Parnaíba, a última parada

Se tem um lugar fora de Recife que eu me sinto em casa, esse lugar é Parnaíba, cidade que é porta de entrada para as duas últimas unidades de conservação a serem visitadas em Expedição Piauí: a Reserva Extrativista do Delta do Parnaíba e a APA do Delta do Parnaíba. 

Já vim pra cá três vezes, tanto a trabalho quanto a passeio, com direito a uma vinda expressa de 1300km num único dia em que sai de Recife de 5 da manhã e às 22 horas estava jantando no Candeeiro, não por acaso, bar que meu parceiro Chico Rasta mantém na cidade e daqueles lugares que você senta e não tem vontade voltar pra casa.

O que vale é que agora a vinda pra Parnaíba não foi mais tão longa. De Buriti, onde fotografamos os macacos-da-noite, pro litoral piauiense foi pouco mais de uma hora e lá estávamos de volta ao maior delta do Atlântico Sul, local que todo brasileiro deveria conhecer, mas que ainda continua sem muito destaque nos grandes guias turísticos do país.

Chico nasceu e vive em Parnaíba, a “capital do Delta” e que leva o nome do maior rio genuinamente nordestino. Há tempos trabalha junto a CIA, abreviação de Comissão Ilha Ativa, ONG com larga atuação na região e que trabalhava com destaque na preservação das tartarugas-marinhas que apareciam no litoral piauiense e mais recentemente começaram um grande trabalho junto a pescadores do Delta, o projeto Pesca Solidária, do Programa Petrobras Socioambiental. Nem é preciso dizer que trabalhando tanto tempo em tão belos projetos e vivendo por tanto tempo em lugar tão belo como Parnaíba, Chico possui talvez o maior banco de imagens sobre este lado do Brasil em todo o mundo.

Afora isso, todas minhas viagens anteriores a Expedição Piauí foram fotograficamente muito proveitosas, levando pra casa grandes registros deste paradisíaco pedaço do Nordeste. Desta feita, visitar novamente o delta seria dessa vez  pra tentar buscar aquele registro mais difícil, sem dúvidas tentar registrar a vida sub-aquática e quem sabe levar uma foto sub de um peixe-boi pra casa.

Contamos com o valoroso apoio do Projeto Pesca Solidária que nos embarcou em várias de suas saídas de monitoramento pela foz dos rios Timonha e Ubatuba. A área, como de se esperar, é riquíssima em biodiversidade e nos rendeu belas imagens de aves marinhas, pelágicas, caranguejos, entre outros. Tive o prazer de conhecer ao longo destes dias os biólogos que nos acompanharam nestas jornadas: Valdemar, Lili, Nathália, Kesley e Nara, todos integrantes do projeto.

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Com os biólogos do Pesca Solidária.

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Equipe do Pesca Solidária em ação.

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Pescadores na divisa dos estados entre Ceará e Piauí contam com suporte do Pesca Solidária.

Embaixo d´água a dificuldade já esperada da baixa visibilidade, especialmente na região do estuário. Na maioria dos locais que mergulhamos não conseguimos passar dos 2 metros de visibilidade o que não nos impediu de conseguir pelas imagens de corais, estrelas-do-mar, berçários de peixes, entre outros. O nosso maior desejo, o peixe-boi, apareceu diversas vezes, mas se engana quem está acostumado aos animais libertos do Projeto Peixe-boi em Pernambuco, que estes animais sejam lentos e acostumados ao trato com o ser humano.

O Delta do Parnaíba, em especial na área de sua APA mais a leste, na divisa com o Ceará, congrega a maior população de peixe-boi do Brasil. Selvagens, nadam a velocidades impossíveis de serem acompanhadas até mesmo pelos mergulhadores mais experientes quando se veem ameaçados ou avistam uma embarcação.

Essa fuga quase que automática quando avistado somado com a baixa visibilidade do local, tornou a foto sub de nosso amigo marinho algo impossível, ao menos para a época do ano em que estávamos, entretanto, foram tantos exemplares que apareceram no nosso horizonte, que conseguimos belas imagens do bicho fora d´água.

Ainda me aventurei nos currais que ficam mais nas áreas externas e possuem uma visibilidade um pouco melhor, mas segundo o pessoal local, não tão boa quanto os de Bitupitá, praia cearense que compõe a APA do Delta. Por estar no Ceará, Bitupitá ficará para o futuro Expedição Ceará, que eu espero que não tarde.

Nosso foco na área piauiense do delta, tanto na APA quanto na Reserva Extrativista, continuou nos dias seguintes. Na RESEX eu já havia levado pra casa nas viagens antigas fotos de jacaré, jiboia, macaco-prego, bugios, entre outros, e tivemos o prazer de levar pra casa praticamente foto de tudo isso novamente. 

O delta vai muito além da área do Piauí, tanto a RESEX quanto a APA invadem o litoral maranhense. No caso da APA, como falamos, envolve também um pedaço do Ceará e mistura a beleza de manguezais, com praias paradisíacas, dunas, Mata Atlântica, aliado a espetáculos da natureza como a revoada de guarás da Ilha do Caju, no lado maranhense, e o sempre espetacular pôr-do-sol das Dunas do Portinho. É destino obrigatório para qualquer brasileiro, daqueles lugares que já tive a oportunidade de visitar em 4 oportunidade e não me canso de ir novamente.

Voltar pra Parnaíba é algo que está sempre nos meus planos, inclusive planejamos vir lançar o livro aqui na cidade, tão logo ele esteja finalizado. Fechar os trabalhos de campo aqui também tem um simbolismo muito forte, pois o Delta foi a primeira UC piauiense que tive a honra de fotografar no passado. 

Fechamos assim um ciclo inesquecível, uma passagem rica que nos mostrou um dos estados mais ricos em biodiversidade do Brasil, nos enveredou por rios e praias, Mata Atlântica, caatinga e cerrado, além do mais importante: fizemos inúmeras e importantes amizades, pessoas maravilhosas que cruzaram nossos caminhos e abriram as portas de suas casas por mais simples que fossem, nos mostraram a beleza do Piauí de forma radiante, sabendo que estavam participando de algo importante.

Enfim, não vamos escrever esse último post deste primeiro tour de forma saudosa. Alguns locais do estado ainda serão visitados de forma pontuais, em busca “daquela” foto “daquele jeito” que ainda não foi conseguida, mas de fato encerrar o primeiro giro por 100% das UC´s previstas, já passa uma ideia que as coisas estão se encaminhando para o fim.

Em breve, algumas notícias de nosso segundo giro. Fiquem atentos ao site da Coleção EcoExpedições (www.colecaoecoexpedicoes.com.br) pois alguns volumes serão lançados ainda este ano.

Um forte abraço e até a próxima!

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 25 DE MARÇO DE 2016