Sete Cidades, o retorno!

Com um mundo de belos lugares pra visitar, nunca é minha prioridade voltar aos que já tive a honra de fotografar, salvo exceções em que eu tenha que retornar pra um novo trabalho no mesmo local ou por ter criado uma relação afetiva que me “obriga” a retornar no futuro.

No caso do Parque Nacional de Sete Cidades atendeu-se a ambos os requisitos. Estive pela primeira vez aqui em 2013, por um curto intervalo de tempo e quando tive que seguir viagem havia ficado com aquele sentimento de que havia muito a descobrir naquele lugar.

“Expedição Piauí” me fez voltar ao Parque dois anos depois. Obviamente num intervalo de tempo tão curto não trouxe tantas mudanças na unidade de conservação, que é uma das mais estruturadas do país, algo comum na parte centro-sul do Piauí, que conta também com o Parque Nacional da Serra da Capivara entre os de melhor estrutura para visitantes no Brasil.


Parti da Cachoeira do Urubu rumo a Piripiri, cidade onde se encontra o Parque, na madrugada de uma segunda-feira, numa lotação que faz a linha regular entre ambos os municípios.


Chico, que havia ido com nosso veículo de apoio rumo a Parnaíba pra resolver alguns compromissos pessoais, me encontraria novamente na base do Parque. Da rodoviária de Piripiri para a entrada do Sete Cidades, que fica a algumas dezenas de quilômetros, a única maneira de ir é de taxi, tendo um ponto logo na saída da rodoviária.


Ainda cheguei a Piripiri um dia antes do Chico. Fui muito bem recebido pela equipe técnica do Parque, comandada na ocasião pelo Maurício, que reservaram um quarto no alojamento de pesquisaores pra nosso time. A ideia era aproveitar o dia sem o Chico pra planejar a semana que teríamos por alí, baixar e selecionar as fotos da Cachoeira do Urubu, de onde eu vinha, recarregar pilhas e baterias, limpar os contatos do flash que passou a teimar em falhar, lavar roupa, preparar comida, limpar as lentes e filtros, conversar com os funcionários do ICMBio pra buscar as últimas dicas, entre tantas atividades que fazem a gente literalmente não parar nesta vida.


Até comecei a fazer parte do planejado, arrumei um lugar pra almoçar enquanto colhia dicas de onde encontrar os jacus, as raposas, o urubu-rei, cutias e outros animais de maior porte que rondam o local, mas com o cair da tarde, ao ver a bela “hora de ouro” que se formava não resisti e o dia de “folga” fotográfica me rendeu ótimas imagens logo nos primeiros minutos. 

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Faltou chão e tomada pra tanto equipamento (foto: instagram @luiznetto777).


Os jacus, que segundo informações apareciam em bando logo na portaria do alojamento por volta das 5 da madrugada, já estavam ali com uma linda luz sobre suas penagens. Uma obrigação a menos pros próximos dias. 


O Sete Cidades é composto por sete grandes grupamentos de rochas (chamadas de cidades) das quais visitei logo duas neste primeiro fim de tarde. Tive a sorte de ainda fotografar alguns papagaios, dentre outras aves mais raras da caatinga.


À noite, fui convidado por fiscais do ICMBio pra comer um capote (conhecido em algumas cidades por guiné), que por sinal estava delicioso, e neste caminho, entre o alojamento e o restaurante na saída do Parque, cruzamos com nada menos que três raposas. Na escuridão total tive que apelar ao flash, mas as fotos não ficaram tão boas quanto as que conseguimos deste mamífero na Serra da Capivara.


O alojamento do ICMBio possui uma estrutura bem acima da média e o fato de poder abrir a porta nos primeiros raios de sol já no “coração” do Parque nos faz economizar muito do precioso tempo de trabalho.


A informação de que a manhã, logo a frente do alojamento, torna-se um aglomerado de jacus era a mais bela verdade. Logo ao abrir a porta não deu pra contar, mas certamente havia mais de cinquenta deles espalhados pelo descampado que era uma pequena arca de noé piauiense. À nossa frente além deles e de outras aves, também haviam duas cutias e dois machos de iguana numa batalha cruel por território que terminou com um deles seriamente ferido. Aqueles momentos raros em que o fotógrafo vai ter a (ótima) dúvida do que fotografar.

