Um Ceará pouco conhecido

O início de Expedição Ceará por mares menos turbulentos, nas belas formações rochosas de Quixadá e nas sempre encantadoras águas do Delta do Parnaíba, foram uma bela introdução do que nos esperava.

Desde o início da pré-produção do projeto, sabíamos das dificuldades que seriam visitar o Parque Estadual das Carnaúbas, não só pelas poucas informações que dispúnhamos , como também por saber ser das regiões mais isoladas do estado.

O Ceará viveria sempre com a falsa comparação em nossas mentes de tudo que encontramos ao longo de Expedição Piauí (e nesse momento que começamos a curadoria de das imagens do projeto anterior, se torna ainda mais visível esta distorção na comparação).

Ecossistemas um tanto distintos, processos de urbanização e ocupação ainda mais distintos, perfil de unidades de conservação igualmente diferentes. Como já citamos aqui, o Ceará nos proporcionava muito mais UC’s que o Piauí, mas unidades bem menores em dimensão territorial e, consequentemente, bem mais complexo de topar com a mastofauna e outros atrativos. Nem por isso, e a Coleção EcoExpedições nos vem ensinando muito disso, o Ceará deixaria de ter várias e agradáveis surpresas.

O Carnaúbas seria o que mais nos exigiria esforço físico, a falta de acesso viário, a necessidade de subir a Serra das Flores e suas intermináveis trilhas, faria do Parque um dos pontos altos do projeto, certamente o mais isolado e de natureza mais intocada de todo o Ceará.

Nos foi de grande ajuda o apoio do Thieres, biólogo amigo de Chico de outros carnavais, que conhecia bem a região e organizou tudo pra gente. Chico e ele inclusive fizeram uma visita prévia ao local, que nos fez optar por subir ao Parque pela cidade de Granja, mais especificamente pela Serra das Flores.

Cerca de um mês depois, lá estava eu embarcando para Fortaleza, desta vez para nossa visita oficial à Serra das Flores. Thieres, o Pool, professor ligado a diversos movimentos sociais de Fortaleza e Leandro, um veterinário colega de nossa turma, me receberam no aeroporto e seguimos direto para Granja. Mais cedo, outros colegas de Fortaleza já haviam partido, bem como o Chico e o Vinícius, viriam de Parnaíba na mesma data.

Os três grupos se encontraram em Granja já ao fim da noite, por volta das 22 horas. A culpa do atraso era “minha”. Más condições climáticas no aeroporto do Recife atrasaram minha viagem em mais de 3 horas. Na ocasião pude conhecer os outros dois integrantes que nos acompanharam, o Leonardo e o Gabriel, um jovem biólogo que viria a se tornar um grande amigo após a passagem do projeto por Granja.

Nosso planejamento inicial era ir direto a casa de Seu Cesário, o guia local que sempre acompanhava o Thieres na Serra das Flores ainda no dia da chegada, mas por um instante hesitamos devido ao adiantar da hora. Pensamos em ficar na cidade de Granja por uma noite, Seu Cesário vivia na zona rural, já aos pés da Serra das Flores, seriam cerca de 40 minutos por estradas de barro até lá e chegar já de madrugada na casa dos outros nunca é muito educado (sim, não há sinal de celular na casa de Seu Cesário). Após um breve debate, optamos por sim, seguir até lá, mas ficar do lado externo da casa até Seu Cesário acordar, já visando não nos atrasarmos à violenta subida que nos aguardava.

O plano, obviamente, não funcionou. Seu Cesário apareceu assim que as luzes do carro apontaram no terraço da casa dele e como de costume, a hospitalidade interiorana se fez presente, espalhamos as redes, alguns dormiram dentro dos carros mesmo, incluindo este que vos fala.

Mal o sol raiou no horizonte, lá estávamos todos a postos. Impressionante a disposição de Seu Cesário. Até o ponto do acampamento-base mapeado por Thieres e Chico um mês antes teríamos praticamente um dia inteiro de caminhada, serra acima.

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Time se preparando para partir.

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Hora de apresentar todo o time, da esquerda pra direita, Vinícius, Leonardo (sentado), atrás dele o Thieres e atrás do Thieres tão o Pool (camisa verde) e o Leandro. No centro eu, de camisa vermelha o Seu Cesário e o Gabriel sentado na direita. O Chico vocês já conhecem, é quem tá por trás da câmera.

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Início da subida. Seria bem pior um pouco mais a frente.

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Seu Cesário sempre à frente, puxando a fila.

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Muitas vezes não havia trilha bem definida no caminho.

Com tanta gente se conhecendo pela primeira vez, era normal uma sobreposição de equipamentos e afins. Fizemos uma rápida triagem onde eliminamos alguns pesos extras e partimos rumo a mais um ponto especial de nosso Ceará, a Terra da Luz.

O subtítulo do projeto se encaixaria perfeitamente na Serra das Flores e no Parque Estadual das Carnaúbas. Muito calor mesmo nos horários iniciais da manhã e por, ironia do destino, nos arredores do meio-dia passávamos pelo trecho mais íngreme do trajeto.

