Quixadá, a primeira parada

O cartão de visitas que o Ceará tinha a nos mostrar seria o Monumento Natural dos Monólitos de Quixadá, na região central do estado, local de rara beleza a qual já havia planejado visitar em diversas oportunidades e por motivos diversos sempre tinha que terminar adiando.

No estudo prévio da produção do projeto, zoneamos as UC´s cearenses pela proximidade uma das outras, o que deixou algumas unidades centrais um tanto isoladas, como era o caso dos Monólitos e da Estação Ecológica do Castanhão.

O Chico Rasta viria de Parnaíba juntamente com o Vinícius, que vem sendo nosso assistente em toda essa empreitada. Nesta fase teria também a companhia de minha esposa Millene, que sempre que entra de férias me acompanha nas selvas da vida. Quixadá estava a exato meio caminho de Recife e Parnaíba, cerca de 8 horas de viagem pra cada um de nós, e seria nosso ponto de encontro, nosso primeiro ponto de encontro de dezenas que estão por vir.

Saímos cedo de Recife, paramos pra conversar e almoçar com alguns amigos do Rio Grande do Norte. Chico fizera o mesmo com colegas passarinheiros de Sobral. Chegamos em Quixadá por volta das 19 horas, uma hora antes da ala piauiense de nossa equipe.

Na ocasião, já havíamos previamente contatado o Idson Ricart, um colega do Chico de Wikiaves. Eu já falei isso em outras oportunidades, mas se fosse pra definir o que há de mais valioso nesses caminhos da EcoExpedições, são os amigos que vamos fazendo ao longo de toda essa trajetória. Nunca havíamos conhecido o Idson pessoalmente, mas nem precisava, nos ajudou de maneira única na pré-produção e na produção de nossa passagem por sua cidade.

Nosso quartel general nos monólitos foi o Hotel Fazenda Magé, escolhido por sua localização estratégica em meio a muitos dos rochedos que circulam a zona rural de Quixadá, mas um pouco mais afastado do centro, o que nos permitia escapar um pouco das luzes urbanas nos trabalhos noturnos, mas próximo o suficiente do município pra resolvermos questões logísticas.

Começaríamos o trabalho cedo, como de costume, antes dos primeiros raios de sol. Nossos primeiros passos foram nos arredores da própria Fazenda. A maioria dos monólitos encontram-se em zona rural da cidade, mas alguns estão praticamente dentro da área urbana. Nos arredores da Magé há alguns imponentes, sendo possível encontrar algumas aves mais raras nas primeiras horas da manhã.

Na Fazenda fomos recepcionados pelo Fábio, não era nenhum funcionário e sim um cãozinho filho de uma vira-lata da fazenda, que começava a se libertar das asas da mãe. O nome “oficial” não sabemos, assim o batizamos em homenagem a um amigo nosso que não pôde estar presente em Quixadá conosco. Pro Fábio de Quixadá não tinha tempo ruim, das primeiras horas da madrugada em que chegamos à Magé, ao sol do meio dia, onde estávamos ele vinha junto, ligado nos 220V, sua energia não acabava nunca.

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Fábio nos seguindo pelos Monólitos da Fazenda Magé.

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Fábio, o mais novo membro da equipe, começava a se libertar da dependência da mãe.

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Fábio e seus amiguinhos no sopé da Fazenda Magé (foto: instagram @luiznetto777).

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Momentos assim foram extremamente raros (foto: instagram @luiznetto777).

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Início dos trabalhos (foto: instagram @chicorasta).

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Chico, nos primeiros dias de trabalho.

O Monumento Natural dos Monólitos de Quixadá não é um local pra se encontrar grandes exemplares da fauna cearense com facilidade, é uma área bem ocupada pelo homem, mesmo a zona rural, mas a região é rica em exemplares da avifauna, incluindo animais maiores como a graça-tricolor, o pato-do-mato e alguns marrecos de espécies diversas.

A grande atração finda por ser mesmo as belíssimas paisagens de Quixadá. Após o tour pela Magé, Idson nos levaria pra rodar bastante pelos arredores do município. Como de costume, aproveitamos o primeiro dia pra dar este long run, até como forma de ter uma melhor ideia geral do que vamos encontrar e planejar melhor os próximos dias.

E foi justamente nestas idas e vindas de uma pedra para outra que acontece o imprevisto dos imprevistos. Mal havíamos começado o dia, seguíamos distante cerca de 5km do centro da cidade, por uma estrada vicinal, cruzamos por uma viatura da Polícia Militar do Ceará.

Chico vinha na caçamba, com a câmera no pescoço. Como viam apenas a corda da câmera, foi o suficiente pra acharem que em seu colo repousava um armamento pesado. Nós, de inocentes, não sabíamos que esta configuração, com uma pessoa armada na caçamba, é a que os bandidos usam no interior pra assaltar bancos. E mais, não sabíamos que uma L200 semelhante a nossa havia sido usada pra assaltar o banco de uma cidade vizinha há poucos dias.

Quando vimos a viatura dando a volta e nos seguindo entre os 5km que separam a Fazenda do centro da cidade, obviamente já nos acendeu o alerta que havia algo errado, só não entendi porque esperaram a gente entrar na cidade pra mandar parar o carro. Talvez pra alguma espetacularização pública. No primeiro semáforo apareceram viaturas dos quatro cantos, mandaram descer, com armas em punho, até vermos a cara de decepção dos policiais com a gafe cometida.

Alguns policiais eram amigos do Idson, o que desarmou os ânimos rapidamente ao o verem dentro do nosso carro. Desfeito o mal entendido, nos explicaram o que havia ocorrido nos dias anteriores na região e seguimos em frente.

