Palmares, a floresta urbana

Cruzar a Ibiapaba, desta vez no sentido sul-norte, foi uma atração à parte em Expedição Piauí. Quando saímos de Buriti, optamos por seguir por um trecho paralelo à rodovia, em estrada de barro, pra visitar áreas mais isoladas da APA e ao mesmo tempo prosseguir rumo à parte norte da unidade de conservação.

Foi um translado muito rico, recheado de belas fotos e paradas estratégicas em determinados locais. Levamos cerca de 5 horas para chegar à capital do Piauí, a sempre calorosa, em todos os sentidos, Teresina, cidade que goza hoje de grande desenvolvimento econômico, algo que salta aos olhos de quem, como eu, esteve por aqui anos atrás e compara com a situação atual da sua região metropolitana.

Apesar de termos pousado por um dia na capital para tomar um “banho de civilização”, algo que não gostamos, mas que se faz necessário em determinados momentos, especialmente quando precisamos fazer algumas compras e algumas manutenções em equipamentos, como no nosso flash que havia parado de dar sinais de vida, seguimos já em seguida para a cidade vizinha de Altos, sede da Floresta Nacional de Palmares, área de preservação que protege o maior bolsão verde dos arredores de Teresina.

Localizada vizinha a um presídio, a FLONA é utilizada vez ou outra por fugitivos da unidade carcerária em suas respectivas rotas de fuga, mas não era bem esse tipo de “fauna” que estávamos atrás. Fomos recebidos por Lucas Gaspar, filho de Seu Gaspar, funcionário responsável pela unidade.

O Lucas nos foi dos guias mais eficientes em toda esta jornada.

A proximidade com Teresina (menos de meia hora para o centro da cidade), nos fez ter o refresco de poder voltar a um confortável hotel à noite, mas o bom estado de preservação da Floresta nos fez por vezes esquecer que estávamos perto de uma das maiores cidades do nordeste brasileiro.

Com vegetação alta e densa, Palmares representa um bom substrato em recuperação deste trecho piauiense, que apesar de sua distância curta à capital, abriga uma gama de espécies que nos renderam cliques de bugios, arapaçus, uma bela jibóia, entre outros.

Lucas era um profundo conhecedor de cada palmo da FLONA e nos guiou com maestria pelas estreitas trilhas do local. A vegetação, fechada numa área quase que totalmente plana, não permitiu imagens panorâmicas gerais, mas mostraram um belo Piauí “escondido” e bem preservado debaixo da asa de Teresina, com árvores de grande porte, onde o “som da floresta” sobrepunha o barulho ensurdecedor dos carros que rasgavam a rodovia vizinha.

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Chico no coração da Flona (foto: Vinícius França).

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Chico no coração da Flona (foto: Vinícius França).

Eu particularmente tenho um nobre sentimentos pelas chamadas “florestas urbanas”. Palmares me lembrou muito o Parque Estadual Dois Irmãos, sem dúvidas, um dos lugares que mais visitei em minha vida e que teve local de destaque em Expedição Pernambuco. Locais assim servem pra mostrar à sociedade que um país preservado está mais perto que imaginamos, além de serem ótimos para que crianças e adolescentes tenham o primeiro contato com um ambiente mais natural.

Visitar Dois Irmãos com frequência na minha infância foi fundamental pra hoje me dedicar a trabalhos como a EcoExpedições e me ajudou sobremaneira a moldar uma visão mais positiva sobre a preservação ambiental em nosso país. O mesmo vale pra relação entre Palmares e os piauienses.

Há 5 anos Seu Gaspar, pai do Lucas, desenvolve um trabalho de educaçao ambiental nas comunidades vizinhas e já formou vários meninos no curso de condutor-mirim, além de envolve-los todos os sábados em aulas de educação física, capoeira, música, entre outros. A FLONA goza de boa estrutura, com vigilância 24 horas e boas casas e apoio, que aliadas à sua posição geográfica privilegiada e próxima a um grande centro urbano, faz dela um ótimo local para pesquisas.

Em nossa passagem por Palmares (e nos constantes retornos à Teresina) fomos convidados por uma série de veículos de comunicação da imprensa local para falar do projeto. Passamos por afiliadas da TV Brasil, SBT, pela TV Meio Norte, algumas rádios e sites de relevância. Também geramos boas consequências no meio mais técnico, especialmente da ornitologia, uma vez que o local era pouco procurado para o birdwatching, e já há a procura de colegas da área buscando informações de Palmares, sobre as espécies encontradas, entre outros. O próprio Lucas já entrou para o wikiaves e vem postando algumas raridades ornitológicas de Palmares em sua conta.

Após tanta “pauleira” no sudoeste e no sertão piauiense, o “refresco” de Palmares nos veio a calhar. Agora partimos de volta à Ibiapaba, desta vez sua zona norte. Seguimos a fazendas parceiras na cidade de Caxingó, que serão nossa base para explorar mais uma vez esta rica UC piauiense.

 POSTADO POR LUIZ NETTO EM 26 DE FEVEREIRO DE 2016