Projeto chega à REBIO Serra Negra


A Reserva Biológica Serra Negra era um sonho antigo de consumo, fotograficamente falando. Em conversas com alguns amigos biólogos e professores, sempre me via quase que obrigado a ir pra lá. Quando estive na Floresta Nacional Negreiros meses atrás, já no projeto do Expedição Pernambuco, o Damásio, chefe da FLONA, me contou vários detalhes da Serra Negra, havia sido chefe da REBIO por anos e a conhecia detalhadamente. Nos orientara com todos os detalhes logísticos de onde dormir, comer etc.

A oportunidade nunca vinha, além da burocracia um pouco maior que é visitar uma Reserva Biológica, unidades tipicamente voltadas para pesquisa científica, mas com o projeto em andamento já sabia que a espera estava próxima do fim.

As histórias que rondavam a Serra Negra eram todas interessantes. Primeira REBIO do Brasil (até onde sei), criada ainda na Era Vargas, protegendo uma raridade de nossa caatinga que são seus brejos de altitude, cercada por terras indígenas, um oásis sempre verde em meio ao sertão e nos últimos anos também com um trecho da ferrovia transnordestina passando ao seu redor.

Partimos do Catimbau direto pra lá. Aproveitamos pra cortar caminho pelas estradas de terra no interior do Parque que já nos leva pra cidade de Ibimirim. Detalhe interessante é que a Reserva ocupa uma área em três cidades diferentes: Floresta, Inajá e Tacaratu, entretanto nenhuma das três sedes é tão próxima da Sede da REBIO quanto Ibimirim.

Lá tivemos o grande apoio do Diego, gestor do ICMBio responsável pela Reserva e que substituíra nosso amigo Damásio no cargo. Diego nos havia previamente concedido nossa autorização de visita e por lá fomos recebidos pelo Inaldo, indígena Pipipan e responsável no local pela Reserva.

Como chegamos já na parte da noite, aproveitamos pra alinhar alguns processos ainda em Ibimirim, onde ficamos hospedados. No dia seguinte, nas primeiras horas da manhã já estávamos diante da grande Serra. A base da subida é justamente na Terra Indígena Pipipan, onde o Inaldo mora com sua família. Tanto eu quanto Jadson fomos carinhosamente recebidos por todos.

Iniciamos a brincadeira subindo até a casa de apoio do ICMbio que fica exatamente no início dos limites da unidade de conservação.

194A9535Primeiros raios de sol na Terra Indígena Pipipan.

Os primeiros contatos com a REBIO foram encantadores. Não chegamos a subir ao topo neste momento, mas ficamos pelos mirantes da base com uma bela vista dos limites da Reserva e das zonas de amortecimento. Era possível ver bem delineado o limite da mata e o trecho da grande ferrovia que passa ao seu lado.

A obra a todo vapor, fazia subir uma névoa de poeira nos horários de trabalho que contracenavam com o verde da caatinga.

Após o primeiro contato, seguimos para um tour pelos arredores da Serra. A Unidade de Conservação é relativamente pequena, com a Serra brotando em meio ao planalto sertanejo, o que possibilita uma boa visão de qualquer lugar a sua volta. Já no primeiro fim de tarde fomos um pouco mais pra longe pra captar um pôr-do-sol com a Serra Negra na composição.

Foi justamente na obra da transnordestina que nos foi dada guarida. Aproveitamos o maquinário para conseguir uns pontos mais altos para as imagens, aproveitando que a Divina Providência nos deu belas cores neste dia.

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Já dentro da REBIO, mas ainda na base da Serra Negra, já é possível ter belas vistas do Reserva.

Já no dia seguinte partimos para começar a explorar o topo da Serra. Confesso que o dia anterior tinha servido para aguçar o desejo de explorar a região e no segundo dia toda a expectativa foi suplantada. A Serra Negra é de todos os locais do projeto que visitei até o momento, o que mais me encantou, principalmente por suas peculiaridades.

A subida da casa-base do ICMBio ao topo da Serra Negra dura cerca de 40 minutos num ritmo tranquilo. Já no trajeto é possível ver a vegetação se metamorfoseando da típica caatinga para as frondosas árvores de brejo de altitude.

O calor sertanejo intenso dá lugar a uma brisa suave e à refrescante sombra das árvores de alta copa que nos acompanha durante todo o longo topo da Serra Negra. Inaldo nos contou algumas histórias hilariantes, como os relatos dos encontros com onças no local. Encontrá-las seria um sonho, mas não seria interessante criar expectativas a este ponto, até porque a Reserva em si já superaria todos os prognósticos. A quantidade de araras-maracanã é impressionante.

Elas são “pontuais”, seguem horários bem definidos pra sair e voltar pra Reserva. Armamos nossa campana durante vários dias pra fotografar suas saídas e chegadas e vez ou outra conseguimos também captar alguns papagaios, ariscos como sempre, difíceis de se deixarem fotografar.

Em determinado momento ouvimos caititus bem próximos, com seus rosnados inconfundíveis. Nessas horas os olhos brilham, até porque deles não fotografamos pro projeto ainda, mas não foi dessa vez. Fica até um pouco de frustração no ar pois eles estavam próximos, muito próximos. E cada vez que o barulho parecia mais alto, mais estranho era não ver os animais, parecia até que a Reserva estava ali, viva nos espionando. A tensão só foi quebrada quando finalmente vimos um dos animais fugindo ao longe. Impossível fotografar, mas feliz por vê-los em liberdade em nosso Estado.

Os caititus não apareceram mais em nenhum dos dias, mas foi tanta coisa legal que encontramos, que não tem como não se sentir realizado com a REBIO e tudo que ela nos proporcionou. Inaldo ainda nos levou no “ponto triplo”, na divisa dos municípios de Floresta, Inajá e Tacaratu, além do enorme pau-de-alho, hoje oco, e que segundo nosso guia, já haviam colocado 11 pessoas dentro da cavidade da árvore.

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Jadson dentro de um grande Pau-de-Alho, que segundo nosso guia Inaldo, já foi possível colocar 11 pessoas no interior do caule.

Outro ponto interessante foi ver várias pesquisas em andamento na área da REBIO. Apesar dos pesquisadores não estarem lá durante nossa estada, haviam várias árvores com marcações e metragens em andamento. Sem dúvidas, é um excelente substrato de nosso bioma em perfeito equilíbrio e altamente propício para pesquisas biológicas.

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Nosso novos amigos na Terra Indígena Pipipan.

Além da beleza das fotos da Reserva levamos também o carinho de toda comunidade indígena Pipipan que nos recebeu de braços abertos. Sempre que descíamos a Serra éramos calorosamente recebidos por grande parte dos moradores que queriam ver as fotos e saber detalhes de como foi nosso dia no topo da Serra.

Ganhamos alguns brindes e presentes antes de nossa partida no último dia, levando também o que há de mais importante que esse projeto tem nos proporcionado: grandes amizades.

 POSTADO POR LUIZ NETTO EM 22 DE OUTUBRO DE 2014