Uruçuí-una, a despedida do cerrado piauiense

Não raro, em rodas de conversas com amigos e parentes, costumo ser abordado com algumas dúvidas sobre alguns parques nacionais, até mesmo os que nunca visitei. O termo “parque” já é uma certa “grife” de sucesso, a população, de uma maneira geral, sabe sua finalidade, sabe que são grandes áreas de preservação ambiental e, em tese, com estrutura e possibilidade de receber o turista. Protegem áreas relevantes do bioma brasileiro, especialmente os locais de grande beleza cênica, locais estes sempre apaixonantes para qualquer fotógrafo.

Obviamente é sempre ímpar visitar locais como Fernando de Noronha, Serra da Capivara, Cataratas do Iguaçu, entre outros, mas sempre nutri grande prazer em visitar estações ecológicas e reservas biológicas. Tais áreas, desconhecidas do grande público, são ainda mais restritivas que os parques, possuem como objetivo primário a pesquisa e, obviamente, a proteção ambiental. Por vezes protegem substratos uniformes, não necessariamente com a mesma beleza cênica de parques e afins, mas do ponto de vista de registro de um determinado bioma é sempre a melhor opção pra um fotógrafo minimamente conhecedor da região em que está visitando. Muitas vezes até mesmo conseguir informações sobre tais áreas é algo complexo, pois não existem guias turísticos na web, depoimentos de visitantes ou algo assim, sendo sempre necessário recorrer aos órgãos públicos ambientais, pesquisadores e afins.

A próxima parada de Expedição Piauí era em Uruçuí-una, uma estação ecológica localizada no sudoeste piauiense, na divisa com o Maranhão, região que experimenta um grande crescimento econômico impulsionado pela soja, apesar de estar em localização bastante isolada.

O “encanto” quando passei pelas Nascentes do Parnaíba meses atrás foi imediato e automaticamente aumentou de forma exponencial meu interesse por Uruçuí-una, por se tratar também de uma região de cerrado, bioma que nos proporcionou, nas Nascentes do Parnaíba, ótimas fotografias.

Esperava ali encontrar um grande substrato do belíssimo cerrado piauiense e apesar da região ainda não estar com sua questão fundiária totalmente regularizada, foi exatamente isso que encontramos.

Chico e eu havíamos entrado em contato com a Prefeitura de Baixa Grande do Ribeiro, cidade a qual pertence à unidade, e recebemos grande apoio da Secretaria de Turismo.

Tivemos, entretanto, que optar por outro caminho, dado que mesmo a base urbana do ICMBio ficava na cidade de Bom Jesus, que apesar de não ser oficialmente a “dona” da ESEC, era o município mais próximo da área protegida, apesar deste “próximo” ser algo bastante relativo em se tratando do gigante, belo e cênico sudoeste piauiense.

Da sede urbana em Bom Jesus à base operacional do ICMBio dentro da reserva, são mais de 2 horas de viagem em estradas de barro (aconselhável veículo 4×4) e, obviamente, nem precisamos dizer que sinal de celular, internet e afins é artigo de luxo por aquelas bandas.

Ainda na cidade fomos muito bem recebidos pela gestora da unidade de conservação, a Simone, e sua equipe, em especial Seu Hélio, que nos acompanhou durante todos os dias. Saímos em direção à Estação logo após o almoço, abastecemos o carro para os cinco dias que ficaríamos longe da “civilização” e seguimos rumo à sede da ESEC que ficava na casa grande de uma antiga fazenda desapropriada e goza de boa estrutura para os brigadistas que são a maioria por ali.

O caminho era sinuoso e contornava gigantescas plantações. Só mesmo o olhar experiente de Seu Hélio pra evitar que perdêssemos a rota. Havíamos cruzado uma imensidão de soja em estradas de barro com muita poeira (sempre bom ter uma lona pra enrolar os equipamentos da caçamba neste tipo de estrada).

Ao chegarmos, num fim de tarde, fomos recebidos por dezenas de brigadistas. Além deles, apenas nós iríamos nos hospedar no local. Apesar de não ter luz elétrica, a base possui um bom gerador que é acionado todas as noites e uma boa estrutura para o grau de isolamento da região.

Os brigadistas lotavam o alojamento, era período de estiagem e as queimadas estavam a todo vapor. Hoje, o ICMBio usa como estratégia a contratação de moradores locais para compor a brigada, o que é ótimo para aumentar a consciência social da relevância da UC, que passa a ser vista pelas comunidades como uma fonte de renda caso esteja preservada.

A priori, as queimadas, acidentais ou não, a pressão do agronegócio e a regularização fundiária de parte da ESEC, especialmente as áreas mais próximas a Baixa Grande do Ribeiro, são os grandes “inimigos” da preservação de Uruçuí-una, mas sua enorme dimensão, atrelada ao isolamento da região findam por ser vetores positivos para a proteção da biodiversidade local.

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Muitos moradores ainda residem no interior da ESEC, de onde retiram seu sustento e plantam em pequenas propriedades.

De todos qeu nos receberam, o brigadista Antônio Carlos foi o que mais se interessou em nosso projeto quando explicamos o motivo de nossa visita. Nos passou dicas excelentes de onde encontrar determinadas espécies e fizemos o convite para ele nos acompanhar naquela jornada, o que foi prontamente autorizado pelo ICMBio.