Quixadá seria nosso primeiro trabalho com da EcoExpedições com as fotos aéreas feitas em nosso drone. A paisagem da cidade se misturando aos monólitos gigantes ganham um destaque extra quando visto do alto. Rodamos o máximo que pudemos, sempre mapeando os principais pontos pros próximos dias, especialmente alguns pra subir em busca dos melhores ângulos da unidade de conservação.

Seriam dias de muito esforço, com destaque pra subida da Pedra da Galinha Choca. Ponto turístico da cidade, a subida exige uma boa dose de esforços, especialmente pra quem não está muito ambientado com trilhas e subidas, mas nada homérico.

Começamos a subi-la nas temperaturas amenas das primeiras horas da manhã e tive o prazer de ser acompanhado por minha esposa. Fomos na frente do grupo já supondo que teríamos um pouco mais de dificuldade por conta dela não está tão habituada ao nosso ambiente.

A Galinha Choca tem uma trilha bem definida em todo seu trajeto, não dá pra se perder, e quando chegamos em seu topo o visual era extremamente recompensador. Por mais que a utilização do drone nos proporcione belas imagens aéreas, nada substitui o fotógrafo fisicamente no local. Conseguimos as mais belas fotos de nossa viagem justamente no topo da Galinha Choca. Melhor ainda foi ver Millene chegar bem antes do resto da equipe, castigada pelo sol, devido às horas mais tarde com que saíram da base.

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A Galinha Choca nos rendeu as melhores imagens dos Monólitos.

Da Galinha Choca ainda fomos pra outros picos e subimos os drones em mais alguns locais estratégicos. Entre um monólito e outro, visitamos também várias lagoas existentes na região, que em tempos de estiagem são os principais pontos pra fotografarmos as espécies locais, principalmente a avifauna, sem maiores esforços. Em Quixadá inclusive é possível conseguir belas fotos até nas lagoas urbanas do município, sempre repletas de vida.

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Sempre bom contar com ela nestas caminhadas (foto: instagram @luiznetto777).

Outro ponto de destaque foi nossa visita ao santuário da Congregação Mariana da Boa Semente, não por motivos religiosos, e sim pela facilidade que se encontram as águias chilenas no local. Fomos recebidos pelas próprias freiras que nos deram dicas valiosíssimas de onde encontrar os bichos.

Sua fama faz jus. Antes mesmo de estacionar o carro vimos dois exemplares adultos sobrevoando a região, naquelas alturas que estamos acostumadas a ver estas rapinantes. Era o prenúncio que com um pouco mais de paciência seria possível voltar pra casa naquele dia com belas imagens. Quando lembro a luta que foi pra fotografar a águia-chilena no Parque Nacional do Catimbau, sem sucesso, para o Expedição Pernambuco, faz as fotos delas em Quixadá parecerem mais fáceis ainda do que de fato foram.

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As freiras que nos receberam no Santuário (foto: instagram @chicorasta).

Subimos o santuário até seu ponto mais alto, conseguimos algumas boas fotos dos adultos, mas nada comparada ao exemplar juvenil que pulava de galho em galho bem próximo à entrada do Santuário. Quixadá estava sendo muito positivo.

Do Santuário fomos à principal rampa de voo livre da cidade, a Pedra dos Ventos, que também nos revelou novas faces dos Monólitos. A rampa é bem frequentada e no dia em que tivemos por lá, três pessoas estavam decolando de parapente e contemplando as belas imagens da cidade de um ponto de vista bem singular.

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O voo livre é muito praticado em Quixadá.

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Pedra dos Ventos, um dos principais picos de voo livre do Ceará.

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Além da Pedra dos Ventos, há outras rampas espalhadas pela cidade (foto: instagram @luiznetto777).

No último dia, nosso foco foi outros picos da Pedra dos Ventos, pontos elevados dos monólitos e que proporcionam belas imagens do santuário, localizado numa montanha vizinha. É possível chegar ao topo da região de carro, se o mesmo for 4×4, e foi nossa opção dado o tempo curto que ainda tínhamos na cidade. Sempre defendo que fotógrafo tem que andar a pé e em silêncio sempre que possível, mas subir e descer os Ventos a pé nos tomaria facilmente todo uma manhã de trabalho, enquanto de carro foi possível subir em cerca de 20 minutos, mesmo com os cuidados redobrados nos trechos mais complexos da subida que nos exigiu certa perícia ao volante.

Foram quatro dias ininterruptos no Monumento Natural dos Monólitos de Quixadá, uma unidade singular no coração do Brasil e que nos deixaram muitos novos amigos e muitas saudades.

Na despedida da Fazenda Magé, fomos presenteados com uma bela galinha de capoeira no almoço. Na saída, um breve pit stop na RPPN Fazenda Não Me Deixes, fundada pela nossa imortal Rachel de Queiroz. O tempo era curto, uma vez que as Reservas Particulares não integram os livros da EcoExpedições, mas tão pertinho de uma RPPN tão famosa, não podíamos deixar de dar um pulo por lá. Pena mesmo só dispor de algumas horas de nossa última tarde. Foi o suficiente pra nos encantarmos com as histórias de Seu Manoel Dias, antigo morador da Fazenda e que nos apresentou um pequeno trecho da caatinga preservada da RPPN, sua Casa Grande e muitos dos lugares preferidos da escritora.

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A sede da Fazenda Não Me Deixes continua como a escritora a deixou.

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Chico e Seu Manoel (foto: instagram @chicorasta).

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Sede da RPPN Fazenda Não Me Deixes (foto: instagram @luiznetto777).

De Quixadá, partimos pro núcleo oeste das unidades do Ceará. A primeira delas, não poderia ser melhor escolha, a porção cearense da APA do Delta do Parnaíba. Seguimos os dois grupos de nossa expedição juntos até a capital do Delta! Até lá!

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 11/11/2016