Meu cantil se esvaziara nas primeiras horas. O foco era partir direto pro acampamento-base para só pensar em fotografia com mais afinco após um bom descanso por lá, mas é difícil conter o ímpeto do fotógrafo.

Muitas vezes a natureza nos prega peças injustas. Quis o destino que o melhor encontro de toda nossa estadia no Parque se desse justamente nestas primeiras horas, quando ainda estava me acostumando com o peso extra da mochila-cargueira, além de carregando temporariamente uma bolsa de um dos nossos colegas que saíra pra buscar água num córrego próximo. A sensação de ver um enorme veado-catingueiro cruzar seu caminho enquanto você se desloca lentamente carregando duas cargueiras super pesadas não é das melhores. Ainda consegui manusear, com extrema dificuldade, a câmera que vinha pendura no meu pescoço, mas infelizmente, o vulto saído na imagem em pouco lembrava o belo animal que cruzara nosso caminho. Ossos do ofício.

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Um dos riachos em meio a pesada subida do primeiro dia, onde paramos para “almoçar”.

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Algumas paradas pra fotografar nos mais belos mirantes da subida.

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Já no fim da pesadíssima subida da Serra das Flores.

Geralmente, em UC’s com o perfil do Carnaúbas, que nos exige uma expedição e autonomia total em áreas remotas, sem ponto de apoio, a carga extra é considerável e o primeiro dia é sempre o mais complexo. Minhas costas sempre necessitam de pelo menos umas duas horas pra se adaptar ao peso da cargueira, tempo pelo qual evito fotografar, salvo alguma exceção especial, até por ser geralmente nas primeiras horas que estamos ainda muito próximos das comunidades de origem não tendem a ser tão interessantes pra quem busca a natureza intocada.

Enfim, cruzamos por alguns riachos, água não foi problema em momento algum, almoçamos” ainda em meio às subidas íngremes e chegamos ao acampamento-base por volta das 15h. No trajeto Chico ainda soltou o drone por alguns instantes para algumas belas imagens aéreas.

Confesso que cheguei por lá bem mais cansado do que planejara. O fato de ser o local do Ceará com maior incidência de serpentes venenosas me fez tomar o cuidado de usar perneiras, mesmo nas trilhas principais, e senti um pouco a circulação comprometida por uns instantes, o que me fez mudar nos dias seguintes e optar por utilizá-las apenas nos momentos de adentrar nas matas mais fechadas fora das trilhas.

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Nossa base montada.

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A primeira de tantas refeições que fizemos na Serra das Flores.

A primeira noite de descanso foi mágica, como costumam ser as primeiras noites totalmente imerso no colo da Grande Mãe. É sempre aquele momento de ruptura que nosso cérebro precisa um tanto pra finalmente se sentir verdadeiramente em casa, fato que é desencadeado principalmente quando anoitece e é possível ver, finalmente, todas as constelações que as luzes artificiais das cidades nos impedem. A temperatura amena, chegando a 18 graus durante a madrugada, a límpida água do riacho o qual acampávamos à base, as belas histórias e causos de Seu Cesário, a fogueira ladeada pelo amigos durante o jantar. Tudo contribuía para sabermos que teríamos belos dias pela frente.

Dado o grande esforço que havíamos feito no dia anterior, na primeira manhã do acampamento-base optamos por incursões nos seus arredores, umas duas horas pra cada lado ao longo de todo dia, indo e voltando para o acampamento, com direito a belas cachoeiras e claro, elas, as serpentes. Encontramos três delas, de distintas espécies, nenhuma peçonhenta, mas já deixava claro a fama que o Carnaúbas tinha era real.

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Mesmo com as águas dos riachos não estando tão fortes, haviam muitas e belas cachoeiras nos arredores de nosso acampamento. Um alívio ao calor escaldante da região.

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Um dos picos dos arredores que estávamos acampados. Nossa base estava ali, no fundo do vale, em meio às árvores verdes.

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Uma falsa-coral (Oxyrhopus trigeminus) que cruzou nosso caminho.

O Thieres e o Leandro aproveitaram o dia pra espalhar suas camera-trap nos arredores do acampamento. Iriam deixar por lá por vários meses a fim de estudar a população e espécies existentes na região.

Chico que era um dos mais cansados da pesada subida anterior, aproveitou pra “visitar” o Carnaúba com o drone. Foram várias belas imagens que com certeza estarão no livro final.

O dia finalizou com um belo crepúsculo e o planejamento para seguirmos no dia seguinte até o “Covão”, grande vale rico em biodiversidade que ficaria distante mais um dia de caminhada.

Sentamos novamente para conversar a respeito. A grande riqueza de fauna e flora que encontramos no acampamento-base nos fez repensar a logística de levar todo o acampamento até o covão, até por ser um trajeto em que em muitas oportunidades não havia trilha definida. Optamos por dividir o time. Chico, Vinícius e Thieres ficariam no acampamento, explorando mais do que o Carnaúbas tinham a nos oferecer naqueles arredores, enquanto o resto da equipe seguiria pro covão ainda de madrugada, leves e sem carga, de forma que pudesse ir e voltar no mesmo dia.

