Rio Parnaíba: pra ser grande é preciso começar pequeno

Após uma pequena pausa em nossa viagens, seguimos ainda pelo sul do estado, mais especificamente para o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba.

O parque está localizado em um bioma de cerrado nas divisas com o Maranhão e Tocantins e encontra-se inacreditavelmente preservado pela força de vontade e incansável labuta da pequena equipe de brigadistas que tenta manter a vida silvestre protegida dos grandes incêndios, mas que também sofre forte pressão do setor agrícola, grande mola econômica da região.

Nossa base foi a cidade de Corrente, localizada a 1.213 km de Parnaíba, onde moro. Desta vez, o encontro com Luiz Netto foi na capital, Teresina, ele aterrisou vindo de Recife (PE), e desde então formamos dupla atravessando o estado de norte a sul, via terrestre, até chegar à cidade sede onde está o escritório do ICMBio, órgão gestor do parque que é chefiado por Janeil Lustosa. Foi ele quem nos ajudou a montar a melhor logística com informações preciosas sobres as Nascentes.

Estivemos acompanhados pelo ambientalista Hermes Tuxaua, que nos levou inicialmente às nascentes do Rio Corrente que hoje também faz parte do Parque e, em seguida, nos conduziu até a cidade de Barreiras do Piauí, a 80 quilômetros de Corrente, onde nos juntamos ao brigadista Alairton rumo a mais esta grande imersão, desta feita pelos cerrados do Piauí.

O Parque Nacional das Nascentes do Parnaíba tem atualmente 749.848 hectares e é composto por nove municípios dos estados do Piauí, Maranhão, Bahia e Tocantins, sua vocação é preservar nada mais, nada menos a aérea onde surge a maior artéria fluvial genuinamente nordestina, o Rio Parnaíba. E claro, fotografar isso era a nossa principal e primeira missão da expedição.

Após os primeiros dias explorando o Parque nos arredores de Corrente, nos “mudamos” para uma oficina/depósito que o ICMBio mantém na saída da cidade de Barreiras do Piauí, principal acesso à área das nascentes. A oficina foi nossa casa durante alguns bons dias! É lá que o Instituto guarda as motos e os demais equipamentos da brigada de combate a incêndio.

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Nosso alojamento na oficina do ICMBio (1).

 

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Nosso alojamento na oficina do ICMBio (2).

Percorremos 90 quilômetros por um denso areal e atravessamos pontes improvisadas com troncos de madeiras, foi exatamente em uma delas que passamos nosso primeiro sufoco: o carro deslizou os pneus nos troncos e ficou literalmente pendurado por apenas duas rodas, exigindo muita cautela, perícia e esforço coletivo para sair daquela situação. Passado o perrengue, seguimos rumo nossa missão do dia: registrar o local geográfico onde nasce o Rio Parnaíba. Durante o percurso, chamou atenção o quanto a luz que cai nos cerrados piauienses é dourada e fotograficamente harmoniosa durante a maior parte do dia, mesmo nos horários tidos como ruins e de luz dura.

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No cerrado piauiense (1).

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No cerrado piauiense (2).

Seguimos pelas trilhas até o carro não ter mais por onde ir, era hora de pegar toda a tralha pesada de equipamentos, mantimentos e água para caminharmos por mais seis quilômetros. No trajeto, atravessamos mais alguns riachos usando tronco de árvores como ponte e foi onde começamos a avistar casais de araras. Casais no plural mesmo, eram vários, a cada 10 ou 15 minutos um par cruzava nossas lentes, sem contar nos bandos de papagios de várias outras espécies voando tranquilamente pelos cerrados.

Estávamos no paraíso destes psitacídeos, foi possível fotografarmos a arara-canindé (Ara ararauna), arara-vermelha-grande (Ara chloropterus), arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus), além da aratinga-de-testa-azul (Thectocercus acuticaudatus), estes todos são bichos muito visados pelo tráfico de animais, além da maracanã-do-buriti (Orthopsittaca manilatus) que rendeu para o Piauí o primeiro registro dessa espécie no Wikiaves para o estado.

 

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Nosso guia Hermes Tuxaua saltando os riachos que cruzam o caminho até as nascentes.

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Mesmo riachos estreitos apresentavam boa profundidade em alguns locais.

Até que, enfim, chegamos à meta do dia, momento emocionante porque eu cresci vendo a imponência com que o Rio Parnaíba chega ao final de seus 1.700 quilômetros e se transforma em cinco grandes fozes para enfim correr para o mar formando o único delta em mar aberto das américas.

E isso me motivou para chegar na modesta nascente do maior rio genuinamente nordestino.
Foi mais uma lição da natureza: para ser grande é preciso começar pequeno!

Nossa imersão pelas Nascentes do Parnaíba ainda durou dez dias onde registramos uma biodiversidade incrível como o lobo-guará, o maior canídeo da América do Sul, o jacurutu (Bubo virginianus) que é a segunda maior coruja do mundo e bicho topo de cadeia raro de ser visto durante o dia, principalmente em se tratando de Nordeste; além da Cachoeira do Pintado, a primeira formada pelas águas do Parnaíba. Ainda esticamos alguns quilômetros visitando a ala sudoeste do Parque, na divisa com o Maranhão onde passamos pela primeira ponte sobre o Rio Parnaíba.

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Nossa chegada nas nascentes do maior rio genuinamente nordestino.

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Mais um dia de trabalho em que exploramos os melhores mirantes pra fotos panorâmicas do Parque.

 

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A primeira ponte do Rio Parnaíba separando Piauí do Maranhão. Quem atravessa as gigantescas pontes das rodovias sobre o mesmo rio, sequer imagina que é assim que ele começa.

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Luiz, numa das cachoeiras do lado do Maranhão.

Apesar do foco ser o lado piauiense do Parque, aproveitamos a investida pra explorar o igualmente belo lado do Maranhão, repleto de cachoeiras e de biodiversidade. As Nascentes são um parque gigante, e o acesso a áreas mais isoladas do lado do Maranhão e do Tocantins, exigirão toda uma nova logística. 

Nossos agradecimentos ao ICMBio e à Prefeitura de Correntes pelo apoio em mais esta etapa de nosso projeto! Agradecimentos mais que especiais ao Janeil, aos nossos companheiros de caminhada Hermes e Alairton, a Juliana e toda equipe da Prefeitura de Corrente. Nossos sinceros agradecimentos. Este projeto só é possível graças a este esforço coletivo de todos que cruzam esta caminhada.

POSTADO POR CHICO RASTA em 03 DE NOVEMBRO DE 2015