, muitos dos adereços e artesanatos são algumas das conquistas dos índios de Águas Belas ao longo deste último século.

A preservação de tantos traços da identidade Fulni-ô, entretanto, é uma ilha na história indigenista nordestina e até mesmo na brasileira. O que vemos, na prática, é a perda da identidade, a aculturação, a assimilação cultural de itens alheios às tradições, como as vestimentas e a religião do colonizador, a perda dos idiomas nativos, entre outros.

Apesar de toda esta luta constante para preservação da cultura e das tradições Fulni-ô, especialmente ao longo do último século, as comunidades sofreram uma forte influência do homem branco, que trouxe avanços, mas também muitos problemas, que culminou na morte de idiomas inteiros, quando não, na eliminação étnica do próprio povo.

No meio da nova realidade indígena a inclusão dos povos tradicionais nas políticas públicas culturais se tornou essencial tanto na luta da preservação da identidade cultural, quanto no desenvolvimento e formação artística de muitos dos artistas indígenas.

desafio

Cena do filme “O Desafio Fulni-ô”.

Na Aldeia Fulni-ô, no município pernambucano de Águas Belas, a produção cultural pulula em diversas vertentes, com índios com um histórico de vida circense, outra grande quantidade dedicada ao artesanato, especialmente à folha do Ouricuri, palmeira local largamente utilizada no passado até mesmo na construção das casas e hoje utilizada na confecção de utensílios diversos.

Nos últimos anos ganhou força a produção cinematográfica Fulni-ô, impulsionada por coletivos locais que usam o cinema como ferramenta de preservação de seus idiomas.

Para dar vazão a esta produção cinematográfica, não só a local, mas toda produção do cinema indígena brasileiro, o Ponto de Cultura Fulni-ô em parceria com a Panorama Cultural criou o Festival de Cinema Indígena de Águas Belas. O evento é único na história indígena pernambucana, o primeiro festival de cinema formado por índios, para índios e para a cultura tradicional e ancestral brasileira, uma ferramenta que irá impulsionar a preservação e a identidade da ancestralidade brasileira, valorizando a interrelação e integração entre os povos, congregando não só comunidades indígenas de diversas regiões, bem como não-índios que estejam trabalhando com a temática indígena na produção cinematográfica, transformando-se, portanto, numa ferramenta de transformação e desenvolvimento social pelo cinema e audiovisual de uma maneira geral.

Por falar em “integração”, Águas Belas localiza-se numa região estratégica, a menos de 100km da terra indígena dos Kapina-wá, no município vizinho de Buíque e à mesma distância dos Pankararu, no município de Petrolândia e dos Xukuru, em Pesqueira. Num raio de menos de 200km, estão os Truká, em Cabrobó, os Pipipã, Pankará e Kambiwá, em Floresta, os Atikum de Belém do São Francisco, dentre outros como os Tuxá e Pankaiuká, que também habitam o sertão pernambucano. Some-se a isso alguns quilombos e comunidades tradicionais como o Quilombo do Livramento em Triunfo, o Quilombo de  Conceição das Crioulas em Salgueiro, os povos do Raso da Catarina, dentre outros.

Por suas características que transcendem o conceito artístico, envolvendo também inclusão, formação, respeito, a antropologia, a etnografia, dentre outros conceitos, o Festival de Cinema Indígena de Águas Belas vem pra ficar, difundir e fomentar nossa cultura tradicional.