A estratégia se mostraria muito correta. O belo trajeto até o Covão era cercado de desafios e certamente seria deveras desgastante percorrê-lo com todas as cargueiras. Se deslocar leve, só com equipamento fotográfico água e comida, me deu uma boa liberdade pra poder trabalhar e trazer belas imagens. Seu Cesário e Gabriel me ajudaram levando parte dos equipamentos mais pesados, tripés e afins, enquanto pude me concentrar na atividade fim da expedição que eram buscar as imagens daquele pedaço do Ceará quase nunca fotografado.

Neste dia tão especial cruzamos com um gambá e um porco-espinho no trajeto, novamente fui frustrado na tentativa de fotografá-los, desta vez não pelo cansaço ou pelas mochilas, mas pela furtiva vegetação agreste da região. O gambá saiu correndo e se escondera numa grande toca bem abaixo do ponto de onde descansávamos. Certamente ficaria ali por todo dia até irmos embora.

Não dava pra esperar. Seriam poucos dias por ali e precisávamos cruzar os quatros cantos da unidade de conservação. O Covão realmente era uma área diferenciada. Do topo das escarpas que seguíamos pelas trilhas fracamente ainda delineadas, era possível ver no fim, um vale verde, contrastando com a vegetação um pouco mais seca do restante do Parque, um forte indicativo de ser uma área rica em água.

A saída do acampamento-base para o Covão ainda de madrugada nos fez chegar por lá ainda um pouco antes do meio-dia, uma hora terrível para fotografar, mas as altas e frondosas árvores do local, nos davam muitas áreas de sombras relativamente uniformes. Após a parada para o almoço era nossa hora de voltar ao batente, desta vez nos arredores do verde vale do Covão. Haviam algumas fogueiras apagadas, indicando que talvez caçadores passaram por ali nos últimos dias. Mais um indício que havia bichos por ali. Além dos rastros de cutia que encontramos, o destaque foi para uma enorme jiboia que descansava ali pertinho de onde almoçávamos.

Ficamos cerca de 3 horas rodando pelo Covão até a luz dar uma amainada, já preparados para pegar parte do trajeto de volta na escuridão da noite. A volta, especialmente a subida do Covão para a trilha principal de retorno, só serviu pra ratificar que fizemos a opção mais inteligente em não ter se deslocado com todo o acampamento até ali. Só de imaginar subir tudo aquilo com as cargueiras já nos causava um cansaço extra. Certamente teríamos que inserir mais um dia à expedição.

A volta ao fim de tarde e noite não foi por acaso, fugir do sol castigante também se fazia necessário, bem como havia calculado para passar de volta por um dos belos pontos da trilha da vinda durante a hora do pôr-do-sol, o que conseguimos fazer religiosamente, bem como trazer as belas imagens planejadas. Mais do que o GPS, o senso de direção de Seu Cesário era nosso porto seguro para retornar durante a noite.

No reencontro dos dois times na parte da noite, hora de contar as vantagens de cada um ao longo dia e planejar os últimos dias por ali.

O Parque fazia jus às expectativas, estávamos no que havia de mais selvagem no Ceará, com uma infinidade de opções. Especialmente a Botânica do Carnaúbas me chamou muito a atenção. Apesar de algumas plantas invasoras no caminho, por um instante me senti como, guardada as devidas proporções, de volta ao Monte Roraima, com muitas e belas bromélias espalhadas aos quatro cantos.

Dias como o que passamos por lá são a verdadeira essência da Coleção EcoExpedições, de mostrar ao Brasil lugares ainda bem preservados, mesmo que pouco conhecidos.

Os dias que viriam rodaríamos por todos os arredores do Parque, não por acaso, pois o Carnaúbas encontra-se dentro da APA da Serra da Ibiapaba, outra unidade que integra nosso projeto e responsável por ser a zona de amortecimento do Parque Estadual.

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No trajeto de volta à casa de Seu Cesário, as belezas das paisagens da APA da Serra da Ibiapaba.

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Seu Cesário nos mostrando o que, segundo ele, é a melhor cachaça artesanal do Ceará, conhecida na região por um nome sugestivo: “Petróleo”.

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O time de volta à zona rural de Granja, recepcionado pela família de Seu Cesário.

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O Clã Cesário reunido. Nossos agradecimentos pela acolhida!

O caminho de volta fora coberto por muita descontração, já todos felizes com o resultado. Do acampamento-base para a Casa de Seu Cesário era só descida, contrastando com a forte subida do primeiro dia da viage. A família de Seu Cesário nos recebera com um enorme banquete, um grande sonho para quem passara dias a base de comidas desidratadas, aquela galinha de capoeira foi uma melhores refeições que fiz na vida.

Daqui voltamos temporariamente para Parnaíba para alguns dias de descanso, antes de seguimos pra Sobral, que será nossa base para a APA da Serra da Meruoca e para a Flona de Sobral. Até lá!

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 23 DE JUNHO DE 2017