Fomos a campo ainda neste mesmo dia, aproveitando as últimas horas de sol. Tal qual no Sete Cidades, o primeiro fim de tarde já nos foi extremamente satisfatório. Antônio nos levou a um grande charco que, mesmo na estiagem, mantém uma boa quantidade de água e é ponto de parada de várias aves, incluindo as de grande porte como a curicaca e a anhuma.

Foram várias fotos de diversas aves, várias mesmo, incluindo ninhos de espécies de pica-pau, alguns anfíbios e na volta pro nosso carro, já com o céu completamente escuro, algumas fotos noturnas e uma “corujada” básica nos arredores de um belo descampado com árvores espaçadas, com ótimos poleiros, onde nos deparamos com um caburé, uma corujinha-do-mato (ambos sempre presentes neste lado do Brasil) e uma bela mãe-da-lua.

Isso tudo no primeiro dia! Que dia!

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Antônio Carlos nos levando para o interior do cerrado piauiense.

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Chico passarinhando numa manhã qualquer em Uruçuí-una (foto: instagram @luiznetto777).

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Imediações da Pedra Furada, um dos lugares que mais nos atraiu na ESEC.

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E conseguimos subir até o topo da Pedra Furada.

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Topo da Pedra Furada.

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Chico “perdido” na imensidão o cerrado piauiense.

Nos dias que se seguiram desfrutamos da bela imensidão da ESEC em sua totalidade. Contornamos literalmente toda sua extensão, especialmente a parte sul, mais próxima de Bom Jesus, que é onde há uma melhor estrutura do ICMBio.

Saíamos sempre muito cedo, mais cedo que o habitual (que já é cedo pela natureza de nosso ofício) e havia uma boa razão: um sempre encantador sol do cerrado piauiense, que já havia arrebatado nossas almas no Parque das Nascentes e por aqui era igualmente belo. Por conta das grandes distâncias, chegar em determinados locais que havíamos mapeado pra ver o sol nascer exigia as saídas nas horas mais impróprias, com direito a poucas horas de sono, ou, no caso de Chico, noites sem dormir mesmo.

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Pelas nossa cara dá pra estimar a média de horas de sono durante nossa passagem pela ESEC (foto: instagram @luiznetto777).

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Um dos nosso poleiros preferidos pra passarinhar.

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Os primeiros raios de sol de um dia no sudoeste do Piauí.

Por falar na dormida, o ICMBio nos reservou um quarto numa das casas, mas as redes na área externa da base do instituto eram extremamente convidativas e o clima à noite sempre agradabilíssimo. O céu, bem, aquele céu estrelado único do cerrado brasileiro que impulsiona a vontade incontrolável de fazer o relógio parar e por ali ficar por um longo período.

Mas nossa parada em Uruçuí tinha os dias contados e de todas as áreas que visitamos no Expedição Piauí até então, sem dúvidas Uruçuí-una foi a de mais longas jornadas. Seu isolamento dificultava que no futuro fizéssemos novas visitas, então, literalmente não podíamos errar, nem fazer trabalho incompleto. Não é exagero dizer que em alguns dias chegamos a ficar 18 horas direto percorrendo a ESEC, seja a pé ou de carro.

Graças a este empenho de toda a equipe fomos recompensados novamente pelas maiores estrelas do serrado piauiense, as araras, de todo tipo, canindé, azul, vermelha, dentre dezenas de outros psitacídeos, um bando de emas, incontáveis, que se metamorfoseavam entre às matas e as plantações de soja vizinhas à ESEC.

Já os mamíferos só encontramos mesmo os de pequeno porte, fato também já esperado em virtude da questão fundiária ainda ser um entrave e nada espanta os grandes bichos mais que o homo sapiens, mas a diversidade ornitológica foi, de fato, o que mais nos chamou a atenção: os já citados psitacídeos, rapinantes, passeriformes dos mais diversos e coloridos tipos, dentre tantas outras famílias de aves.

Chico, grande passarinheiro que é, já havia feito uma forte pesquisa prévia, separado os playbacks e levou pro Wikiaves os primeiros registros do estrelinha-ametista e do curió em território piauiense.

Ainda vale o registro das pessoas maravilhosas, a maioria moradores do entorno e até mesmo da parte interior da ESEC (ainda não desapropriados) que nos receberam sempre com a cordialidade habitual do piauiense. Destaque maior pra bela (e numerosa) família de nosso guia, Antônio Carlos, que nos serviu um belo almoço em um de nossos dias. Foram prosas inesquecíveis que vamos levar pro resto de nossas vidas.

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Eu entre a querida família de nosso agora irmão Antônio Carlos (foto: instagram @luiznetto777).

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Chico e a nossa família de Uruçuí.

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Uma das irmãs de Antônio Carlos. Família vive no interior da ESEC desde sempre.

 

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Estado do filtro de ar de nossa L200 após a passagem pelo sudoeste piauiense.

Daqui arrumamos as malas e seguimos rumo ao centro sul piauiense, na divisa com meu Pernambuco para visitar o lado piauiense da APA Chapada do Araripe. De minha parte a certeza que o Expedição Piauí vem sendo inesquecível e é claro para nós que ainda vem coisa melhor por aí.

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 15 DE JANEIRO DE 2016