Mal tinha começado a trabalhar e já havia muita coisa boa pra tão pouco tempo no Parque. Como os jacus já tinham dado o ar da graça numa luz até melhor na tarde anterior, fotografei alguma coisa da revoada destes, mas em seguida foquei nos mamíferos que passavam desavisados e principalmente na sangrenta batalha das iguanas. Já havia lido que vez ou outra os machos guerreiam no melhor estilo dos mamíferos africanos, mas foi a primeira vez que pude ter a oportunidade de ver isso ao vivo e durante o longo período.

Chico apontou no Parque no final desta manhã. Com ele, alguns amigos cariocas que passando férias no Piauí e aproveitaram pra seguir meu parceiro até o Parque. Pude conhecer melhor uma família admirável, a Leyla e o Fernando, além de seus dois filhos, Pedro e Arthur, que já haviam conhecido as belezas incomparáveis do Delta do Parnaíba e após o Sete Cidades seguiriam para o litoral do Ceará.

Alias, essas pessoas que fortuitamente cruzam nossos caminhos nessas andanças é um dos grandes prêmios desta vida. Leyla e Fernando são bem engajados na causa ambiental e nos permitiram valiosas e enriquecedoras conversas enquanto estivemos juntos. Mesmo passando a maior parte do dia separados, em virtude de nosso trabalho que exige estar acordado nas horas mais impróprias, procuramos nos encontrar com eles sempre nas refeições, quando possível, e terminamos por cruzar com o veículo deles em algumas das trilhas.

 

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Fernando, Leyla e Arthur.
 

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Um dos mais belos mirantes do Sete Cidades (foto: instagram @luiznetto777).
 

O sete cidades é quase que uma “miniatura” da Serra da Capivara, com bioma semelhante e belas formações rochosas, mas de dimensões menores e mais próximo da capital e do litoral piauiense/cearense, o que facilita bastante o fluxo turístico. O Parque ainda conta com boa rede hoteleira em Piripiri e um grande hotel logo na área limítrofe da unidade preservada. A região é conhecida por ser, além de caatinga, uma área de transição para o cerrado.

Nosso guia nos dias que estivemos por lá foi o Moisés, profundo conhecedor daquelas brenhas. Nos deixou de cara com belas aves como o periquito-rei, o casaca-de-couro, o periquito-da-caatinga, a corujinha-do-mato, mãe-da-lua, papagaio-verdadeiro, gavião-cauré, acauã, entre outros.

Também nos levou pra um pesado trekking rumo a um vale onde os urubus-reis aparecem. Foi das caminhadas mais pesadas que tivemos e avistamos os bichos no limite da trilha, um pouco longe é verdade, mas o fato de não conseguir vê-los de perto não tira a importância da trilha que nos rendeu belas fotos, especialmente do pôr-do-sol.

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O último trekking rumo ao vale dos urubus-reis foi um dos pontos alto.

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Chico Rasta, parceiro nessa empreitada.

Apesar de sua dimensão menor em comparação com as gigantes áreas de preservação do sul do estado, o Sete Cidades protege uma significativa área da caatinga piauiense, uma região de beleza cênica ímpar que é muito procurada para produções cinematográficas. A região também guarda belas pinturas rupestras protegidas pelos limites do Parque.

Nossas inspeções noturnas pra buscar alguns mamíferos também nos renderam belas fotos de aves, especialmente as não raras corujas desta área do estado e belíssimas fotos de paisagens noturnas, coisa que o Chico adora fazer e o faz com extrema competência. 

Dentre os mamíferos, além das cutias e raposas do primeiro dia (e que só apareceram mesmo no primeiro dia), ainda cruzamos com mocós, rabudos e preás, todos animais de menor porte.

Das cenas marcantes que tivemos a honra de fotografar, a disputa territorial entre um papagaio-verdadeiro e um gavião-cauré foi um momento único. Os papagaios    costumam fazer seus ninhos em muitas das pedras mais belas do Parque, o que nos concede belíssimas composições.

Assim foi nossa estada por estas bandas, muitas fotos, grandes amigos e boa comida, findando na doce sensação do dever cumprido de levar belas imagens do Parque Nacional de Sete Cidades para o nosso livro.

Daqui é hora de voltar para o sul do estado. No nosso roteiro ESEC Uruçui-Una, APA Chapada do Araripe, APA Serra da Ibiapaba e na volta para o litoral, uma parada na FLONA de Palmares e por fim o Delta do Parnaíba.

Até lá e em breve mais notícias desta caminhada!

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 05 DE JANEIRO DE 2016