Voltando às terras de Gonzagão


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A APA Chapada do Araripe é uma das maiores áreas de proteção ambiental do país, abrangendo cidades de Pernambuco, Piauí e Ceará, incluindo pólos regionais como Crato e Juazeiro no Ceará e Araripina em Pernambuco. A cidade pernambucana, por sinal, é uma das cidades que mais se desenvolveu no estado nas últimas décadas, graças ao pólo gesseiro que colocou a região na rota da modernidade.

Dada as dimensões gigantes da APA, para o nosso projeto focamos apenas o lado pernambucano. Nossa base escolhida para os primeiros dias, apesar da melhor estrutura de outras cidades, foi nossa querida Exu, terra de nosso mestre Luiz Gonzaga e de muitos amigos pessoais.

Já estivemos em Exu no ano de 2012 quando viemos fazer a pré-produção do projeto por estas bandas, na ocasião, tive a honra de conhecer Bibi Saraiva, então Secretário de Cultura da cidade, cargo que ocupava há mais de 20 anos.

Desde então, Bibi sempre nos ligava pra saber quando iríamos à APA tocar o projeto. Mesmo sabendo que estávamos esperando um período mais propício sem a aridez excessiva da seca que assolou a região nos últimos anos, Bibi sempre se fez presente, ligando e mandando emails. Trabalhar na área cultural é sempre um grande desafio e é sempre bom quando nossos caminhos cruzam com pessoas tão interessadas e envolvidas em torno de um objetivo comum. Finalmente a espera chegara ao fim, nosso “road” pelas unidades sertanejas finalmente chegara ao Araripe. 

Há dois anos rodamos muito por aqui, praticamente todos os povoados cantados na poesia gonzagueanas já haviam virado imagens em nosso projeto, e desta vez mesmo focando as outras cidades da região, como Araripina, Moreilândia e Serrita, Exu foi nosso ponto de apoio, a garantia de boas conversas todas as noites sobre o legado deixado pelo Mestre Lua, como tantos chamam Luiz Gonzaga por aqui. Bibi e companhia são verdadeiras enciclopédias sobre o Rei do Baião e a história do Araripe.

Rodamos bastante pelos dias que lá estivemos, Bart desta vez não nos acompanhou, mas tive o prazer e o apoio do colega Márcio Miranda, outro fotógrafo pernambucano que se interessou em conhecer a região, e de minha esposa, Millene, sempre a melhor das companhias (e que sempre termina aumentando o nível de desemprego do projeto, me permitindo dispensar um assistente). Ambos nunca haviam estado antes em Exu e na Chapada do Araripe. 

Apesar de já ter percorrido grande parte de Exu e redondezas, demos um giro no primeiro dia pelos principais atrativos da cidade pra que todos pudessem conhecer um pouco dos atrativos da cidade, como o Parque Aza Branca, assim, com “z” mesmo, antiga propriedade de Luiz Gonzaga, hoje Ponto de Cultura e que conta com o tradicional Museu Luiz Gonzaga em seu interior, além da casa onde morou o Rei do Baião e a casa de seu pai, Seu Januário, ambas ainda com os móveis da época preservados.

Reza a lenda que no momento de escriturar a terra, a atendente do cartório perguntara a Luiz Gonzaga: “como se escreve asa? Com ‘s’ ou ‘z’?” No qual o filho ilustre de Exu respondeu com seu bom humor peculiar: “tanto faz, bota com ‘z’, Luiz é com ‘z’, então fica tudo certo.”

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O Parque Aza Branca, antiga fazenda de Luiz Gonzaga, hoje abriga um Ponto de Cultura, o Museu do Gonzagão, dentre outros atrativos.

Ainda fomos novamente ao povoado do Araripe, lar de várias casas históricas e próxima às ruínas da casa onde Luiz Gonzaga nasceu. Como estávamos hospedados na casa do Bibi, no povoado da Taboca, automaticamente o pessoal pôde conhecer este outro povoado tão cantado por Gonzaga.

A Chapada estava verde, havia chovido forte nas últimas semanas. Os açudes e lagos estavam cheios de marrecas-caboclas e garças. Com um pouco de sorte encontramos até um socó-boi, coisa rara por aqui.

Dada as dimensões gigantes do lado pernambucano da APA e os poucos dias que tínhamos pra fotografar, a estratégia foi rodar muito de carro pra cobrir o maior trecho possível. Particularmente não gosto muito, sempre minha preferência é conhecer as regiões a pé, pra mim, a única maneira que se realmente consegue mergulhar na realidade que se estar fotografando, mas corria-se o risco de deixar muitas áreas de fora.

Praticamente de Exu a Araripina são quase 100km de um chapadão, subidas e descidas com belas imagens. Bibi já havia nos informado que o lado pernambucano é o menos preservado do Araripe e dos pontos mais altos tivemos como verificar que, de fato, há um avanço do agronegócio por aqui. Do lado do Ceará, especialmente por ter outras unidades de conservação de destaque dentro da própria APA, apresenta-se um bom substrato de caatinga ainda bem preservado, mesmo sendo as APA´s área de uso sustentável e não de proteção integral.

Independente destes problemas, a APA em Pernambuco ainda conserva muito de seus encantos. Fomos, por exemplo, até as Camarinhas, um mirante que é um dos favoritos do Bibi e uma das poucas oportunidades que deixamos o carro estacionado para seguir a pé numa árdua subida que fez meu amigo Márcio sofrer um pouco. O visual dos paredões ao nosso redor e das ruínas do Exu Velho ao fundo valeu por demais os esforços!

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O fotógrafo Márcio Miranda e minha esposa Millene na bela subida das Camarinhas.

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Topo das Camarinhas, numa rara oportunidade de conseguir sinal de celular na área rural da Chapada.

Dentre os trabalhos de conservação na região, destaca-se as ações de reintrodução de aves de grande porte, como papagaios e araras, em fazendas da região. O trabalho feito em conjunto com o ICMBio (a Chapada é uma APA federal), tem ajudado, além de repovoar as comunidades destes animais no Araripe, a criar toda uma consciência ambiental outrora inexistente na região.

A Asa Branca, imortalizada por Gonzaga, também está por aqui. Visitamos duas casas em que o animal era criado solto, como um animal de estimação.

Dentre os outros locais de destaque que fomos, vale a pena também conferir um mirante próximo à Taboca, onde as prefeituras da região pretendem instalar uma rampa de vôo livre em breve e que tem uma das mais belas vistas da Chapada.

Já próximo do fim de nossa jornada, trocamos a nossa base de Exu para Araripina, pra ficar mais próximo da zona oeste da APA. O cenário pouco mudou, especialmente do lado pernambucano, e a Chapada continuou a nos encantar com muitas de suas paisagens.

Finalizamos nossa estada no Araripe com um belo pôr-do-sol numa área afastada da Unidade de Conservação. De lá seguiríamos o caminho de volta de quase 8 horas de viagem até o Recife, com a certeza que levávamos conosco grande parte que do que o Sertão do Araripe tem de melhor.

POSTADO POR LUIZ NETTO EM 23 DE SETEMBRO DE 2014